“A plenitude das mudanças temporais, que se rememora, é integrada numa determinação de sentido (direção), que remete a um futuro para além do momento presente e faz aparecerem como transitórias as circunstâncias atuais da vida. As expressões lingüísticas utilizadas para caracterizar esse direcionamento temporal, uma vez desvencilhadas das aparências de circularidade (grifo meu), provêm da experiência da natureza e referem-se a processos de mudança regrados, por isso mesmo significativos. A mais conhecida dessas expressões é "desenvolvimento", entrementes promovida ao plano de uma categoria histórica altamente eficaz. Ainda mais eficaz culturalmente do que essa categoria é a de progresso, que constitui o exemplo mais marcante da linha de raciocínio dessa representação do processo temporal."
P.60
“Nas formas e nos topoi da constituição genética de sentido o saber histórico torna-se o meio de uma comunicação na qual o espectro da diversidade de seus sujeitos se expande qualitativamente, para além da submissão comum a sistemas de regras e princípios e para além da distinção crítica e contraposição entre eles. Os sujeitos que se comunicam podem perceber em si e nos outros, por intermédio da historiografia genética, as qualidades da alteridade, os modos do ser outro e utilizar essa percepção como chance de consolidação da identidade pelo reconhecimento.”
“Com outras palavras: o discurso histórico, pela memória histórica, abre aos sujeitos chances de individuação. Isso vale não somente para indivíduos isoladamente, mas também para grupos, sociedades, culturas inteiras. O sentido próprio, que cada sujeito tende a fazer valer em sua interação com os outros e que possibilita o surgimento do processo ou fenômeno da comunicação, reflete-se no sentido próprio dos demais e enriquece sua qualidade pelo mecanismo do reconhecimento mútuo. Isso não significa o desaparecimento da concorrência pelo predomínio de pretensões sociais de validade, que se manifesta na realidade cultural como comunicação. Ela apenas toma novas formas, adota novas estratégias.”
RÜSEN, Jörn. Tipologia da Historiografia in _____. História Viva: formas e funções do conhecimento histórico. Brasília: UNB, 2007, p. 55-67
"Existe outro pássaro sagrado, também, cujo nome é fênix. Eu mesmo nunca o vi, apenas figuras dele. O pássaro raramente vem ao Egito, uma vez a cada cinco séculos, como diz o povo de Heliópolis. É dito que a fênix vem quando seu pai morre. Se o retrato mostra verdadeiramente seu tamanho e aparência, sua plumagem é em parte dourado e em parte vermelho. É parecido com uma águia em sua forma e tamanho. O que dizem que este pássaro é capaz de fazer é incrível para mim. Voa da Arábia para o templo de Hélio (o Sol), dizem, ele encerra seu pai em um ovo de mirra e enterra-o no templo de Hélio. Isto é como dizem: primeiramente molda um ovo de mirra tão pesado quanto pode carregar, então abre cavidades no ovo e coloca os restos de seu pai nele, selando o ovo. E dizem, ele encerra o ovo no templo do Sol no Egito. Isto é o que se diz que este pássaro faz." – Heródoto, Histories, 2.73
"E a fênix, ele disse, é o pássaro que visita o Egito a cada cinco séculos, mas no resto do tempo ela voa até a Índia; e lá podem ser visto os raios de luz solar que brilham como ouro, em tamanho e aparência assemelha-se a uma águia; e senta-se em um ninho; que é feito por ele nas primaverasdo Nilo. A história do Aigyptos sobre ele é testificada pelos indianos também, mas os últimos adicionam um toque a história, que a fênix enquanto é consumida pelo fogo em seu ninho canta canções de funeral para si" - Apolônio de Tiana, Life of Apollonius of Tyana 3.49
"Estas criaturas (outras raças de pássaros) todas descendem de seus primeiros, de outros de seu tipo. Mas um sozinho, um pássaro, renova e renasce dele mesmo - a Fênix da Assíria, que se alimenta não de sementes ou folhas verdes, mas de óleos de bálsamo e gotas de olíbano. Este pássaro, quando os cinco longos séculos de vida já se passaram, cria um ninho em uma palmeira elevada; e as linhas do ninho com cássia, mirra dourados e pedaços de canela, estabelecida lá, inflama-se, rodeada de perfumes, termina a extensão de sua vida. Então do corpo de seu pai renasce uma pequena Fênix, como se diz, para viver os mesmos longos anos. Quando o tempo reconstrói sua força ao poder de suportar seu próprio peso, levanta o ninho - o ninho que é berço seu e túmulo de seu pai - como imposição do amor e do dever, dessa palma alta e carrega-o através dos céus até alcançar a grande cidade do Sol (Heliópolis, no Egito), e perante as portas do sagrado templo do Sol, sepulta-o" - Ovídio, Metamorfoses 15.385
"Era do talhe de uma águia, mas os seus olhos eram tão suaves e ternos quanto os da águia são altivos e ameaçadores. Seu bico era cor-de-rosa e parecia ter algo da linda boca de Formosante. Seu pescoço reunia todas as cores do arco-íris, porém mais vivas e brilhantes. Em nuanças infinitas, brilhava-lhe o ouro na plumagem. Seus pés pareciam uma mescla de prata e púrpura; e a cauda dos belos pássaros que atrelaram depois ao carro de Juno não tinham comparação com a sua." A Princesa da Babilônia, Voltaire.
Bem, muitobem, senhor mundo-rato.... aqui estou eunovamente. Vivo, flexível e resistente. Depois de algunscomentáriosácidos e algumhumoramargo tenho quelhesescrever a todos. Comojá dizia uma certamúsica “eu vi [mais uma vez] a face da morte, e ela estava viva”, e porquê? Ora, isso faz parte do fluxo das coisas, morrer, meusamigos e ouvintes, (risosirônicos)faz parte do viver. Nãoaceitarisso; que a morte é digna, honorável e porvezes libertadora; é de uma toliceimensa.
Eu vi, nestes quatrodias, queemnome do espírito da vida, edificam-se templosemlouvor a dor e ao sofrimento, e isso, carosouvintes, leitoresoudoutores (e psiquiatras), é o lugarassépticomais demoníaco sobre o nossoquerido e sinistromasúnicochão – essa nossaexistência, aqui e agora. Temos UTIs paratodos os gostos, comamplagama e tipos de sofrimento, físicooumental. Pormedo, incompreensãoouódio – evita-se ao máximo a morte, mesmoquelá no fundotodos saibamos. Somos todos inexoravelmente destinados a ela. Mas a morte é hojeum tapu, quaseumpecado, e falar dela é grosseiro e desagrada o consumo.
Eu vi essetemplo de perto (isso chamado poraí de UTI); dores e gemidos de dor, sôfregas tentativas de respiração. Sujeição e subjugação. Totalprivaçãoliberdade e voz aos doentes. Lembrei-me de Foucault. Aquiloque vi eramais uma tentativa vã e arrogante de extirpar da vida, seuprópriodestino: a morte. Sim, sim, eu sei carosamigos, vocêsqueme conhecem sabem, eusempre fui e serei umenfant terrible, un petit diablejoueur et mélancolique,um daqueles malditoscoxosque há centenas de anosatrás seria simplesmentegrelhado na fogueirasanta da igreja, no fogo dos malditospadres e dos inquisidores... maseunão estou nesse tempoemquehomens de preto decidiam a vida e a morte dos homens. Porém, malditos inquisidores ainda existem, agoraelesnãomais matam, mas obrigam-nos a viver, comoeles querem e porquantotempoeles querem. Este é o tempo da ditadura do dinheiro, do poder plutocrático, dos homensque acham quetudo podem comprar, que esqueceram o valor do conceito Digninade e a ideia de Liberdade. Essemeu/nossogrito perturbador e meu/nossoamorserãotalvez silenciados pelodiscursofinanceiro e bélico dos fascistasconsumistas. Hei, no entantoque direi algo; eu sei, está bem, certo, isso é umjogo é perigoso, masenfim o que posso fazer. Louvem e honrem a senhoraMorte. Não há porquetermedo dela, se ela é nossagarantia de dignidade e liberdade. Porquantoqueviversemdignidade é pior do quequalquertipo de morte, é sempre o pior dos infernos.
E é porisso, baby, quesemver nenhuma transcendência, e pura imanência caminhomos nesse mundo-rato cheio de lixo, putrefação, devastação e loucura – sabendo que no fundo – tudoisso é apenas a vida transfigurada temporariamente emforma de morte. E é porisso, meuamor, quequando perdi meurumo, meucaminho, qualquersentido de amor e comunicação, eulivremente estendi minhasmãospara a morte. Poisque sei quemorrer é recomeçar, é regenerar. É assimquetudo e todos ressuscitam. Emcarne, sangue, gosma, podridão e germinação.
Não, eunão enlouqueci, euapenasgritoparaquem quiser ouvir. Apaixonei-me pelamorte, pois sei queela garante-me a liberdade, a dignidade, o pensamento e a possibilidade de amar. Não estou há fazernenhumculto ao suicídio, não! Só entendi querespeitar a morte, é poislouvar a vida, essa vida do hoje, cientesque a morte, essa misteriosa e “amedrontadora” (aspas irônicas) senhora estará sempreaqui, comsuasmãoscomluvas rendadas esperando-nos como uma mãe acolhedora.
E sobremeussentimentos, sobretudoque aconteceu, quero dizer-te, baby. Sentimentostambém morrem. Sentimentostambém apodrecem. Sentimentostambém se regeneram. Outalvezsentimentos decompostos também germinam novossentimentos, emnovosmovimentos primaveris. Você deve estar pensando queainda estou confuso, quesão os efeitos dos soníferos. Poisnãosão.
Tenho simmuitomedo da impossibilidade de comunicação, da in-comunicabilidade entre os homens e dessa vida-morte, quemuitos levam semrefletirsobre o nada e o tudoem todas as pequenascoisas. Tenho medo da distânciafísica e, sobretudo, emocionalque afasta os homens. Porquanto, eujáte disse, inúmeras vezes, nóshomensmiseráveissobreesseestranhoplanetasomente temos isso. Essespequenossegundosque escorrem entrenossosdedos, essesdoces, ternosatos de vida. E que aproveitados comoúnicos, absolutos e eternos; sãosemprecomo uma possibilidade de eterno (re)começo. Não haverá maisnadaalém das lápides, Não. Não há luzbranca alguma. Existem exclusivamente os dias de hoje, e não temos competênciaparavencer a vida-morte dentro de nós, nemcomummilhão de UTIs espalhadas poressemundo de assepsias, cálculos, técnicas e controle. De talmodo, que a opção é entregar-se ao que é realmentevivoouapenasviver de uma esperançatola, medíocre e mortificadora – de que o alémnos redimirá.
É porissoqueeute, e digo também aos outrosouvintes, leitores, psiquiatras, críticosliteráriosouloucos - digo semmedo: eute/vosamopoisque estou vivo. Mesmocomtodomal, todadorqueme causou/aram, mesmocom todas as disputas, brigas e desacordos. amar é isso, umatopolítico, ummanifesto, uma petiçãopara a vida; amar é ser e estar na contradição. Amar o igual seria pordemasiainsosso, tolo e pouco desafiador. E eu acredito quedesafiar essa vida, os fatos e as coisas, é o quenosresta, de belo e insolente nessa vida-morte; que a todos inexoravelmente nos atinge, queiramos ounão. Fugindo ounão, a vida-morte nos atropelará. Não se engane.
É porisso, porque arrisco, porque tenho umjeitoonírico, sonhador e irresponsável (como às vezesvocême diz) é que acredito na eternarecriação, na interminávelregeneração de meu/nossoamor. Não, não, não estou falando dessas tolices de filmescheios de paixões vãs e utilitárias. Do tipo, eugosto do quevocê tem e vocêgosta do quevocê possui. Não desses amores fúteis quesomentesãoquando há uso e valor de troca. Estou falando de algoalém do comprometimento mútuo, de uma buscafulgurante; extravagante e loucapor uma eternidadeabsurda. Algoquenos atinge e mora na vida-morte queemtodosnós. Porémnão se engane; porquevivo nesse mundovagabundo, e destroçado, eunão quero e desejo do medíocre e da metade. Eu quero o todo e o intenso da vida-contradição-dialética-mortífera, das almas e das carnes. É a você, baby, que ofereço solenementemeudesejo, esperando suacapacidade de ver e sentir o delicadíssimo e raro nessa minhaoferenda.
Euvos ofereço a todos, comhonra e exultação, a participação emminha, na sua e em nossas vidaspotencialmente mortíferas porquevivas. Seremos dignos disso. Daquilo fatal e diverso, tãointenso, a nostornarseres da arte e do sonho. Ounão: nos esconderemos nos cantinhos escuros dos escritórios, na fumaça das cidades e no trânsito das ruaspara desculpar-nos da nossaincapacidade de encararmos de frentenossador, nossoamor e nossavida e nossamorte.
Então, gritemos bemalto, paratodosouvintes, leitoresoudoutores: “estou vivo, e sei comgrandefelicidade e alívioqueumdia morrerei.” E tenhamos certoquenão temos e nem queremos uma vida-UTI-morte- televisionada, não somos autômatos, mashomens.