quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O que é mediocridade?




Márcia Denser

O processo de banalização que atinge todas as atividades humanas – lazer, trabalho, estudo – promove simultaneamente a mediocrização do sujeito. Segundo um antigo dicionário, medíocre é "mediano, ordinário, insignificante, vulgar, sem mérito, aquele que está entre mau e insuficiente", definição correta mas imprecisa, mas alterando-se os dois últimos termos para “mau, porém conveniente”, o conceito se aguça. No geral, a mediocridade vem com o rótulo de humildade ou modéstia, produtos desonestíssimos mas que, infelizmente, indicam a medida da humanidade e atual pré-condição para a sobrevivência. Falando nisso, aplicando-se aqui a implacável lei darwiniana, a do “mais apto”, não sobraria ninguém na face da terra. Mas deixemos a arqueologia de lado e encaremos a coisa de frente – aliás, aquilo que um medíocre nunca faz. É sua marca registrada: no logo, baby.

A mediocridade é sempre gregária. É aquela face sem rosto desbaratinada no meio dum escritório, fábrica, supermercado, corporação, porque o medíocre só viceja em relação a alguém, de preferência seu superior imediato, que é sempre um medíocre de maior magnitude, digamos. Como são legião em nossa sociedade, os medíocres tornam ainda mais verdadeiro o ditado que vaticina: “Primeiros escolhem primeiros, mas Segundos escolhem Terceiros”.

Explica-se: um sujeito de primeira só pode cercar-se de gente tão boa ou melhor que ele próprio, logo não há porque temer a puxada de tapete. Bom, isso em tese. Já um sujeito de segunda, cuja incapacidade é supercompensada pelo mau caráter, ao atingir uma alta posição, fatalmente tomará as seguintes providências: 1) aplicará a máxima “dividir para governar”; 2) escolherá sempre aqueles chegados ao dedurismo, à puxassaquice pânica; ou ambos. Para ele, inteligência e cultura não só são artigos de somenos como atributos altamente execráveis. Um medíocre de grande envergadura tem uma capacidade ilimitada para torcer a verdade a ponto de transformá-la em mentira.

Sem contar que honestidade vira sinônimo de agressividade, sintoma de conduta patológica. Atitudes espontâneas como dizer o que pensa, assobiar, cantar, rir, chorar (mesmo que a mãe tenha morrido há dez minutos) são consideradas demonstrações de fraqueza, infantilidade e até loucura. Contudo, a mais temida de todas as hecatombes subalternas são as idéias criativas. O autor poderá ser tachado de subversivo e, em seguida, receber o bilhete azul. Por justa causa.

Medíocres são encontrados em todas as camadas sociais, etárias e signos do zodíaco. Nem Cristo os esqueceu. “Bem-vindos os pobres de espírito, deles será o reino dos céus”, aliás, devidamente corrigido por Jorge Luís Borges, bruxo de extremo bom senso, que conclui: “Já os pobres de espírito não vão para o Paraíso porque não o compreenderiam”.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Putas Asesinas


Las mujeres son putas asesinas, Max, son monos ateridos de frío que contemplan el horizonte desde un árbol enfermo, son princesas que te buscan en la oscuridad, llorando, indagando las palabras que nunca podrán decir. En el equivoco vivimos y planeamos nuestros ciclos de vida.

Roberto Bolanõ, Putas asesinas IN: Putas asesinas.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Alejandra Pizarnik



Naufragio inconcluso


Este temporal a destiempo, estas rejas en las niñas
de mis ojos, esta pequeña historia de amor que
se cierra como un abanico que abierto mostraba a la
bella alucinada: la más desnuda del bosque en el
silencio musical de los abrazos.



Te hablo

Estoy con pavura.
hame sobrevenido lo que más temía.
no estoy en dificultad:
estoy en no poder más.

No abandoné el vacío y el desierto.
vivo en peligro.

tu canto no me ayuda.
cada vez más tenazas,
más miedos,
más sombras negras.


Ojalá pudiera vivir solamente en éxtasis, haciendo el cuerpo del poema con mi cuerpo, rescatando cada frase con mis días y con mis semanas, infundiéndole al poema mi soplo a medida que cada letra de cada palabra haya sido sacrificada en las ceremonias del vivir.
Alejandra Pizarnik, El Infierno musicalcolor

Alejandra Pizarnik Buenos (36-72) foi uma escritora e poeta argentina.

Estudou filosofia e letras na Universidade de Buenos Aires e posteriormente pintura con Juan Batlle Planas.

Publicou oito livros de poemas:

  • La tierra más ajena (1955)
  • La última inocencia (1956)
  • Las aventuras perdidas (1958)
  • Árbol de Diana (1962)
  • Los trabajos y las noches (1965)
  • Extracción de la piedra de locura (1968)
  • El infierno musical (1971)
  • La Condesa Sangrienta (1966 y 1971)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

JOÃO GILBERTO NOLL NO PAIOL LITERÁRIO



JOÃO GILBERTO NOLL NO PAIOL LITERÁRIO
“Literatura é transfiguração. Se não for, não é literatura. E você não pode viver o seu dia-a-dia em estado de transfiguração.”




A última edição de 2009 do Paiol Literário - projeto promovido pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba e com o Sesi Paraná - aconteceu no dia 17 de novembro. O convidado foi o escritor gaúcho JOÃO GILBERTO NOLL, nascido em Porto Alegre (RS), em 1946. Noll é autor de 13 livros, entre eles, Acenos e afagos (Prêmio Portugal Telecom 2009), Mínimos, múltiplos, comuns, O cego e a dançarina, A fúria do corpo, Bandoleiros e Lorde. Por sua obra, recebeu inúmeros prêmios, incluindo o Jabuti em cinco ocasiões: 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. O romance Harmada consta da lista dos cem livros essenciais brasileiros em qualquer gênero e em todas as épocas, organizada pela revista Bravo!. Seus livros já foram adaptados para o cinema e o teatro e ganharam traduções na Argentina, na Inglaterra e na Itália.

No bate-papo entre o autor e os seus leitores, mediado pelo escritor e jornalista José Castello, Noll falou sobre as características mais marcantes de sua escrita e de seus personagens, reforçou o amor que sente pela poesia e analisou a influência do cinema na sua obra, além de ler, para o público, vários trechos de seus romances Lorde e Acenos e afagos.

• A expressão de uma voz
Gosto realmente de ler trechos dos meus livros. Porque tenho a impressão de que escrevo principalmente para a expressão de uma voz. O que interessa nos meus livros, se alguma coisa realmente interessa, não é a sua trama, não é o seu enredo. É a percepção que este meu pequeno herói tem do mundo (Noll mostra o seu romance Lorde). A percepção dele em relação ao mundo, às coisas, aos objetos. Ele é extremamente contemplativo. Gosta muito de olhar e de traçar comentários sobre as coisas que vê. Isso, inclusive, é um dos seus problemas básicos. Essa vocação para a contemplação num mundo que exige, o tempo todo, a produtividade.

• Fusão perigosa
Outra coisa capital nos meus livros é o erotismo, sem sombra de dúvida. Um erotismo às vezes pesado, às vezes mais lírico. Esse desejo de conviver com a interioridade do outro, essa possibilidade de se fundir ao outro, também é muito forte no que eu escrevo. A ponto de o personagem central de um dos meus livros, Lorde, haver conseguido esse intento. No livro, ele se transforma em outro. Ou o outro o introjeta. Seu aspecto exterior é do outro, não é dele, mas é ele quem articula a visão do outro. Isso é muito perigoso. Porque, se você quer se fundir ao outro, é claro, o amor pode pintar nesse momento. Os franceses dizem que o orgasmo é uma pequena morte. E justamente aí é que está o lado perigoso desse "se fundir" ao outro. Quer dizer, quando você se funde demais ao outro, e isso acontece com o cara do Lorde, bye-bye. A identidade dele vira uma terceira coisa.

• Sem flashbacks
Escrevi Lorde em Londres, com uma bolsa de escrita do King's College. Fiquei quatro meses lá, escrevendo esse livro, da manhã até as entranhas da madrugada. E foram os dias mais felizes da minha vida, não tenho a menor dúvida disso. Porque eu vivia, ali, o princípio do prazer freudiano o tempo todo. Eu não estava exatamente na realidade. Eu estava ficcionalizando uma série de coisas que eu vivia. Claro que Lorde não é um livro autobiográfico. Nem tenho jeito para fazer coisas autobiográficas, para fazer um documentário sobre o meu eu. Mas, realmente, se eu não tivesse ido a Londres, eu não teria escrito esse livro. Dos meus livros, Lorde é o livro que mais admiro. Justamente por sua concisão. Nele, só falei sobre as coisas que eu estava vivenciando naquele momento. O que eu via, o meu quarto, o ônibus que eu pegava, o bairro em que eu morava. Tudo partia da realidade empírica, ali, daquele momento. E não faço nenhum flashback em relação ao Brasil. Porque o cara (o seu personagem) é brasileiro, escritor. E eu não fazia flashback. Isso de não fazer flashback também é muito meu.

• Todo mundo e ninguém
A primeira frase do livro A fúria do corpo é: "O meu nome não". Não queira saber meu nome, não queira saber da minha cidadania. Quero algo além da cidadania. Eu disse: "O meu nome não". Aqui (mostra o Lorde) também tem isso. Meus personagens jamais têm nome. Às vezes, faço algumas brincadeiras com João, João Evangelista, por exemplo. É para não ficar muito psicologista: o cara foi ofendido na infância, chega à idade adulta, faz isso e faz aquilo. Isso realmente dá ao personagem uma cidadania exagerada, que eu não quero. Eu quero falar de todo mundo e ninguém através desse meu protagonista que é sempre o mesmo homem. Só descobri isso há pouco tempo. Ele é sempre o mesmo homem. Ele vai continuar comigo. Tenho plena certeza disso. Ele habita em mim. E, se ele se for, eu vou junto. Então, realmente, quero que ele fique vivinho e com saúde dentro de mim. (passa a ler trechos de Lorde e, logo depois, de Acenos e afagos).

• Atração pela perversão
A importância da literatura na vida cotidiana se faz por conflitos. Por atritos. São coisas muito diferentes. A vida cotidiana pede uma praticidade que eu geralmente não tenho, confesso. Mas, aos trancos e barrancos, estou indo muito bem na minha vida de escritor. Sobre a vida cotidiana, ela é o que é, digamos assim. E a literatura, para mim, é transfiguração. Se não for transfiguração, não é literatura. E você não pode viver o seu dia-a-dia em estado de transfiguração. Impossível. Para mim, é algo irresolvível. São duas coisas bastante distintas. A literatura pede um espaço muito grande de ócio, de contemplação; e a realidade pede o aspecto emergencial das coisas. Tudo é muito emergencial na nossa contemporaneidade, por motivos óbvios. E você não escreve ficção com pressa. Eu uso muito a pressa e o emergencial na minha sintaxe, por exemplo. São sintaxes, em geral, muito longas, que querem justamente alcançar o simultaneísmo. Por isso, são longas. Elas não têm tempo para o ponto final. O que é ponto vira vírgula. E é por isso que leio as minhas coisas assim (em voz alta), meio sôfrego. Porque a pontuação é muito escasseada, pelo menos o ponto gramatical. Acho que isso vem da emergencialidade, dessa ânsia da simultaneidade. É como um antídoto, como uma vacina que pega o mal para matar o mal. Porque, se não fosse assim, não teria graça ser um escritor. Não dá para ficar o tempo todo denunciando o que não presta. Você tem que ter certa atração pelo que não presta, pela perversão. E, muitas vezes, você pode fazer uma espécie de acusação, usando aquilo que o mundo - ou que você mesmo - condena, como potencial estético. Pode. Senão tudo seria literatura politicamente correta.

• Um escritor de linguagem
Essa história da presentificação é muito importante. A Clarice Lispector também tinha isso. Essa coisa de relatar, mas expressando também a sua dificuldade de relatar. E é muito penoso mesmo. A expressão da linguagem é uma coisa muito penosa. E eu sou um escritor de linguagem, não sou um escritor de tramas. Começo a escrever um livro escrevendo qualquer coisa. Começo pela palavra, e não por idéias pré-estabelecidas. Começo e vou me aventurar, vou ver aonde vai dar aquilo. Então, num determinado momento, surge o tom que eu estava querendo e eu nem sabia que estava. Porque esse início é um tatear, um aquecimento, à procura daquilo que não sei bem o que é, mas que seria bom que pintasse. Então, sou um escritor de linguagem. Escrevo ficções de linguagem, de voz. A voz é muito importante para mim. E lendo, lendo, lendo assim (em voz alta) para possíveis leitores, me dei conta de que estava fazendo uma voz bastante demencial. Mesmo fisicamente. Estou a ponto de sucumbir, tamanho o peso dessa voz. Não é a minha voz, exatamente. Ela se encarnou em mim.

• Inveja dos músicos
Esse homem (o seu personagem) representa certa carência que eu tenho. Uma falta. Uma falta de mundo, de aconchego. Enfim, de tudo que é gostoso. Eu escrevo porque me falta. Começo a escrever pela falta, pela carência. Não tenho nada na cabeça. Minha cabeça está vazia. Tanto isso é verdade que, em Acenos e afagos, num determinado ponto do livro, vi minhas mãos caminhando sozinhas. Mesmo. Tenho muita inveja, no bom sentido, dos músicos. Porque os músicos não materializam idéias. Estou falando de música - vamos abstrair as letras de música, ou aquelas músicas chatas, descritivas, Tchaikovsky... E a literatura é uma coisa sumamente intelectiva. Por mais que seja poética, ela é um fator intelectivo. A língua é um fator intelectivo. Então, minha utopia, porque isso é uma utopia, e não podia ser diferente, é que a literatura tenha esse aspecto não-intelectivo da música e, muitas vezes, da poesia. Então eu tento fazer esse amálgama entre poesia e música, que são coisas mais artísticas. Já os romances tratam das questões fundamentais de seu tempo - os grandes romances, claro. São coisas mais analíticas. E um grande romance sempre vai ter relações de personagens abundantemente ricos. Mas eu queria fazer mais arte do que literatura. E é por isso também que leio para as pessoas. Porque, quando leio, crio um momento muito mais artístico.

• Esquizóide
Eu não sou um escritor da família. Meus personagens centrais são desfamiliarizados. Não têm mãe, nem pai, nem nada. Porque já houve um autor brasileiro que tratou desse assunto às mil maravilhas: Nelson Rodrigues. Eu quero pegar os seres avulsos mesmo. Mas não acho legal dizer que meus personagens fizeram uma escolha, porque, enfim, é muito difícil determinar se alguém faz uma escolha ou se é impelido a alguma coisa. Há essa procura insana por algo, essa procura que faz com que esse cara (o seu personagem) viva vagando, pegando um ônibus de uma cidade a outra sem ler para que destino ele vai. Tudo tem muito a ver com o fato de que, depois do meu terceiro livro, eu voltei para o Sul, para ver se conseguia escrever mais. E consegui. Realmente foi uma escolha muito acertada. Mas, lá, passei a não me encaixar no ambiente à minha volta. Fiquei, eu próprio, muito avulso. Por um lado, essa condição me permitiu escrever muito sobre esse cara que vive, também, de lá para cá, sem destino. De certa forma, encarcerei esse cara dentro de mim: "Você fica aqui, você fica quieto". Mas não é só isso. É uma relação extremamente amorosa também. É uma coisa que você guarda, porque é um filão - a palavra é horrível -, um filão de futuros livros. Não quero me desfazer dele, mas, em nenhum momento, eu acho que seja real. Ou que eu seja um esquizóide por causa disso. Até posso ser, mas não por isso.

• Vontade de ser o outro
Tenho muita vontade de ser o outro. Com essas revistas comercializadas por aí, hoje, com seus belos jovens, todo mundo tem um pouco de vontade de ser o outro. De ser aqueles corpos. Para se dar bem nos amores, na profissão, etc. Então, é um pouco isso, também. Ele (o seu personagem) quer ser o outro. Ele está insuficiente naquele seu papel cotidiano. Ele se sente insuficiente. Daí, o desejo, principalmente no Lorde, de ser o outro. Ele quer ser o outro. Há momentos em que ele se maquia, em que pinta o cabelo. Mas isso não resolve nada. É um pouco também aquela coisa do brasileiro em Londres, chegando lá, vendo aquela elegância. Ele queria ser aqueles passantes tão bem educados. Até que, um dia, ele começa sua carreira de ladrão de carteiras em estações de trem. E tem orgasmos com isso. Quando dá um esbarrão em um inglês, de uma forma muito bacana, com um gesto muito bacana, e lhe toma a carteira, ele vai para o banheiro, que é onde poderá ver que notas estão guardadas ali. E descobre que há uma boa disponibilidade de grana dentro da carteira. Então, ele tem realmente uma vertigem. Aquele lugar estava fedendo, era um banheiro público. E ele transcende aquilo, e se eleva pela possibilidade de poder gastar mais durante os próximos tempos. Ele também é muito tentado à prostituição. Mas não dá. Ele não tem mais idade para isso.

• Na canoa da solidão
Meus livros são tristes. É a solidão. A solidão radical em que esse cara (o seu personagem) vive, completamente. Ele não troca nada com ninguém. É impressionante. E a solidão também é um tema bastante atual no mundo contemporâneo. A solidão é uma questão crucial. É muito político falar da solidão hoje. É muita gente nessa canoa. Mas talvez meus livros não sejam tristes o tempo todo. Eles têm momentos líricos, também. Bem líricos.

• São esses
É Drummond. É Fernando Pessoa. É tanta gente. É Cecília Meireles. É T. S. Eliot. São esses. É desses que eu gosto.

• Uma canga
A narrativa é uma canga para o romancista, para o contista. Você não pode se afastar do relato, da forma capital do romance do século 19, de Balzac e tal. E quando você coloca a possibilidade poética no relato, é como se o tempo se coagulasse um pouco, se libertasse um pouco do próprio relato. Porque o relato tem muito a ver com a história humana, está muito colado a ela. Mesmo na ficção. Ele tenta administrar as coisas como a história administra: numa seqüencialidade. Meus livros se desesperam diante da seqüencialidade, dessa seqüencialidade muito automática, de causa e efeito. Mais uma vez, por isso, é que eu procuro limpar, deles, o passado, e trazer a poesia um pouco mais para perto da prosa. É esse o momento em que você coagula. Como naquele momento entre um pai e seu filho (em um vestiário, numa cena de Acenos e afagos que Noll tinha acabado de ler). Não acontece nada. Mas é um momento de consagração, de celebração da beleza jovem. É algo impossível que está se travando ali.

• O eu da narrativa
Às vezes, acho que o que faço é também um pouco de poesia lírica e narrativa. Porque estou preocupado é com o eu da narrativa. Geralmente, uso a primeira pessoa. Às vezes, alterno a primeira com a terceira, mas geralmente uso a primeira. Gosto de saber a opinião que o sujeito tem do mundo. Nem tanto o que está acontecendo no mundo.

• Minha madrasta
Em nenhum momento quis desistir. Mas, realmente, renunciei demais pela literatura. Demais. Foi excessivo. Em termos materiais. Sou de um grande despojamento material. Um horror. Eu acho um horror. E me arrependo um pouco. Mas, como pude escrever tantos livros, esse horror se amaina um pouco. Eu morava no Rio de Janeiro. Morei lá por 21 anos. E, no início, o fato de eu ter deixado o Rio e voltado para o Sul quase me enlouqueceu de tanta dor. Eu nem tinha consciência, na época, de que eu estava voltando para poder me doar um pouco mais à literatura. E foi o que aconteceu. Os livros estão aí. Mas fiquei muito indigente, humanamente falando. Indigente em todos os sentidos - claro, num país como o Brasil... Por isso é que eu chamo a literatura de "minha madrasta". Ela exigiu muito de mim. Tenho a impressão de que isso vem da minha infância, sabe? Da religião católica. Fiz o primário e o ginásio numa escola católica. E tinha essa coisa da missão, não é? A coisa da missão, de ter que doar o máximo de você. Agora, neste momento da minha vida, aos 63 anos, quero dar uma maneirada. Mas, quando penso nisso, estou pensando também que já tenho um novo projeto na cabeça. E há a necessidade de me entregar a ele completamente.

• Afásico, neuroconturbado e pobre de espírito
Sou tudo isso.

• Afásico
Acho que sou um pouco afásico. Mais na infância do que hoje. Mas, mesmo hoje, me custa tirar as palavras a... Como é que se chama aquela coisa que pega e...? Fórceps. Mas a aspiração ao silêncio também está na minha obra. Eles (os seus personagens) muitas vezes não querem saber da palavra. Estão de saco cheio de ter que expressar, o tempo inteiro, o mundo e as coisas do mundo. Vamos descansar um pouco, gente.

• Neuroconturbado
Tive um momento muito sério na minha vida, durante a adolescência. Muito grave, pelo menos para mim. Não queria mais estudar. Ficava em casa. Ou então, para fingir que ia ao colégio, eu saía caminhar. A mania de caminhar, já presente naquela época. Era o momento de despistar rastros.

• E pobre de espírito?
Isso, eu acho que não sou. Eu só estava brincando.

• Na imprensa
No Rio, eu trabalhei na Última Hora, no Correio da Manhã. Eu era redator do caderno cultural. Entrevistei pessoas maravilhosas, como Jeanne Moreau, na época em que ela veio ao Brasil fazer Joana Francesa. Também entrevistei vários músicos brasileiros. Mas eu sentia, sempre, que tudo me roubava um pouco da ficção. O jornalismo me ajudou muito no aspecto da síntese, nisso de limpar o texto sem clemência. Nesse sentido, ele foi muito bom para a minha literatura. Como experiência, o jornalismo me dispersava, mas eu não sofria muito com isso, não. Porque conheci muitas pessoas que eu amava como artistas. Entrevistei o Tom Jobim, no Bar Veloso. Ele me disse que gostava muito de Debussy e Satie.

• O desdém de John Wayne
Não tenho essa visão de ser isso ou aquilo em relação à literatura brasileira. Realmente não penso nisso. O que posso pensar é que, talvez, eu esteja escrevendo coisas muito contemporâneas. Isso eu posso pensar. Mas não que eu faça parte de um cânone da literatura brasileira. Até porque discuto um pouco essa coisa de literatura brasileira, isso de ela ser um setor das letras internacionais. As coisas estão todas misturadas. Os estrangeiros, os brasileiros. E tem outra: o cinema da minha infância foi muito importante para as coisas que escrevo hoje. Muitas vezes, nos meus livros, o cinema se torna quase que uma segunda natureza para o cara (o seu personagem). Então, imagine, eu lá, com oito, nove anos, vendo todos aqueles filmes, sobretudo os americanos, por razões óbvias. Aquilo foi inoculado na minha cabeça de uma forma muito profunda. E está presente nas coisas que escrevo. Como, por exemplo, o olhar de John Wayne, aquele machão protótipo da força norte-americana. Sempre fui muito curioso quanto ao olhar de desdém dele, principalmente para as personagens femininas. Ele olha sobranceiro, assim, não é? Dá um minissorriso. E esse minissorriso, essa coisa desdenhosa, eu levei para os meus personagens. Porque eu não tenho isso, não sou um cara de desdenhar. Mas, como é bom colocar coisas que não são suas no seu protagonista! Então, não é só da realidade brasileira que eu trato. Imagine o que o cinema americano não fez com a cabeça das crianças latino-americanas. É inconcebível. Escrevi coisas até muito explícitas sobre isso. No meu primeiro livro de contos, de 1980, O cego e a dançarina, tem um faroeste. Faroeste mesmo. Só que se passa na Baixada Fluminense, naquela poluição tremenda.

• Esvaziado
Tenho que manter um intervalo, sim, entre um livro e outro. Agora, por exemplo, estou terminando um. Já terminei, na verdade. Só estou polindo esse livro, que fiz a convite da editora Scipione. É uma narrativa longa, juvenil. O personagem central é adolescente e a linguagem é a mesma dos meus livros para adultos. Não houve nenhuma mudança. Não tive a menor complacência. E, realmente, esse garoto é o meu personagem de sempre. Só que na adolescência. Todas as suas questões estão ali. Mas, enfim, a história se passa no Rio. Chama-se O anjo das ondas, porque trata de um surfista. Um surfista que vive coisas muito escabrosas. O livro sai no começo do ano. E a Scipione também está lançando, neste momento, dois livros de contos meus. Cada um, um volume diferente, de contos novos. Mas não escrevo um livro e passo prontamente para outro projeto. Não, não dá para fazer isso. Você fica um pouco esvaziado.

• Mundo de viagens
Viajo muito. Este ano foi uma loucura. O mundo de viagens que fiz. Para o exterior também. Fazendo palestras. Coisas assim. Fui para a Argentina, a Bolívia, a Espanha, a Inglaterra. Para vários estados brasileiros. Saíram cinco livros meus traduzidos na Argentina, e os livros hispano-americanos circulam muito pelos mais diversos países. Não é como aqui, em relação a Portugal.

• Pequenos romances
Foram contos que fiz para a Folha de S. Paulo, para a Ilustrada. Eu escrevia dois microcontos por semana. Uma produção muito alta, muito alta mesmo. São trezentos e poucos, no total. Gosto muito do que o Wagner Carelli escreveu no prefácio desse livro (Mínimos, múltiplos, comuns). Ele disse que esses microcontos têm, cada um, a função de um romance inteiro. Não são microcontos que tentam pegar uma fatia, um fiapo do cotidiano. São romances, microcontos às vezes até épicos. Vão do nascimento à morte de seus personagens. Gosto muito desse livro. Gostei muito de me dedicar a essa forma, aos instantâneos. No início, eu me fechei num quarto e escrevi o máximo que eu podia, uns dez microcontos. Para poder fazer os seguintes com mais tempo. Então, eu sempre tinha dois, três, quatro textos já guardados na redação. Textos que tratavam das coisas com um tom mais artístico. Porque a maneira como algo é dito talvez seja mais importante do que aquilo que é dito. É uma questão. Acho que são microcontos, sim, mas também têm um pouco de romance. O Carelli tinha razão nisso. E foi ele quem fez a organização. Eu não consegui fazer. Não consegui pinçar os contos e pensar em que ordem ficariam. O Carelli fez isso. E deu os títulos gerais para cada grupo de textos. Eu gostaria muito de retomar essa experiência. Gostaria muito. (...) Mas só escrevo ficção. Não sei fazer crônica.

• Forças excretoras
Até no momento de ir ao banheiro podem se infiltrar, aqui e ali, coisas líricas. Agora, as ações dos meus personagens não são hierarquizadas. Ir ao banheiro pode ser tão importante quanto uma noite de amor. Acho que é isso. Muitas vezes, o lirismo pode se infiltrar aí. E por quê? Porque esse é um momento artístico também. Eles (os seus personagens) são muito de celebrar as coisas, de celebrar os instantes. E até o momento de ir ao banheiro pode ser algo cultivado, chegando, às vezes, a certo lirismo. No Lorde, quando o cara rouba um inglês numa estação de trem e vai para o banheiro, aquele é um momento de profunda celebração. O cara se eleva a partir do momento em que sente que ali, naquela carteira, tem grana suficiente para um belo estágio da vida dele. E também eu sempre fiquei muito curioso com essas coisas. É muito difícil o cinema, e mesmo a literatura, mostrar esses momentos. Mas a minha literatura consagra muito, cultiva muito as forças excretoras do corpo. A urina. O esperma. Os fluxos menstruais. A própria merda. São coisas bastante louvadas. Nesse sentido, faço uma literatura muito materialista. Existe um cultivo muito grande na matéria humana.

• Corpo nostálgico
Estou muito ligado à produção de dissertações e teses de doutorado sobre o meu trabalho nas universidades brasileiras. E elas estão, em sua maioria, no meu site. O que também é muito bom, porque mantém as pessoas da academia informadas sobre as novas pesquisas. Gosto muito. E estou sempre à disposição de quem quiser conversar comigo acerca de seus trabalhos. (...) Aliás, várias dessas teses se referem a essa questão do corpo. A essa questão da materialidade. Muitas vezes, as excreções humanas não são exatamente convertidas em algo muito lírico, não. Mas o lirismo se faz a partir do peso dessa substância, do peso do corpo e dessa sua densidade, muito concentrada. Porque, às vezes, ele (o seu personagem) tem que cantar entre o espaço vazio e essa concentração do humano. E isso, essa concentração, também se desfaz, se esfarela um pouco. As pessoas viram flutuantes - isso também está aparecendo muito nas minhas coisas. É isso. Um corpo talvez nostálgico. Uma saudade de um corpo que nunca realmente se fez. E a infância.

• Uma promessa de afeto
A infância tem uma importância enorme para mim. É sempre um momento de delícia. Esse meu personagem (de Acenos e afagos) sempre encontra crianças que nunca mais vão aparecer no livro. Mas são encontros muito significativos. Os sorrisos... Isso me lembra muito um filme do Fellini, muito importante para mim: La dolce vita, com Marcelo Mastroianni, que também é um ator-fetiche para mim e para a minha geração. Eu, às vezes, imagino esse meu protagonista como o Marcelo Mastroianni. Porque o Mastroianni é um personagem mais real. Não posso imaginar James Dean para esse cara, uma coisa totalmente recriada por Hollywood, algo que não é real. Mas, no final de La dolce vita, o Marcelo Mastroianni, depois de uma noitada de sexo e de álcool, vai até uma praia deserta e, lá longe, ele vê um riachinho, e vê uma menina, que não se sabe quem é, não se sabe por que entrou ali no filme. Mas o que essa menina tem para dar ao Marcelo Mastroianni é o seu sorriso. Ela o chama. Ela faz um gesto para chamá-lo. E ele não consegue ir. Ele se paralisa. Essa lembrança está muito viva na minha memória. Por isso há essas crianças tão comuns no que escrevo. (...) Uma criança, um adolescente, uma promessa de afeto, de libido - por que não? Esse sentimento de promessa que a juventude pode nos legar é muito poderoso. A juventude ou a criança. O sujeito adulto se renova com esses momentos. O que temos ali, em termos materiais, é um corpo, claro. Mas novo. Um corpo ainda virgem, de alguma forma. E isso é uma maravilha. Isso é uma maravilha. (lê mais um trecho de Lorde)

Edição: Luís Henrique Pellanda


Fonte: http://rascunho.rpc.com.br/index.php?ras=secao.php&modelo=2&secao=45&lista=0&subsecao=0&ordem=3258

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Alguma coisa urgentemente

(Xul Solar)

Alguma coisa urgentemente

João Gilberto Noll


Os primeiros anos de vida suscitaram em mim o gosto da aventura. O meu pai dizia não saber bem o porquê da existência e vivia mudando de trabalho, de mulher e de cidade. A característica mais marcante do meu pai era a sua rotatividade. Dizia-se filósofo sem livros, com uma única fortuna: o pensamento. Eu, no começo, achava meu pai tão-só um homem amargurado por ter sido abandonado por minha mãe quando eu era de colo. Morávamos então no alto da Rua Ramiro Barcelos, em Porto Alegre, meu pai me levava a passear todas manhãs na Praça Júlio de Castilhos e me ensinava os nomes das árvores, eu não gostava de ficar só nos nomes, gostava de saber as características de cada vegetal, a região de origem. Ele me dizia que o mundo não era só aquelas plantas, era também as pessoas que passavam e as que ficavam e que cada um tem o seu drama. Eu lhe pedia colo. Ele me dava e assobiava uma canção medieval que afirmava ser a sua preferida. No colo dele eu balbuciava uns pensamentos perigosos:

— Quando é que você vai morrer?

— Não vou te deixar sozinho, filho!

Falava-me com o olhar visivelmente emocionado e contava que antes me ensinaria a ler e escrever. Ele fazia questão de esquecer que eu sabia de tudo o que se passava com ele. Pra que ler? — eu lhe perguntava. Pra descrever a forma desta árvore — respondia-me um pouco irritado com minha pergunta. Mas logo se apaziguava.

— Quando você aprender a ler vai possuir de alguma forma todas as coisas, inclusive você mesmo.

No final de 1969 meu pai foi preso no interior do Paraná. (Dizem que passava armas a um grupo não sei de que espécie.) Tinha na época uma casa de caça e pesca em Ponta Grossa e já não me levava a passear.

No dia em que ele foi preso, eu fui arrastado para fora da loja por uma vizinha de pele muito clara, que me disse que eu ficaria uns dias na casa dela, que o meu pai iria viajar. Não acreditei em nada mas me fiz de crédulo como convinha a uma criança. Pois o que aconteceria se eu lhe dissesse que tudo aquilo era mentira? Como lidar com uma criança que sabe?

Puseram-me num colégio interno no interior de São Paulo. O padre-diretor me olhou e afirmou que lá eu seria feliz.

— Eu não gosto daqui.

— Você vai se acostumar e até gostar.

Os colegas me ensinaram a jogar futebol, a me masturbar e a roubar a comida dos padres. Eu ficava de pau duro e mostrava aos colegas. Mostrava as maçãs e os doces do roubo. Contava do meu pai. Um deles me odiava. O meu pai foi assassinado, me dizia ele com ódio nos olhos. O meu pai era bandido, ele contava espumando o coração.

Eu me calava. Pois se referir ao meu pai presumia um conhecimento que eu não tinha. Uma carta chegou dele. Mas o padre-diretor não me deixou lê-la, chamou-me no seu gabinete e contou que o meu pai ia bem.

— Ele vai bem.

Eu agradeci como normalmente fazia em qualquer contato com o padre-diretor e saí dizendo no mais silencioso de mim:

— Ele vai bem.

O menino que me odiava aproximou-se e falou que o pai dele tinha levado dezessete tiros.

Nas aulas de religião o padre Amâncio nos ensinava a rezar o terço e a repetir jaculatórias.

— Salve Maria! — ele exclamava a cada início de aula.

— Salve Maria! — os meninos respondiam em uníssono.

Quando cresci meu pai veio me buscar e ele estava sem um braço. O padre-diretor me perguntou:

— Você quer ir?

Olhei para meu pai e disse que eu já sabia ler e escrever.

— Então você saberá de tudo um dia — ele falou.

O menino que me odiava ficou na porta do colégio quando da nossa partida. Ele estava com o seu uniforme bem lavado e passado.

Na estrada para São Paulo paramos num restaurante. Eu pedi um conhaque e meu pai não se espantou. Lia um jornal.

Em São Paulo fomos para um quarto de pensão onde não recebíamos visitas.

— Vamos para o Rio — ele me comunicou sentado na cama e com o braço que lhe restava sobre as pernas.

No Rio fomos para um apartamento na Avenida Atlântica. De amigos , ele comentou. Mas embora o apartamento fosse bem mobiliado, ele vivia vazio.

— Eu quero saber — eu disse para o meu pai.

— Pode ser perigoso — ele respondeu.

E desliguei a televisão como se pronto para ouvir. Ele disse não. Ainda é cedo. E eu já tinha perdido a capacidade de chorar.

Eu procurei esquecer. Meu pai me pôs num colégio em Copacabana e comecei a crescer como tantos adolescentes do Rio. Comia a empregada do Alfredinho, um amigo do colégio, e, na praia, precisava sentar às vezes rapidamente porque era comum ficar de pau duro à passagem de alguém. Fingia então que observava o mar, a performance de algum surfista.

Não gostava de constatar o quanto me atormentavam algumas coisas. Até meu pai desaparecer novamente. Fiquei sozinho no apartamento da Avenida Atlântica sem que ninguém tomasse conhecimento. E eu já tinha me acostumado com o mistério daquele apartamento. Já não queria saber a quem pertencia, porque vivia vazio. O segredo alimentava o meu silêncio. E eu precisava desse silêncio para continuar ali. Ah, me esqueci de dizer que meu pai tinha deixado algum dinheiro no cofre. Esse dinheiro foi o suficiente para sete meses. Gastava pouco e procurava não pensar no que aconteceria quando ele acabasse. Sabia que estava sozinho, com o único dinheiro acabando, mas era preciso preservar aquele ar folgado dos garotos da minha idade, falsificar a assinatura do meu pai sem remorsos a cada exigência do colégio.

Eu não dava bola para a limpeza do apartamento. Ele estava bem sujo. Mas eu ficava tão pouco em casa que não dava importância à sujeira, aos lençóis encardidos. Tinha bons amigos no colégio, duas ou três amigas que me deixavam a mão livre para passá-la onde eu bem entendesse.

Mas o dinheiro tinha acabado e eu estava caminhando pela Avenida Nossa Senhora de Copacabana tarde da noite, quando notei um grupo de garotões parados na esquina da Barão de Ipanema, encostados num carro e enrolando um baseado. Quando passei, eles me ofereceram. Um tapinha? Eu aceitei. Um deles me disse olha ali, não perde essa, cara! Olhei para onde ele tinha apontado e vi um Mercedes parado na esquina com um homem de uns trinta anos dentro. Vai lá, eles me empurraram. E eu fui.

— Quer entrar? — o homem me disse.

Eu manjei tudo e pensei que estava sem dinheiro.

— Trezentas pratas — falei.

Ele abriu a porta e disse entra, o carro subiu a Niemeyer, não havia ninguém no morro em que o homem parou. Uma fita tocava acho que uma música clássica e o homem me disse que era de São Paulo. Me ofereceu cigarro, chiclete e começou a tirar a minha roupa. Eu pedi antes o dinheiro. Ele me deu as três notas de cem abertas, novinhas. E eu nu e o homem começando a pegar em mim, me mordia de ficar marca, quase me tira um pedaço da boca. Eu tinha um bom físico e isso excitava ele, deixava o homem louco. A fita tinha terminado e só se ouvia um grilo.

— Vamos — disse o homem ligando o carro.

Eu tinha gozado e precisei me limpar com a sunga.

No dia seguinte meu pai voltou, apareceu na porta muito magro, sem dois dentes. Resolvi contar:

— Eu ontem me prostituí, fui com um homem em troca de trezentas pratas.

Meu pai me olhou sem surpresas e disse que eu procurasse fazer outra história da minha vida. Ele então sentou-se e foi incisivo:

— Eu vim para morrer. A minha morte vai ser um pouco badalada pelos jornais, a polícia me odeia, há anos me procura. Vão te descobrir mas não dê uma única declaração, diga que não sabe de nada. O que e verdade.

— E se me torturarem? — perguntei.

— Você é menor e eles estão precisando evitar escândalos.

Eu fui para a janela pensando que ia chorar, mas só consegui ficar olhando o mar e sentir que precisava fazer alguma coisa urgentemente. Virei a cabeça e vi que meu pai dormia. Aliás, não foi bem isso o que pensei, pensei que ele já estivesse morto e fui correndo segurar o seu único pulso.

O pulso ainda tinha vida. Eu preciso fazer alguma coisa urgentemente, a minha cabeça martelava. É que eu não tinha gostado de ir com aquele homem na noite anterior, meu pai ia morrer e eu não tinha um puto centavo. De onde sairia a minha sobrevivência? Então pensei em denunciar meu pai para a polícia para ser recebido pelos jornais e ganhar casa e comida em algum orfanato, ou na casa de alguma família. Mas não, isso eu não fiz porque gostava do meu pai e não estava interessado em morar em orfanato ou com alguma família, e eu tinha pena do meu pai deitado ali no sofá, dormindo

de tão fraco. Mas precisava me comunicar com alguém, contar o que estava acontecendo. Mas quem?

Comecei a faltar às aulas e ficava andando pela praia, pensando o que fazer com meu pai que ficava em casa dormindo, feio e velho. E eu não tinha arranjado mais um puto centavo. Ainda bem que tinha um amigo vendedor daquelas carrocinhas da Geneal que me quebrava o galho com um cachorro-quente. Eu dizia bota bastante mostarda, esquenta bem esse pão, mete molho. Ele obedecia como se me quisesse bem. Mas eu não conseguia contar para ele o que estava acontecendo comigo. Eu apenas comentava com ele a bunda das mulheres ou alguma cicatriz numa barriga. É cesariana, ele ensinava. E eu fingia que nunca tinha ouvido falar em cesariana, e aguçava seu prazer de ensinar o que era cesariana. Um dia ele me perguntou:

— Você tem quantos irmãos?

Eu respondi sete.

— O teu pai manda brasa, hein?

Fiquei pensando no que responder, talvez fosse a ocasião de contar tudo pra ele, admitir que eu precisava de ajuda. Mas o que um vendedor da Geneal poderia fazer por mim senão contar para a polícia? Então me calei e fui embora.

Quando cheguei em casa entendi de vez que meu pai era um moribundo. Ele já não acordava, tinha certos espasmos, engrolava a língua e eu assistia. O apartamento nessa época tinha um cheiro ruim, de coisa estragada. Mas dessa vez eu não fiquei assistindo e procurei ajudar o velho. Levantei a cabeça dele, botei um travesseiro embaixo e tentei conversar com ele.

— O que você está sentindo? — perguntei.

— Já não sinto nada — ele respondeu com uma dificuldade que metia medo.

— Dói?

— Já não sinto dor nenhuma.

De vez em quando lhe trazia um cachorro-quente que meu amigo da Geneal me dava, mas meu pai repelia qualquer coisa e expulsava os pedaços de pão e salsicha para o canto da boca. Numa dessas ocasiões em que eu limpava os restos de pão e salsicha da sua boca com um pano de prato a campainha tocou. A campainha tocou. Fui abrir a porta com muito medo, com o pano de prato ainda na mão. Era o Alfredinho.

— A diretora quer saber por que você nunca mais apareceu no colégio — ele perguntou.

Falei pra ele entrar e disse que eu estava doente, com a garganta inflamada, mas que eu voltaria pro colégio no dia seguinte porque já estava quase bom. Alfredinho sentiu o cheiro ruim da casa, tenho certeza, mas fez questão de não demonstrar nada.

Quando ele sentou no sofá e que eu notei como o sofá estava puído e que Alfredinho sentava nele com certo cuidado, como se o sofá fosse despencar debaixo da bunda, mas ele disfarçava e fazia que não notava nada de anormal, nem a barata que descia a parede à direita, nem os ruídos do meu pai que às vezes se debatia e gemia no quarto ao lado. Eu sentei na poltrona e fiquei falando tudo que me vinha à cabeça para distraí-lo dos ruídos do meu pai, da barata na parede, do puído do sofá, da sujeira e do cheiro do apartamento, falei que nos dias da doença eu lia na cama o dia inteiro umas revistinhas de sacanagem, eram dinamarquesas as tais revistinhas, e sabe como é que eu consegui essas revistinhas?, roubei no escritório do meu pai, estavam escondidas na gaveta da mesa dele, não te mostro porque emprestei pra um amigo meu, um sacana que trabalha numa carrocinha da Geneal aqui na praia, ele mostrou pra um amigo dele que bateu uma punheta com a revistinha na mão, tem uma mulher com as pernas assim e a câmera pega a foto bem daqui, bem daqui cara, ó como os caras tiraram a foto da mulher, ela assim e a câmera pega bem desse ângulo aqui, não é de bater uma punheta mesmo?, a câmera pertinho assim e a mulher nua e com as pernas desse jeito, não tou mentindo não cara, você vai ver, um dia você vai ver, só que agora a revistinha não tá comigo, por isso que eu digo que ficar doente de vez em quando é uma boa, eu o dia inteiro deitado na cama lendo revistinha de sacanagem, sem ninguém pra me aporrinhar com aula e trabalho de grupo, só eu e as minhas revistinhas, você precisava ver, cara, você também ia curtir ficar doente nessa de revistinha de sacanagem, ninguém pra me encher o saco, ninguém cara, ninguém.

Aí eu parei de falar e o Alfredinho me olhava como se eu estivesse falando coisas que assustassem ele, ficou me olhando com uma cara de babaca, meio assim desconfiado, e nem sei bem o que passou pela cabeça dele quando meu pai lá no quarto me chamou, era a primeira vez que meu pai me chamava pelo nome, eu mesmo levei um susto de ouvir meu pai me chamar pelo meu nome, e me levantei meio apavorado porque não queria que ninguém soubesse do meu pai, do meu segredo, da minha vida, eu queria que o Alfredinho fosse embora e que não voltasse nunca mais, então eu me levantei e disse que tinha que fazer uns negócios, e ele foi caminhando de costas em direção à porta, como se estivesse com medo de mim, e eu dizendo que amanhã eu vou aparecer no colégio, pode dizer pra diretora que amanhã eu converso com ela, e o meu pai me chamou de novo com sua voz de agonizante, o meu pai me chamava pela primeira vez pelo meu nome, e eu disse tchau até amanhã, e o Alfredinho disse tchau até amanhã, e eu continuava com o pano de prato na mão e fechei a porta bem ligeiro porque não agüentava mais o Alfredinho ali na minha frente não dizendo nem uma palavra, e fui correndo pro quarto e vi que o meu pai estava com os olhos duros olhando pra mim, e eu fiquei parado na porta do quarto pensando que eu precisava fazer alguma coisa urgentemente.


João Gilberto Noll nasceu em 1946 na cidade de Porto Alegre (RS). Em 1969, após ter abandonado o Curso de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, muda-se para o Rio de Janeiro, onde começa a trabalhar como jornalista nos jornais “Última Hora” e “Folha de São Paulo. Em 1970, publica seu primeiro conto na antologia “Roda de Fogo”, organizada por Carlos Jorge Appel, de Porto Alegre. Transfere-se para São Paulo, indo trabalhar como revisor da Cia. Editora Nacional. Retorna ao Rio e à “Ultima Hora”, em 1971, onde escreve sobre teatro, literatura e música. No ano de 1974 volta aos estudos de Letras e, no ano seguinte, leciona no Curso de Comunicação na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Em 1980, um ano após concluir o Curso de Letras, publica seu primeiro livro, “O cego e a dançarina”. Recebe os Prêmios “Revelação do Ano”, da Associação Paulista de Críticos de Arte, “Ficção do Ano”, do Instituto Nacional do Livro e o “Prêmio Jabuti”, da Câmara Brasileira do Livro.
Outros livros do autor:

1981 – “A fúria do corpo”
1985 – “Bandoleiros”
1986 – “Rastros de verão”
1989 – “Hotel Atlântico”
1991 – “O quieto animal da esquina”
1993 – “Harmada” (Prêmio Jaboti)
1996 – “A céu aberto” (Prêmio Jaboti)
1997 – “Contos e romances reunidos”
1999 – “Canoas e marolas”
2002 – “Berkeley em Bellagio"
2003 – “Mínimos múltiplos comuns”

Recebeu vários prêmios internacionais, teve livros lançados da Inglaterra, foi bolsista e professor convidado na Universidade de Berkeley – E.U.A.


O conto acima foi publicado em “Romances e Contos Reunidos”, Cia. das Letras – São Paulo, 1997, e foi selecionado por Italo Moriconi para figurar no livro “Os cem melhores contos brasileiros do século”, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, pág. 416. Foi adaptado para o cinema sob o título "Nunca fomos tão felizes", direção de Murilo Salles, em 1983.