domingo, 31 de maio de 2009

Langueur, Verlaine


Je suis l’Empire à la fin de la décadence,
Qui regarde passer les grands Barbares blancs
En composant des acrostiches indolents
D’un style d’or où la langueur du soleil danse.

L’âme seulette a mal au cœur d’un ennui dense,
Là-bas on dit qu’il est de longs combats sanglants.
Ô n’y pouvoir, étant si faible aux vœux si lents,
Ô n’y vouloir fleurir un peu cette existence !

Ô n’y vouloir, ô n’y pouvoir mourir un peu !
Ah ! tout est bu ! Bathylle, as-tu fini de rire ?
Ah ! tout est bu, tout est mangé ! Plus rien à dire !

Seul, un poème un peu niais qu’on jette au feu,
Seul, un esclave un peu coureur qui vous néglige,
Seul, un ennui d’on ne sait quoi qui vous afflige !

(1883)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Discutir a utopia

Unicamp recebe
36 universidades para discutir a utopia

ÁLVARO KASSAB

Cena de Inteligência Artificial.Depois de Florença, Campinas. O II Congresso Internacional de Estudos Utópicos vai reunir na Unicamp, de 7 a 10 de junho, docentes, pesquisadores e estudantes de 11 países e de 36 universidades. Segundo o professor Carlos Eduardo Berriel, coordenador do evento e do Centro de Estudos Utópicos do Instituto de Estudos da Linguagem (U-TOPOS/IEL), o congresso busca delimitar a natureza literária da utopia e demarcar as modalidades de sua definição enquanto gênero. “Trata-se de definir o gênero como ponto de chegada crítico, localizando-o dentro da História concreta, deduzindo-o de forma sintética”. Nesta entrevista, Berriel faz um apanhado histórico da utopia e fala sobre seu papel nos dias de hoje.

Jornal da Unicamp – Qual o objetivo do II Congresso Internacional de Estudos Utópicos?
Carlos Eduardo Berriel – Este Congresso ocorrerá por determinação dos participantes do “Convegno Internazionale – Scienza e Tecnica nell’utopia e nella distopia”, ocorrido na Itália em maio de 2007, numa iniciativa conjunta da Revista Morus – Utopia e Renascimento e do Departamento de Estudos sobre o Estado da Universidade de Florença, e visa precisamente delimitar a natureza literária da utopia e definir as modalidades de sua definição enquanto gênero – verificando se este projeto é possível. Temos o apoio da Unicamp, do Instituto de Estudos da Linguagem, de vários centros estrangeiros de estudos utópicos. Buscaremos neste evento avaliar a historicidade da utopia, sua relação com a experiência da viagem, com a crítica social, isto é, com a política e também com os outros fenômenos literários; a utopia exige a mobilização do raciocínio filosófico, linguístico, antropológico, religioso, econômico, ético: o fundamental é conseguir transformá-lo de assunto em objeto. Trata-se de definir o gênero como ponto de chegada crítico, localizando-o dentro da História concreta, deduzindo-o de forma sintética. Definir um gênero é estabelecer o encontro entre História e uma obra específica. Há um elemento constante dentro da diversidade, e este é o terreno do gênero.

Quadro de Magritte.  Para Berriel, "a dimensão libertadora da utopia está no fato de que ela buscava adaptar não o idivíduo ao maio, mas o meio ao indivíduo" (Foto: Divulgação)JU – Quem está apoiando o evento?
Berriel – O tema da utopia possui grande relevância e tem sido objeto de reflexão privilegiado de muitos pesquisadores das principais universidades no mundo nos últimos anos. São várias as instituições diretamente envolvidas no II Congresso: a Revista Morus – Utopia e Renascimento; o U-TOPOS – Centro de Estudos Utópicos do IEL/Unicamp –, a própria Unicamp, que ajudou de todas as formas; o IEL/Unicamp, na pessoa de seu diretor; o Programa de Pós-Graduação em Teoria e História Literária; o Dipartimento di Studi Sullo Stato da Università di Firenze, Itália, com quem temos um convênio; o Centro Interuniversitario di Studi Utopici da Università del Salento, de Lecce, Itália, com quem também temos convênio; o Centro Interdipartimentale di Ricerca sull’Utopia da Università de Bologna, Itália; o Departamento de História da PUC-Campinas e outras instituições. Este Congresso será uma oportunidade preciosa de envolver os estudiosos brasileiros com a expressão de ponta da discussão sobre utopia realizada nesses centros.

JU – O primeiro congresso foi realizado em Florença e a segunda edição será em Campinas. Por que esta escolha?
Berriel – Em Florença tivemos o apoio da Universidade, através da pessoa do professor Claudio de Boni, e a várias mãos empreendemos aquele encontro, que conheceu uma surpreendente adesão – compareceram mais de 30 expositores, de 11 países. Agora teremos o dobro de expositores, e a representação de 36 universidades. Acredito que o fato da utopia ter nascido enquanto gênero no Renascimento, que por sua vez formalizou-se dentro do Humanismo florentino, pode ter a ver com a tomada de Florença como local ideal de sua realização. O Humanismo florentino criou a noção de que o homem, que é o indivíduo burguês, era livre para construir sua vida com liberdade. A existência humana terrena deixou de ser vista como destino, um livro escrito por forças metafísicas e alheias ao indivíduo, a quem cabia apenas desempenhar o papel de viver. Com o Humanismo, tudo muda. E da capacidade humana de traçar sua existência individual para idêntica liberdade no plano coletivo, foi um passo. E por livre organização do viver associado entendo a utopia. A Revista Morus, a organizadora, trouxe naturalmente para a Unicamp sua segunda edição.

JU – Como você definiria a utopia?
Berriel – Bem, a minha definição certamente coincide e também discorda da opinião de muitos pesquisadores, sendo esta divergência, aliás, a razão deste congresso. Eu penso que a utopia é uma forma de pensamento basicamente moderno, para onde convergiram várias outras formas de pensamento social. Mas a utopia é também herdeira de algumas formas de pensamento antigo, principalmente da literatura grega – da República de Platão e das viagens imaginárias de Luciano em primeiro lugar –, ambas citadas diretamente por Morus. Também foi importante o messianismo judaico-cristão, que fazia esperar a regeneração do homem e a volta ao Paraíso Terrestre.

Morus: para Kautsky, "primeiro socialista moderno"A utopia nasce trazendo uma contraditoriedade congênita: sendo filha do desenvolvimento das forças produtivas próprias do Renascimento, funda virtualmente uma sociedade tão perfeita em seus fundamentos que termina por impedir toda forma de desenvolvimento. Existe assim como uma construção imaginária refém de sua própria perfeição. A utopia, em função do contexto no qual surge, corresponde aos desejos e às esperanças coletivas de seu tempo. Em outras palavras: as utopias, partindo de elementos reais, constroem virtualmente todas as Histórias possíveis, todos os cenários que a História não realizou. A raiz desta idéia vem da Poética de Aristóteles, onde está dito ser a poesia mais ampla que a História, pois realiza até o fim aquilo que a História apenas esboçou.

Hegel elaborou um conceito de realidade notavelmente rico, em que o existente conta com várias dimensões – todas reais. Aquilo que aparece como uma tendência concreta, mesmo que não venha a se efetivar, também ganha estatuto de realidade. Para ele, a verdade do Ser está em seu processo, isto é, no fato da mais alta realidade ser constituída pelas tendências de desenvolvimento da História, bem mais do que pelos fatos, que revelam um aspecto da possibilidade dominante em um determinado momento. A utopia está aí: é uma tendência da realidade, operante e efetiva, mas que não se efetiva enquanto Estado. Ela depende da dimensão ética e política.

JU – Podemos afirmar então que a utopia está ligada a todos os campos do saber humano?
Berriel – Não há dúvida. A utopia não poderia ter surgido, enquanto gênero, sem os procedimentos intelectuais que a precederam. No campo teórico da política, juntamente com O Príncipe, ela constitui um ponto de chegada do Humanismo do Renascimento, e expõe privilegiadamente algumas de suas tópicas: a racionalização da vida individual e coletiva, e a ideia de que ambas podem alcançar a perfeição através de uma idealidade ético-social platônica. A explicação mais geral do nascimento deste gênero literário, tão próximo da história, da filosofia e da política, segue basicamente a ideia de que a utopia foi gerada pelo processo burguês de racionalização da vida, tão própria do Quattrocento e do Cinquecento. A perfeição do viver associado, da cidade, do Estado, do príncipe e do povo: esta ambição caracterizou a utopia. A construção de uma utopia, que é um esforço intelectual sempre datado, parte de um ponto de vista subjetivo que se alarga sobre o social. A utopia não parte de um ponto fora do sujeito histórico (de Deus, por exemplo), mas do próprio sujeito. Isto quer dizer que toda utopia, mesmo falando de um futuro fictício, está na verdade falando dos problemas da época em que foi escrita. A utopia possui a sua própria história, que de certa maneira é a história do inconformismo intelectual diante das formas do mundo estabelecido.

Cena de 1984, filme baseado em obra homônima de Orwell: antecipando cenários.  (Foto:Antoninho Perri)JU – E quanto às ciências da natureza?
Berriel – Lembremos que as ciências naturais, como as conhecemos, foram construídas no âmbito do Humanismo renascentista. A essência do método de Galileu, humanista toscano, estava em considerar o corpo humano como a fonte suprema do conhecimento do universo. Todos os instrumentos científicos inventados ou aperfeiçoados neste período visavam aumentar os sentidos corporais humanos, para torná-los mais eficientes. O telescópio, por exemplo, torna a visão mais eficiente. A questão central que Galileu enfrentou com a Inquisição é justamente essa, se os sentidos corporais, uma vez tendo percebido aspectos desconhecidos da natureza, seriam suficientes para obrigar a Igreja a rever seu cânone. Galileu achava que sim, a Inquisição achava que não. Não poderia haver esta concepção revolucionária sem a prévia autoconfiança humanista.

JU – Com o tempo, houve uma banalização da palavra utopia. A que você atribui essa distorção?
Berriel –
Acredito que este fato se deva ao fato de que o conceito de utopia ficou “sem dono”, isto é, nenhuma força decisiva da sociedade se identificou com ele. Com isto quero dizer que nem a esquerda nem a direita se sentiram formalizadas pelo pensamento utópico – embora em momentos esparsos pudessem se utilizar da palavra. Apenas movimentos residuais da prática política, na sua maioria de expressão pequeno-burguesa, mantiveram a idéia em uso – e isto fez mal à utopia. Há muito tempo que a utopia é alvo de críticas, o que significa que foi, neste processo, objeto de avaliação e julgamento. Como resultado destas análises, as utopias foram muitas vezes criticadas como promotoras de uma atitude cega para com as “realidades humanas”, tais como as ambições, o desejo de poder, etc., pois não é difícil imaginar uma sociedade ideal quando as realidades concretas não são levadas em consideração.

Também já foi dito que o espírito revolucionário utópico se dissolve por si mesmo, já que numa sociedade perfeita não cabem revoluções nem, portanto, mudanças e progresso. Segundo a pensadora Maria Moneti, o que aconteceu com a palavra utopia é similar ao que aconteceu com a palavra filosofia: chegamos a um uso semântico distendido destas palavras, de forma que não sabemos mais o que exprimimos quando dizemos utopia ou filosofia. Estas palavras têm no vulgar uso semelhante ao de grife de roupas.

JU – A utopia é criticada pela direita e pela esquerda. Por quê?
Berriel – A utopia tornou-se um termo pejorativo no século XIX, na polêmica entre a burguesia e a escola política liberal, por um lado, e por outro na disputa entre as diferentes correntes do socialismo anterior a 1848. Até esta data o termo é aplicado às diversas correntes do socialismo de forma claramente pejorativa. Depois das revoluções deste ano, o termo “utopia” se torna uma injúria explícita aplicada ao socialismo e ao comunismo. O termo é vitima das críticas do pensamento burguês, mas seu descrédito deve ser atribuído igualmente a Engels, que denunciou em Saint-Simon, Fourier e Owen um “socialismo utópico” e sentimentalmente pequeno-burguês. Marx e Engels se consideravam, corretamente, tanto herdeiros quanto liquidadores da utopia. Engels pensava que o socialismo científico mandara definitivamente para a lata de lixo da História a utopia.

O professor Carlos Eduardo Berriel: " A construção de uma utopia, que é um esforço intelectual sempre datado, parte de um ponto de vista subjetivo que se alarga sobre o social"  (Foto: Antoninho Perri)Hoje podemos dizer que a História mandou para a lata de lixo o socialismo real, que tanto se inspirou quanto traiu o pensamento de Marx e Engels. Desde então o marxismo tentou recuperar a utopia como testemunho da permanência da luta de classes: em 1898, Karl Kautsky refere-se a Thomas Morus como o “primeiro socialista moderno”. O socialismo real compartilhou com a direita uma adesão ao Pragmatismo, que em resumo é uma visão estreita da História, pela qual apenas os fenômenos hegemônicos são reais. Isto desqualifica a utopia, que é o real não manifesto – e todas as alternativas sociais foram canceladas. Não por acaso o Futurismo, corrente pragmática de vanguarda, teve suas conseqüências mais efetivas tanto na Itália de Mussolini quanto na União Soviética do mesmo período.

No século XX, com o socialismo real, a utopia foi removida para o plano da irrelevância. Não casualmente volta a ser estudada com intensidade depois dos acontecimentos chamados de “queda do muro de Berlim”, e por intelectuais interessados tanto em não repetir os erros do leninismo quanto em não considerar o capitalismo financeiro e sua cultura, a pós-modernidade, como o fim da História.

JU – Que é sua avaliação dos estudos sobre a utopia no Brasil? E nos chamados países centrais?
Berriel – No Brasil, ainda de um modo geral, a utilização do conceito ainda não superou a indefinição entre utopia e utopismo, isto é, entre o uso conceitualmente rigoroso da palavra e a tomada genérica do conceito. Enquanto a utopia é o conceito em seu rigor, o utopismo é a tomada de qualquer lugar ou sociedade imaginária como utópica. Se for assim, como distinguir o Sítio do Picapau Amarelo da Cidade do Sol de Campanella, ou o Planeta Mongo de Flash Gordon da República de Platão? Afinal, são todos esses lugares imaginários. Patinamos na ausência de rigor nesta área, e o II Congresso foi pensado, em parte, para sanar este problema. Isto em parte se deve à indigência da biblioteca brasileira, no que toca à utopia. Na França, Itália, Portugal, Irlanda e Inglaterra existem centros muito avançados de estudos utópicos, com uma vasta biblioteca já publicada nos últimos 20 anos, principalmente. Acaba de ser inaugurado, em Portugal, o primeiro curso de pós-graduação em utopia.

JU – Como funciona o grupo coordenado por você no IEL-Unicamp? Quais são suas atividades e linhas de pesquisa?
Berriel – Está funcionando no IEL-Unicamp o U-TOPOS – Centro de Estudos sobre Utopia, que reúne pesquisadores de algumas faculdades da Unicamp, e de fora dela. Lutamos todos contra a banalização acima referida. Muitas pesquisas de ponta estão saindo deste Centro, incluindo uma nutrida safra de traduções de utopias para o português. Aliada a este Centro está a Revista Morus – Utopia e Renascimento, com 5 números publicados, um livro no prelo e outros a caminho, e 2 congressos internacionais em seu haver. O objetivo é atrair pesquisadores de dentro e de fora da Unicamp para a construção de um patrimônio crítico e histórico da utopia, no plano mais amplo. Todas as linhas de pesquisa são válidas, condicionadas ao critério do rigor conceitual. De minha parte busco conjugar o pensamento de Marx com o objeto utópico.

Huxley, autor de Admirável Mundo Novo: distopiaJU – A utopia serve para quem, ou para o quê?
Berriel – Toda vez que você se perguntar se a forma atual da sociedade é eterna, ou se haveria um outro modo possível, você está operando no terreno da utopia – você está imaginando uma estrutura social virtual. Aí está a qualidade humana essencial: a teleologia, ver antes o que ainda vai acontecer. A utopia serve claramente para humanizar o homem, dotá-lo da noção de que o mundo social se constrói e se destrói pela exclusiva ação humana, sem interferências sobrenaturais. A utopia é filha da descoberta de que a sociedade é obra exclusivamente da ação humana, sendo portanto passível de mudança de acordo com uma projeção anterior.

A utopia serve para destruir o status quo, e serve àqueles interessados neste trabalho. Aos reacionários a utopia causa horror. Lembremos que a distopia, isto é, a ficção que cria os mundos mergulhados no pesadelo social (Admirável Mundo Novo, 1984, Fazenda de Animais, Blade Runner) são utopias de sinal trocado, chamadas de distopias – e sem essas obras estaríamos desarmados para compreender o mundo atual. Podemos dizer que a dimensão libertadora da utopia está no fato de que ela buscava adaptar não o indivíduo ao meio, mas o meio ao indivíduo.

JU – Especificamente para os dias de hoje, qual a função da utopia?
Berriel – Precisaríamos antes definir o que significa “hoje”, o que não é fácil. Um esquema possível seria: 1) falência das alternativas concretas da esquerda; 2) até algumas semanas atrás, o capitalismo financeiro arrogava-se a forma derradeira e insuperável da História; e 3) do fim de 2008 para cá, a forma arrasadora deste capital revelou-se falida. Estamos, portanto, numa encruzilhada que, imagino, será mais confortável estudar no futuro do que viver agora. Mas e a utopia com isso? Bem, a utopia é, antes de qualquer coisa, um modo de enxergar a realidade social.

Para a disciplina do utopista, o mundo nunca é apenas aquilo que se nos apresenta, mas é também aquilo que está oculto. Para o bem e para o mal. Então, diante de qualquer forma social, a utopia capta as possibilidades dissimuladas, que poderão no futuro crescer e assumir o poder. Portanto, em relação àquilo que chamamos fase 2 – apoteose do capitalismo financeiro – a disciplina utópica podia observar que longe dos holofotes respiravam dois seres, um “do bem”, outro “do mal”: a primeira, uma forma de vida associada generosa, um outro mundo que seria construído sobre as ruínas do capital e do socialismo real; este, infelizmente, não se deu a conhecer – não temos utopias de fato eficientes. A outra forma, esta “do mal”, é um mundo de pesadelo – a distopia. Notemos que a disciplina utópica fez a sua parte neste segundo caso: só para dar um exemplo, os filmes Minority Report e Inteligência Artificial, ambos de Spielberg e extraídos de obras literárias dos anos 60. Neles vemos no que o mundo poderia se transformar se transbordassem as águas da informática e de suas associadas, a robótica e a vigilância eletrônica. Aliás, estes temas já haviam sido tocados por Orwell, Kubrick, Huxley, Phillip K. Dick e todos os grandes distopistas. E ninguém que participa da cultura pode dizer que não sabia de nada.

E a vertigem informática, prestemos atenção, é uma das manifestações estruturais do capital financeiro. Será preciso lembrar que a robótica e a informática desempregaram centenas de milhões de trabalhadores e destruíram o movimento operário? Quem advertiu isso muito antes? Foram os utopistas em Blade Runner, 1984, Admirável Mundo Novo, 2001 – Uma Odisséia no Espaço (em que um robô-computador assassino enlouquece de inveja dos homens).

Certamente os líderes trabalhistas, mergulhados nos assuntos cotidianos, que tanto elucidam quando escondem os verdadeiros problemas, não entenderam que os avanços tecnológicos vieram, nesta quadra em particular, para quebrar a espinha das reivindicações dos trabalhadores. A marginalização de grossos contingentes de técnicos e operários, assim como o isolamento das elites em estruturas residenciais policiadas já estavam desenhadas nos vários galhos da árvore utópica, como a ficção científica. Basta pôr-se a lembrar.

JU – Mas devemos ser contra os avanços técnico-científicos?
Berriel – De modo algum! Voltaríamos à pré-história, ou pior. O que seria de nós sem a penicilina, e no que me toca em particular, o cinematógrafo? A questão é que somos contemporâneos de uma ciência desprovida de ética. Creio ser a primeira vez na História em que isso acontece. O desenvolvimento técnico-científico anda, ou melhor, voa, sem qualquer governo quanto às suas finalidades humanas. Mary Shelley, fundando o romance de terror em 1818 com Frankenstein, já nos avisara sobre isso. A criatura grotesca, produto da ciência, em determinado momento indaga ao seu criador: “Por que você me criou?”, e o cientista moderno não tem a resposta. É uma premonição da bomba de Hiroshima. Há um divórcio entre padrão científico e padrão ético.

Aí está o problema que interessa à utopia: o que acontece com a sociedade, ou acontecerá, se as invenções científicas não passarem pelo vestíbulo do consenso moral? A resposta me parece óbvia: a destruição do planeta, da vida, da cultura, de tudo que vale a pena levar em consideração. E é o que estamos vendo – com a advertência da biblioteca utópica. E de certa forma, com o desgoverno da técnica, podemos estar voltando à pré-história, ou pior.

JU – Vimos alguns aspectos positivos da utopia. E os aspectos negativos?
Berriel – Os aspectos negativos estão em querer construir uma sociedade utópica, ou seja, sair do terreno filosófico-literário, essencial para a autonomia humana, para a construção de uma sociedade real utópica. Isso é um grave perigo. Cito a antropóloga Margareth Mead: “O sonho de um é o pesadelo de outro”. Cito ainda outra frase, esta de Marx: “Quem compõe um projeto para o futuro é um reacionário”. Concordo com as duas. Se a utopia é uma sociedade perfeita, isto significa que ela não pode se aperfeiçoar e nem se degradar, porque ambas as coisas pressupõem a imperfeição. Na prática, esta utopia significaria uma estática social, um mundo parado e eternizado em si mesmo. Isto é a u-cronia, ou ausência de tempo – uma impossibilidade. Mas podemos ir além: uma sociedade utópica real, para garantir sua existência estática, precisaria recorrer à eterna vigilância e a todas as formas de violência.

Quem projeta uma sociedade crê que os seres humanos estão inteiramente à sua disposição, num consenso incondicionado, aceitando implicitamente que serão controlados e dispostos conforme o desenho lógico do engenheiro social – aquele que crê que sua lógica pessoal deve ser universal. Estamos falando daqueles senhores tão famosos na História, o Grande Inquisidor, o Grande Irmão, o Grande Timoneiro, o Guia Genial. Karl Popper considerava que a utopia prática é indissociável da violência. "A utopia", disse Aldous Huxley, "parece hoje muito mais realizável do que jamais o foi. O problema agora é como nos defendermos de sua realização".

Nomes confirmados

Adriano Prosperi - Scuola Normale Superiore di Pisa (Itália)
Alcir Pécora - Unicamp
Alfredo Cordiviola - UFPE
Ana Cláudia Romano Ribeiro - Unicamp
Antônio Edmilson M. Rodrigues - UFRJ/PUC-RJ/UF
Arrigo Colombo - Universidade di Lecce (Itália)
Benjamin Abdalla Jr. - USP
Biagio d’Angelo – PUC-SP
Bruno Dallari –
PUC-SP
Carlos Antônio Leite Brandão - UFMG
Carlos Eduardo Ornelas Berriel -
Unicamp
Carmelina Imbroscio -
Università di Bologna (Itália)
Carolina Araújo - UFRJ
Claudio De Boni -
Università di Firenze (Itália)
Cosimo Quarta - Università di Lecce (Itália)
Christian Rivoletti - Universidade de Saarland (Alemanha)
Claude-Gilbert Dubois - Université Michel de Montaigne – Bordeaux -III (França)
Costica Bradatan - Texas Tech University (EUA)
Cristina Meneghello - Unicamp
Daniel Ogden - Uppsala University (Suécia)
Edwiges Morato - Unicamp
Edgar De Decca - Unicamp
Edson Luiz André de Souza - UFRGS
Elias Thomé Saliba - USP
Emerson Tin - FACAMP
Enzo Baldini - Università di Torino (Italia)
Fátima Vieira - Universidade do Porto (Portugal)
Francisco Foot Hardmann - Unicamp
Gianluca Bonaiuti - Università di Firenze (Itália)
Jean-Michel Racault - Université de la Réunion (França)
Jorge Bastos da Silva - Universidade do Porto (Portugal)
Helvio Gomes Moraes Junior – Unemat/Unicamp
Hernán Martignone -
Universidad de Buenos Aires (Argentina)
Hilário Franco Jr. - USP
Iara Lis Schiavinatto - Unicamp
Ildney Cavalcanti -
UFAL
Ivone Gallo –
PUC-Campinas/ Unicamp
Jacyntho Lins Brandão -
UFMG
Jens Baumgarten - UFSP
José Alexandrino de Souza Filho -
UFPb
Krishan Kumar -
University of Virginia (EUA)
Laetitia Bontemps - CESR, Université François-Rabelais, Tours (França)
Laura Tundo Ferente - Università del Salento (Itália)
Leandro Karnal - Unicamp
Luciano Migliaccio – FAU-USP
Luiz Marques - Unicamp
Marcio Seligmann-Silva -
Unicamp
Margarida Salomão -
UFJF
Maria José García Soler -
Universidad del País Vasco (Espanha)
Maurizio Cambi - Università di Salerno (Itália)
Marianna Forleo - Isfol (Itália)
Marie-Luce Demonet - Centre d’Etudes Supérieures de la Renaissance de Tours (França)
Nadia Minerva - Università di Bologna (Itália)
Nathaniel Coleman - Newcastle University (Inglaterra)
Paola Spinozzi - Università di Bologna (Itália)
Peter Kuon - Université de Salzburg (Áustria)
Silvia Solimeo - Università di Lecce (Itália)
Susani Silveira Lemos França - UNESP
Suzana Albornoz -
Universidade de Santa Cruz do Sul (Brasil)
Wilhelm Vosskamp - University of Cologne (Alemanha)
Yvone Soares dos Santos Greis - UNICAMP / Université François Rabelais (França)
Vita Fortunati - Università di Bologna (Itália)

sábado, 23 de maio de 2009

Onde estão os intelectuais brasileiros?


Por Juliana Sayuri Ogassawara

No Brasil do século XIX não havia espaços próprios para a intelectualidade. Já durante o Império, uma alternativa dos pensadores de então era a carreira na diplomacia, posto público que garantia ganho financeiro, permitindo atividade intelectual paralela. Só no século XX se dá a consolidação de instituições “propriamente intelec¬tuais”, como as universidades, abrindo “car¬reiras” autônomas e, a partir disso, ocorre a profissionalização da atividade. Por fim, no século XXI, a diversidade de funções desempenhadas pelos intelectuais abre espaço para novas e diferentes compreensões, o que pode confundir a sociedade no que diz respeito aos papéis representados por eles hoje.
Para a doutora em Sociologia na USP Angela Alonso, há “profissionais do conhecimento”, vinculados à universidade “da porta para dentro”; e há “intelectuais públicos”, empenhados na enunciação e posicionamento político. Muitos entendem que a universidade passou por um processo de burocratização, tornando-se um lócus de habilitações, mais instrumental do que especulativo. É o que pondera o jornalista Bernardo Kucinski, para quem a fase da grande sociologia se foi. “Não é mais a ciência dos gênios, é a ciência das carreiras”, argumenta. O status da carreira passa a se nortear por requisitos da universidade, como a “produtividade” mediante publicações, títulos, orientações. “Se quer ter uma trajetória bem-sucedida na academia, há pouco espaço para organizar manifestações a favor dos países do Terceiro Mundo”, provoca Fábio Pereira, jornalista e doutor em Comunicação pela UnB.
“No Brasil, infelizmente, há intelectuais que simplesmente fazem seu trabalho acadêmico. Eles estão pensando, produzindo novas ideias, livros, teses, mas não se envolvem em questões amplas, não estão preo¬cupados com engajamento. Contudo, um outro setor – além da atividade estrita, acadêmica – assume a disposição de responder às inquietações muitas vezes causadas pela sua própria realidade, pelo tempo presente, com atitudes políticas mais explícitas”, sustenta a historiadora Sílvia Miskulin.
A pluralidade de papéis ecoa na linha política. Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, construiu uma carreira intelectual, mas passou aos cânones da carreira política. De acordo com o historiador Francisco Alambert Junior, os intelectuais desta geração se dividem: os que se despolitizam, impregnados pela ideia-mestra de que “não há mais utopias”, dedicando-se unicamente à academia – onde, “a rigor, não há diferença entre um filósofo e um engenheiro, trata-se de técnica” –, e os que assumem novos ideais. Há também intelectuais de esquerda que içaram iniciativas. “A ficha número 1 de fundação do PT é do Mário Pedrosa, a número 2 é do Antonio Candido, a 3 é do Sérgio Buarque de Hollanda”, exemplifica Alambert.
A historiadora Maria Helena Capelato corrobora essas considerações e faz uma distinção entre os pensadores comprometidos com a vida política. “Há intelectuais ligados ao PSDB e ao PT; há aqueles engajados, mas sem vinculação partidária, e há os que apenas produzem conhecimento mantendo a velha postura, típica do século XIX do ‘sábio’ pensando e falando para si mesmo”, pondera.

“Bons tempos” Para quem se lembra dos “bons tempos” da intelectualidade brasileira – expressão que mereceria várias aspas –, a efervescência cultural durante a ditadura militar brasileira aglutinou artistas, jornalistas e intelectuais contra os sufocantes ares ditatoriais, arbitrariedades, repressão, censura, isto é, por uma causa comum. As manifestações culturais dessa época evidenciam disparidades entre o passado dos intelectuais acossados e o presente.
“Os intelectuais tiveram papel político muito importante na redemocratização do país; tanto os de esquerda como os de direita tomaram parte ativa na luta política, orientando-se por objetivos opostos, mas a partir de tentativas de intervenção direta nos rumos da História”, analisa Capelato. “Neste caso, participaram do debate político em prol de uma causa: a ditadura ou a sua derrubada. Mas nem sempre o intelectual tem esse papel e, no momento atual, acredito que vivemos uma fase de carência de ideias novas e reflexões aprofundadas sobre as questões mais importantes do Brasil e do mundo. Não poderia dizer quem são os nossos intelectuais hoje porque poucos têm contribuído por meio de debates, publicações ou interferências relevantes para a melhor compreensão dos problemas que vivemos e para apontar soluções novas. Acredito que, no momento, há um vazio de ideias”. A historiadora Maria Aparecida de Aquino concorda que “os intelectuais já tiveram uma posição mais proeminente” no debate político do Brasil. Entre as décadas de 1930 e 70, ela nota que havia uma postura mais incisiva. “Poderíamos ter uma atuação maior. Não é que sairíamos aí pela rua, fazendo passeata; não é isso, e sim ter uma presença mais forte”, reflete.
Alambert destaca que é preciso pensar no contexto sociopolítico em que os intelectuais da nova geração começaram a atuar. Aos 44 anos, ele narra que sua geração basicamente nasceu na ditadura, tendo passado os primeiros 18 anos de sua vida convivendo com o Estado autoritário. Os intelectuais da geração passada, por sua vez, nasceram durante o Estado Novo e alcançaram a vida adulta com a ditadura militar e, tavez por isso, tenham tido um comprometimento maior, por terem mais motivos “reais” para tanto. “Afinal, a ditadura é eminentemente anti-intelectual”, sustenta.
Mas, ainda que baqueados com as consequências do golpe principalmente após o AI-5, uma expressiva trupe de artistas e intelectuais, engajados e eufóricos, buscou novos caminhos e vias alternativas de expressão. Entretanto, Alambert adverte que “vulgarmente tendemos a identificar os intelectuais com a oposição e com a esquerda. Não era, nem nunca foi assim. Inclusive, há intelectuais que apoiaram o golpe; eram de direita e ultraconservadores; fizeram os jornais tais quais eles são no Brasil”, pondera. “Mas, sobretudo naquele momento, os intelectuais de esquerda – e isso é um evento único na história do Brasil – tiveram quase hegemonia no processo cultural, nas universidades, nos museus.”
Na década de 1980, marcada pela crise da China maoísta, da União Soviética stalinista e de Cuba, a esquerda aviltada viu-se à beira de um colapso. Nesse contexto, Alambert analisa que “o marxismo como forma essencial de crítica à sociedade capitalista quase cai, substituído por uma série de novas modas importadas, no prêt-à-porter internacional das ideias, de pós-estruturalismo, pós-modernismos, o retorno do discurso liberal, neoliberal, culturalismos”. Nos últimos anos, principalmente com Lula no poder, ele identifica um novo modismo: a ascensão de uma intelectua¬lidade de direita, com pensadores ultraconservadores conquistando espaços, inclusive com um expressivo veículo próprio, a revista Veja, “muito mais do que os liberais do Estadão”, alfineta Alambert. Todavia, ele vê uma tendência alternativa de jovens intelectuais propondo uma nova esquerda, um novo papel, buscando “construir uma nova coisa”.

Os intelectuais e a mídia Pode-se esperar dos intelectuais a crítica constante à realidade, especialmente com a ideia de Edward Said sobre o intelectual como “um perturbador do status quo”. Contudo, Angela afirma que “da mesma maneira como há os que criticam o status quo, há intelectuais que o legitimam, construindo as justificativas da ordem existente”.
Para a jornalista Michelle Prazeres, há quem pense “o intelectual no sentido pejorativo, sendo aquele que mergulha nos estudos e fica alheio ao mundo”, conceito do qual ela discorda. “Compartilho de uma concepção de intelectualidade a serviço da construção de algo, da produção do conhecimento a serviço da sociedade e – no limite – a serviço da política”. Gramsciana, a professora da PUC-SP se ancora no teórico, que “diz que o intelectual não seria afastado do mundo produtivo ou mergulhado na retórica abstrata, mas seria ao mesmo tempo especialista e político”. Ela acredita que os intelectuais seriam engrenagens do motor de transformação. “As outras são os partidos, ONGs, movimentos, grupos de jovens, enfim... O papel dos intelectuais é o de provocar, criar cenários, ensaiar, discutir, refletir, historicizar, recuperar experiências e histórias, contextualizar vivências, promover a reflexão a partir da teoria. Articulados com as demais engrenagens, eles podem provocar transformação. Mas nunca sozinhos”.
O filósofo e jornalista Paulo Pereira Lima caminha na mesma direção. “Gramsci falava de um intelectual orgânico, que tem pé no chão, contato direto com a realidade e não só com os livros empoeirados”. Para ele, é preciso aproximar a academia e a comunidade, mediante a sociedade civil organizada como movimentos sociais ou ONGs, cabendo ao intelectual a reflexão crítica da prática dos movimentos para consolidá-los como pauta política. “Por outro lado, o movimento social está criando seus próprios intelectuais”, diz, citando a Escola Nacional Florestan Fernandes – a “universidade popular” do MST – e a internacional Via Campesina. Exemplo maior seria o Fórum Social Mundial, “encontro de intelectuais engajados que acreditam na força de um movimento social, de uma mídia alternativa, de uma mídia livre. O Fórum é um momento de protesto e proposta”, acredita. Lima destaca que não se trata de os intelectuais se acostarem dos movimentos, usando-os como baluarte, mas seria necessário estabelecer uma relação dialética, casando prática e pensamento teórico, sob constante diálogo para trilhar caminhos melhores.
Na mídia, paira sobre o intelectual uma aura erudita que ora potencializa sua voz por seu prestígio como fontes de informação legítimas, ora o afasta por seu discurso demasiadamente teórico. “A imprensa é um grande espaço para os intelectuais, para o bem e para o mal”, avalia Angela. Já Maria Aparecida Aquino critica que, “principalmente nas instituições públicas mais tradicionais, às vezes há uma tendência de achar que a mídia é muito ligeira, que não é conhecimento com fundamentação teórica. Por isso, não há um namoro entre os intelectuais e a mídia”. Inspirados na Teoria Crítica dos frankfurtianos, há intelectuais que demonizam a mídia, acreditando que “o seu conhecimento será morto a partir do momento que for consumido pela indústria cultural”, esclarece.
No entanto, alicerçando-se na teoria de Michel de Certeau, Aquino discorda desse ponto de vista. “Devemos transformar em bom tudo aquilo que eventualmente poderia ser mal. Evidentemente devemos ser críticos em relação à mídia; não devemos viver um grande amor, mas dar à mídia a possibilidade de transformação, com a nossa opinião”, analisa. “Não adianta ficarmos nos intramuros de nossos prédios, com uma produção que é lida pelas bancas de nossas dissertações e teses. Quem mais lê nossos trabalhos? Para quem se divulga conhecimento? Se a relação com a mídia fosse melhor, mais articulada, com certeza nós teríamos realizado um pouco mais do nosso trabalho e de fato cumprido com nosso papel com a sociedade”.
Mas o sociólogo Marcelo Ridenti diferencia que “uma coisa é a participação dos intelectuais na mídia, outra coisa é a visibilidade”. Para ele, “as duas coisas são paralelas, mas não coincidem”, pois “a lógica da mídia é a pauta que vende mais”. Afinada com essa posição, Michelle Prazeres afirma que “a mídia hoje é um espaço de disputa de valores. O que acontece é que esta disputa é extremamente desigual, porque a liberdade de expressão no nosso país é para poucos, para aqueles que detêm o monopólio da comunicação. Em tese, a mídia seria o espaço de um debate plural e diverso, mas sabemos que não é isso que acontece”. Não raro, a mídia tradicional, fincada em valores predominantemente liberais e neoliberais, dá voz apenas a quem condiz com seu ideário.
Nessa disputa desigual, poucos intelectuais mais críticos furam o cerco com sua opinião, “mas nada se compara àqueles a quem diariamente são oferecidas páginas e mais páginas para defender suas ideias. O estrago que um intelectual pode fazer é potencialmente maior, já que a mídia costuma alçá-lo à condição de especialista. O especialista fala, é lei. O ‘doutor’ fala, é a verdade”, critica Prazeres. A conquista de legitimidade pelos intelectuais na mídia, portanto, implica muitos lados de muitas moedas. “Se todos fossem intelectuais, como afirma Gramsci, talvez os intelectuais não fossem tão escutados”, crê Fábio.
Alambert sustenta que as relações estremecidas entre jornalistas e intelectuais não é de hoje. “Historicamente, há uma oposição marcante, principalmente no final do século XIX e início do século XX, entre o intelectual acadêmico, erudito, culto, e o intelectual boêmio, cujo grande representante sempre foi o jornalista. Nos melhores momentos da história das ideias, essas duas figuras se cruzam”. Ele critica ainda a ideia de que a imprensa tradicional se constitui no único meio para o intelectual se aproximar da sociedade. “Não é”, dispara, questionando quem realmente lê jornais e revistas nesse país, quem está do outro lado. “Você está comunicando o quê? Para quem? Isso demanda uma outra busca de diálogo, e ele tem que passar forçosamente pela mídia? Intelectual não é guru, não ensina a verdade aos ignorantes, ao contrário, aprende com a realidade”. Ainda que o intelectual não seja o “dono da verdade”, há mentes pulsantes discutindo o Brasil e, por mais tímidas e descompassadas que às vezes possam aparentar, suas vozes são tudo, menos inexpressivas. F

O que é um intelectual
O Caso Dreyfus é emblemático para se buscar as raízes da expressão “intelectual”. Para Fábio, “a definição tradicional, nascida na França no início do século XX é do indivíduo que sai ocasionalmente da sua esfera de competências para se engajar no espaço público a favor de causas universais, ligadas ao direito do Homem”. Ilustraria essa definição o caso de Émile Zola em favor de Dreyfus, de Jean-Paul Sartre pela libertação da Argélia e de Michel Foucault sobre as condições de vida nas prisões francesas.
No entanto, além da definição clássica, Sílvia aponta outra ideia de intelectual que, sob uma perspectiva mais ampla, comportaria “todos aqueles que atuam no âmbito da produção de ideias; então, um professor pode ser um intelectual, um jornalista, um escritor, um artista”. Já Maria Helena considera que se alguém “produz um conhecimento novo, é um intelectual; se ele apenas o divulga, é um transmissor”. “O intelectual é um ator político que se vale de seus conhecimentos para pensar sobre as questões de seu tempo e sobre a sociedade em que vive”, ela define. Teoriza ainda, elucidando que “Ortega y Gasset e os intelectuais latino-americanos adotavam uma perspectiva ‘circunstancialista’ que permitia pensar o intelectual a partir de sua circunstância”. Mas Maria Helena pondera que “qualquer definição do intelectual é contestável, porque ela tem uma história que se modifica ao longo do tempo, como diz Jean-François Sirinelli. A própria história intelectual é um fenômeno recente, e que na França adquiriu reconhecimento entre historiadores a partir do momento em que teve início um debate sobre seu papel”. Apesar de serem históricas as definições dos intelectuais – sartreana (intelectual engajado), gramsciana (intelectual orgânico) ou intelectual descompromissado vivendo numa torre de marfim –, não se pode negar que essas posições continuem existindo nos dias de hoje”.
Para o ensaísta palestino-americano Edward Said, deve-se “insistir no fato de o intelectual ser um indivíduo com um papel público na sociedade, que não pode ser reduzido simplesmente a um profissional sem rosto”. Em Representações do Intelectual (Companhia das Letras, 2005), Said diz que o intelectual deve articular um ponto de vista, uma atitude e uma opinião para e por um público: “E esse papel encerra uma certa agudeza, pois não pode ser desempenhado sem a consciência de se ser alguém cuja função é levantar publicamente questões embaraçosas, confrontar ortodoxias e dogmas (mais do que produzi-los); isto é, alguém que não pode ser facilmente cooptado por governos ou corporações, e cuja raison d’être é representar todas as pessoas e todos os problemas que são sistematicamente esquecidos ou varridos para debaixo do tapete”. F

Juliana Sayuri Ogassawara

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Fonte: http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=6979

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Ricardo Flores Magón e o comunitarismo camponês





Por Augusto Patrini Menna Barreto Gomes[1]



O México atravessou as primeiras décadas de seu período independente mergulhado em grande instabilidade política marcada pelo confronto entre liberais e conservadores. As leis da reforma liberal aprovadas a partir de 1856, confirmadas em 1873, possibilitaram intensificar transformações econômicas e sociais voltadas à modernização do México. Ao contrário do que pretendiam inicialmente, porém, contribuíram para desestruturar as comunidades rurais e tenderam a beneficiar os grandes fazendeiros, sobretudo a partir da ascensão de Porfírio Díaz ao poder em 1876.



Nesta época boa parte da população mexicana vivia no campo e ainda em grande parte unida às estruturas comunitárias indígenas, ameaçadas pela reforma. O Porfiriato (1876-1911) foi marcado por uma intensa modernização em parte promovida por capitais estrangeiros. No plano político, pelo autoritarismo e o favorecimento das frações da elite ligadas ao governo. A usurpação de terras pertencentes a comunidades de camponeses levou muitos deles a migrar para as grandes cidades ou submeter-se a duras condições de trabalho nas fazendas. No começo do século XX, cresceram as divergências ao regime de Porfírio Díaz. As contradições no campo, o dissenso entre elites e a forte agitação política acabaram levando à queda de Díaz e ao multifacetado processo revolucionário mexicano (1910-1917).



Neste contexto é que se destacou a figura de Ricardo Flores Magón (1873 - 1922), que com seus partidários, organizou o Partido Liberal Mexicano (PLM) em 1906. Por meio de sua militância intelectual, política e jornalística, ele empenhou-se em influenciar os grupos e atores que atuariam durante o período revolucionário. Magón também organizou grupos revolucionários que lutaram no norte do México, e que chegaram a ocupar a Baixa Califórnia. Exilado nos EUA entrou em contato com anarquistas russo-americanos Emma Goldman e Alexandre Berkman e trabalhou na difundir de livros e idéias anarquistas no México.



De forma original, Magón refletiu sobre projetos e atuações que combinavam as tradições necessidades práticas de camponeses mexicanos da época com teorias radicais européias, sobretudo anarquistas. Magón foi, especialmente importante ao formular e propor soluções para resolver o problema das comunidades camponesas. Para ele a questão da terra era uma das chaves do problema social mexicano. Pode-se, por exemplo, afirmar que estas formulações repercutiram, notavelmente, entre os revoltosos do “Ejército Libertador del Sur” liderados por Emiliano Zapata (1879-1919), que então lutavam no sul do México pela posse comunitária da terra. Sua atuação, de diversas formas, modificou a realidade mexicana. Podemos encontrar traços de Magón no famoso “Plan de Ayala” de 1911, no lema dos Zapatistas “Tierra y Liberdad” (formulado originalmente por Magón) e na constituição mexicana de 1917, que garantia a forma comunitária da terra aos camponeses.



De liberal a libertário



A trajetória intelectual de Flores Magón é bastante interessante, pois ele empreende uma original transformação política, motivado, talvez, pelo contato com a realidade mexicana, pela leitura de escritos anarquistas europeus e por contatos interpessoais. Ao fundar em 1906 o PLM, Flores Magón não tinha como objetivo – pelo menos declarado – uma revolução social, mas o “resgate” dos princípios liberais da Constituição Mexicana de 1856, que segundo eles tinha sido violada por Porfírio Díaz. É por isso, que seu jornal se chamará “Regeneración” (1900). Contudo, ao meio da luta política e da intensa repressão política, Magón mudou lentamente suas concepções políticas, caminhando para um ideal anarquista. A historiografia ainda apresenta muitas discrepâncias e divergências, e não há acordo de como, quando e porquê essa transformação aconteceu. Alguns autores defendem que já em 1906 Magón já possuía secretos ideais anarquistas, porém a grande maioria pensa que o anarquismo de Magón se consolidaria posteriormente ao meio da luta revolucionária. No Programa do Partido Liberal de 1906 pode-se observar uma posição revolucionária, porém ainda estritamente radical-liberal. Nesta época o PLM defende a defende a devolução das terras camponesas na forma da pequena propriedade. O programa defende também um retorno à constituição liberal, a democracia, um anticlericalismo e uma revolução política contra o regime de Díaz. Em 1911, no entanto, no Manifesto do Partido Liberal já se pode perceber claras idéias anarquistas, e uma defesa importante da revolução social e a posse comunitária da terra.



Há também uma viva polêmica com relação à identificação das influências teóricas européias de Ricardo Flores Magón e dos militantes do PLM: muitos autores identificam seus textos como uma extensão/ repetição de suas influências - autores anarquistas (Kropotkin, Malatesta, Elisée Reclus e Proudhon). Pode-se encontrar alguma influência das idéias de Kropotkin em “A Conquista do Pão” sobre a questão agrária, e de Malatesta em sua definição de partido revolucionário em “Escritos Revolucionários”.


Penso, porém, assim como o historiador mexicano Arnaldo Córdova[2], que sua transformação política foi motivada, sobretudo pelo contato com a realidade mexicana e com a intensa repressão política exercida pelo regime porfirista. Para este historiador Ricardo Flores Magón foi um precursor do reformismo dos revolucionários mexicanos. Já para o historiador francês François-Xavier Guerra[3], Magón será influenciado por escritos anarquistas europeus. Para este, Flores Magón representará a união interessante de lógicas diferentes - a do anarco-comunismo e a da tradição liberal de luta contra a opressão a incorporada a um fundo muito mais antigo, o da revolta contra o ‘mau governo’ que violou direitos. Arnaldo Córdova nos lembra, todavia, que Magón foi o revolucionário mexicano da época que melhor representou os interesses populares, foi o único que chegou a defender uma sociedade sem classes. Na questão agrária penso que foi de extrema importância a observação da realidade camponesa do México, que trazia em sua tradição, pré-colombiana (calpul) e colonial (ejidos) a forma de propriedade comunitária e autogestionária, que apesar de duramente atacada pelo “modernização” ainda resistia como forma tradicional no México da época.








[1] Augusto Patrini é bracharel em história (USP), Jornalista (UTP), Tradutor (Université de Caen)



[2] Córdova, Arnaldo La Ideologia de la Revolución Mexicana. La formación Del nuevo régimen. México: Ediciones Era, 1973



[3] Guerra, François-Xavier. México: Del Antiguo Régimen a la Revolución, T. II. México: FCE, 1988

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mercado Interno na Colônia x Clássicos



Por Augusto Patrini Menna Barreto Gomes

Há na historiografia uma grande polêmica sobre o mercado de abastecimento (ou mercado interno) no período colonial. Alguns autores – considerados clássicos – afirmam que o mercado interno estaria subordinado ao “caprichos” da atividade exportadora. Outros, no entanto vêm esta economia de abastecimento como ente autônomo não dependente.

Autores como Celso Furtado, Caio Prado Jr, e F. Novaes são defensores da primeira hipótese. De acordo eles, o sentido do sistema colonial no Brasil era o mercado exterior. Toda a produção considerada significativa economicamente fosse ela de açúcar (cana), algodão ou fumo estava vinculada ao Mercado europeu e as políticas mercantilistas da metrópole e dava-se sob a forma da grande lavoura, monocultura e escravista (a atividade mineradora seria uma exceção). Caio Prado, por exemplo, afirma que a grande lavoura, a agricultura que produz para exportação e que é a única que dá perspectivas amplas de ganhos econômicos. . Para ele a colonização européia nos trópicos inaugurou essa forma de agricultura extensiva e em larga escala, que terá segundo vários autores importância econômica fundamental, durante séculos na área ao sul do equador.

Celso Furtado em Formação Econômica do Brasil explica que a própria criação da colônia (Brasil) foi uma iniciativa vinculada a expansão mercantilista européia, que se viabiliza somente com a empresa agrícola. A forma adotada para tal empreendimento seria a típica forma colonial sob o mercantilismo, ou seja, o comercio metrópole – colônia, sob o dito exclusivismo comercial, que no caso português assume a forma diferencial “produtiva” (agricultura).

“Sendo uma grande plantação de produtos tropicais, a colônia estava integrada na economia européia, das quais dependia. Não constituiria, portanto, um sistema autônomo, sendo simples prolongamento de outros maiores” (Celso Furtado, p. 95)

Apesar disto, reconhece-se a existência do mercado interno. Nos referidos autores - este reconhecimento é limitado e subscrito às áreas consideradas periféricas e/ou interioranas. Com exceção da mineração, toda outra atividade de vulto econômico ocuparam as áreas litorâneas da colônia. As atividades de pecuária (nordeste, Rio Grande do Sul e em menor medida São Paulo) surgem em áreas periféricas onde não existem condições para a grande lavoura e, no entanto estão estritamente vinculadas à produção para o mercado externo. A pecuária não concorreria em nada com a grande lavoura, mas seria totalmente complementar a esta. Podemos mesmo afirmar que segundo os autores ela nasce das necessidades da população vinculada a grande produção agrícola.

Para Furtado, o crescimento mercantil e monetário da produção não vinculada ao mercado internacional dependia, em última instância, das flutuações econômicas do próprio mercado internacional. Para F. Novaes, as flutuações do mercado interno, como em Furtado, estariam submetidas aos sabores das conjunturas internacionais, e sua estreiteza redundaria no reforço frente ao capitalismo europeu.

Isso explica por que em períodos de expansão da agro-exportação, a pecuária e a produção autônoma de alimentos podiam ver sua renda monetária ampliada, já que os escravos das grandes plantações eram deslocados da produção de alimentos para a produção do produto de exportação. Esta redução da produção de mantimentos nas empresas agroexportadoras podaria, em alguns casos, causar carestias e conseqüentemente aumento da demanda e aumento dos preços. O processo contrário também se produzia, no momento de depressão do mercado exportador a produção interna também era reduzida. Portanto, os setores econômicos não exportadores dependiam também do mercado exportador e da flutuação dos preços internacionais.

A mesma complementaridade em relação a grande produção vai ocorrer com a agricultura de abastecimento interno, ou como prefere Caio Prado de subsistência:

“De um lado a grande lavoura, seja ela de açúcar, do algodão e de alguns outros gêneros de menos importância, que se dedicam todos ao comércio exterior. Doutro, a agricultura de “subsistência”, isto é, produtora de gêneros destinados à manutenção da população do país e do consumo interno.” (Prado Jr., p. 141)

Do mesmo autor também se destaca a afirmação que “A grande lavoura representa o nervo da agricultura colonial; a produção dos gêneros de consumo interno – a mandioca, o milho, o feijão, que são os principais – foi um apêndice dela, de expressão puramente subsidiária.” (Prado Jr., P. 141).

De acordo com Caio Prado as estruturas da agricultura de abastecimento interno serão muito diferentes da grande produção exportadora e poderão variar de uma região para outra. Variam, desde a “grande lavoura” até a “insignificante roça, chácara ou sitio” do pequeno produtor autônomo. Interessante observar como ele explica que a produção dos bens de abastecimento se da em áreas contíguas às cidades, por exemplo, ao Rio de Janeiro, ou à fazendas agroexportadoras.

A importância do setor, sobretudo como ocupação e fonte de renda para uma parcela substantiva da população, que apesar de poucas posses era livre, também se dá pela dependência do setor agroexportador e das cidades em relação a produção de abastecimento.

Celso Furtado chega a admitir que na medida em que a produção de abastecimento crescia em importância – principalmente no norte, sul e interior nordestino, reduzia-se a participação das exportações no produto da colônia.

Conforme destacou recentemente Marcio Pochmann em artigo Recente:

“Caio Prado Junior e Celso Furtado identificaram e valorizaram o papel desse tipo de economia (de subsistência) ao longo da história do Brasil. Com o período colonial, coube à agricultura de subsistência o exercício da função estratégica de acomodar estratos crescentes da população que excediam às necessidades do modelo econômico sustentado pelo latifúndio, pela monocultura e pelo escravismo. Não teve papel econômico pronunciado, mesmo que esse tipo de agricultura fosse quantitativamente expressiva e absorvesse um amplo segmento populacional, mais conhecido como agregado social.”(Marcio POCHMANN, P. 36, Carta Capital 29/12/2004)


terça-feira, 19 de maio de 2009

A CPI da Petrobrax e a tucanalhada - EMIR SADER



Os tucanos queriam privatizar a Petrobrás, como parte dos acordos assinados com o FMI, trocaram o nome da empresa – orgulho e patrimônio nacional – para Petrobrax, para tirar essa marca de “Brasil”, negativa para eles, e torná-la uma “empresa global”, a ser submetida a leilão no mercado internacional. Não conseguiram. Seu ímpeto entreguista durou menos de 24 horas diante do clamor nacional. Se deram conta que naquele momento tinham avaliado mal os sentimentos do povo brasileiro, que tinham ido longe demais no seu ardor privatizante e entreguista. Tiveram que recuar, mas nunca abandonaram seu projeto, tanto assim que venderam 1/3 das ações da Petrobras na Bolsa de Valores de Nova York, como primeiro passo para a privatização da empresa.

Tinham colocado em prática o programa econômico mais antinacional, de maior abertura ao capital estrangeiro, que o Brasil conheceu, sob o mando de FHC e seus ministros econômicos – Pedro Malan e Jose Serra. Quebraram o país três vezes e correram pedir mais empréstimos ao FMI, assinando com presteza as Cartas de Intenção, de submissão aos organismos financeiros internacionais. Na crise de 1999, subiram as taxas de juros a 49%, para tentar segurar o capital especulativo e impuseram uma recessão de que a economia só voltou a se recuperar no governo Lula. Entre as cláusulas secretas da Carta de intenções assinadas nesse momento, a imprensa revelou que constava a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica.

Foram rejeitados pelo povo. Quando Lula, no sexto ano do seu governo, tem o apoio de 80% da população e a rejeição de apenas 5%, FHC tinha o apoio de apenas 18%, mesmo contanto com o apoio total da totalidade da grande mídia, essa mesma que rejeita a Lula.

Viram, com frustração, a Petrobrás se transformar na maior empresa brasileira e em uma das maiores do mundo, conseguir a auto suficiência em petróleo para o Brasil, descobrir o pré-sal, entre tantas outras conquistas, afirmando seu caráter nacional e de identificação com a construção de um Brasil forte.

Mas não se conformaram. Na calada da noite organizaram uma CPI sobre a Petrobrás. Enquanto o povo quer uma CPI sobre a Petrobrax. Tratam de impor os danos que consigam à maior empresa brasileira, tentam impedir que a exploração do pré-sal fique nas mãos do Estado brasileiro, querem afetar o valor das ações da empresa, obstaculizar seus planos de expansão e de crescimento. Porque lhes dói tudo que seja nacional, tudo que represente fortalecimento do Brasil como nação.

São os corvos do século XXI, os novos lacerdistas, os novos udenistas, a direita branca e elitista, antinacional, antipopular, que sente asco pelo povo e pelo Brasil. FHC espumava de raiva ao ver que para tentar ter alguma chance de disputar o segundo turno com Lula, o candidato do seu partido rejeitou as privatizações do seu governo, comprometeu- se a não tocá-las pra frente, sabendo que se chocam frontalmemente com os sentimentos do povo brasileiro.

Querem prejudicar a imagem da Petrobrás, a fortaleza da empresa de que se orgulham os brasileiros, que a querem cada vez mais forte e mais brasileira. Acenam para as grandes empresas estrangeiras de petróleo com a possibilidade de dar-lhes o controle do pré-sal, como presente de ouro, caso consigam retomar o governo no ano que vem, garantindo-se ao mesmo tempo polpudos financiamentos eleitorais. Não hesitam em sacrificar tudo o que seja nacional e popular, contanto que possam voltar ao governo e seguir dilapidando o patrimônio publico.

São definitivamente uma tucanalhada, que precisa ser repudiada e rejeitada pelo povo brasileiro, para que não possam seguir tentando causar danos ao Brasil. Tirem suas patas entreguistas de cima da Petrobrás, do pré-sal e do Brasil, tucanalhada antinacional, antipopular e antidemocrática. O Brasil é maior que vocês, os rejeitou tantas vezes e vai rejeitá-los de novo. É Monteiro Lobato contra Carlos Lacerda, Getúlio contra Rockfeller, o povo brasileiro contra a tucanalhada de FHC. Que se instaure a CPI que o povo quer – a CPI da Petrobráx, onde estão as digitais dessa corja que odeia o povo e o Brasil.


Emir Sader