terça-feira, 23 de novembro de 2010

Comentários de Lucien Febvre e Braudel sobre Oswald Spengler


Augusto Patrini Menna Barreto Gomes

História – FFLCH – LabTeo (bolsista FAPESP)

Este artigo pretende fazer uma breve análise dos comentários feitos por Lucien Febvre e Fernand Braudel a respeito da obra “A Decadência do Ocidente[1], de Oswald Spengler. Este livro, pontilhado de fulgurantes imagens vitalistas, comparações ousadas e algo de arrogância profética, foi bastante influente no mundo germânico dos anos 1922 – 1929. Sua interpretação sobre a história, cultura e civilização ecoou fortemente entre leitores cultos de língua alemã, como testemunha-nos L. Febvre:

Vejo ainda nas vitrinas renanas as pilhas impressionantes feitas com esse in-octavo: elas se desmanchavam como neve ao sol. Em algumas semanas o nome de O. Spengler estava célebre no mundo germânico – e seu livro conhecia o maior sucesso alcançado na Alemanha por um livro de filosofia desde Gibbon. Sucesso ainda não seria bem o termo: seria necessário falar-se de revelação.[2]

no mundo anglo-latino, sua recepção foi bem mais timida. Entretanto pode-se afirmar que posteriormente as ideias contidas em “A Decadência do Ocidente” estiveram ressoando em Arnold Toynbee, André Malraux e Ortegat y Gasset[3].

Peter Burke chega arriscar em “A Escola dos Analles” que mesmo Braudel repercute algumas ideias spenglerianas:

Sua concepção [a de Braudel] de civilização material merece também uma análise mais acurada. A ideia de um domínio da rotina (civilization), contra um domínio da criatividade (Kultur), foi muito cara a Oswald Spengler, um historiador com o qual braudel tem mais afinidades do que as geralmente admitidas.[4]

Talvez pela popularidade e influência da obra de Spengler no mundo de língua alemã, L. Febvre e Braudel escreveram artigos sobre seu principal.

Lucien Febvre emDeux philosophies opportunistes de l´histoire: de Spengler à Toynbee” empreende uma crítica ácida ao livro, apontando nele características negativas como o antiintelectualismo resoluto, a noção heróica de destino, o antiesteticismo, o frênio da criatura humana diante da majestade, a ampla majestade da história[5] Para o fundador dos annalles é como que se estas características decorressem de um tipo de zeitgeist pré-nazista, que deram a Spengler a possibilidade de responder aos anseios ideológicos de uma Alemanha pósGuerra Mundial, ressentida com o liberalismo ocidental e as concepções hegemônicas de progresso e ciências naturais. Trata-se, deste modo, para Febvre, de uma teoria da história “totalitária”:

Todos os fatos humanos de uma mesma época se integram emculturas”. Essas culturas são seres vivos. São digamos plantasque nascem, se desenvolvem, murcham e morrem. Seu destino começa quando o impulso, a proliferação de tudo o que elas englobam em sua unidade, se fazem anárquicos e desregrados. Além disso, ainda que todas realizem na mesma ordem as mesmas etapascada uma delas difere profundamente de suas vizinhas pela própria alma que a anima.[6]

Lucien Fevbre essa concepção de histórica como organicista como expressão do “anúncio do declínio da civilização” e do “ódio pessimista da Kultur alemã da época” – era quilo que os alemães desejavam escutar dos historiadores profissionais alemães. Mas como estes, nesta época, encontravam-se ilhados em um antiquado elitismo acadêmico, Spengler pôde espezinha-lhes oferecendo à psicologia ressentida dos alemães imagens vivamente coloridas”, e regras da analogia da decadência. que nas palavras de Febvre os alemães preferiam sentir confusamente” à compreender com toda a lucidez”.

Lucien Febvre termina seu duro artigo afirmando que Spengler de forma burlesca – afastou-se explicitamente do nacional-socialismo em seu último livroAnos de Decisão[7], mas continuou oferecendo conselhos aos seus líderes. Este posicionamento político, de acordo com Febvre, não teria acontecido por que o nazismo não era mais compatível com as teorias pessimistas de Spengler - posto que, uma vez no poder, o hitlerismo necessitava do otimismo redentor do “recomeçar, novo homem” (Neubeginnen, Der neue Mensch).

Essa interpretação do fundador dos annalles sobre a obra de Spengler é provavelmente fortemente marcada pelo clima de disputa e sofreguidão da época da 2a Guerra Mundial. De alguma forma, o artigo diz muito sobre a obra de Spengler, mas também diz muito sobre o tempo e o lugar do historiador Lucien Febvre. Considero que sua crítica é eminentemente política, e não teórica ou historiográfica.

o olhar de Braudel, é muito menos marcado por essa sofreguidão, pois escreveu sobre Spengler muito após a guerra. Braudel percebeu as inovações metodológicas contidas em “A decadência do Ocidente”, e julgou o livro de forma mais tranquila. Em seu texto “A História das Civilizações: o passado explica o presente[8], de 1959, notou acertadamente que a compreensão da Kultur spengleriana relaciona-se com aquela concepção medieval relativa à alma, e não como muitos intérpretes pensam, ao organismo biológico:

[...] cada cultura particular é um ser unitário de ordem superior’: o maior personagem da história. Mas personagem não é um termo conveniente, nem organismo tão pouco. Como se acentuou recentemente, as culturas, no pensamento de spengler, são seres; não seres no sentido de biologia, mas antes no sentido do pensamento medieval: corpos inertes se uma alma os não animar (a Kulturseele). O que este livro veementemente fustiga sob o nome de cultura do ocidente é decididamente, um ser místico, uma alma.[9]

Braudel também percebeu que a questão central na concepção de história de Spengler é que “uma cultura é um encadeamento ou, como diríamos na nossa gíria atual, uma estrutura dinâmica e de larga duração.” Além disso, ele não deixa de ressaltar o caráter curioso do método comparativo spengleriano que coloca emcontato” cronologicamente e geograficamente culturas históricas diversas, sem deixar de observar, entretanto, o problema de como estabelecer o ponto de contato entre essas várias culturas:

Ao definirmos uma cultura através de uns quantos traços originais, ou mais ainda pelo feixe particular que estas originalidades formam, o método do historiador das civilizações ganha em simplicidade: reduz-se a extrair, a estudar estas peculiaridades. Depois não tem mais que pô-las em relação umas com as outras e compará-las, a fim de comparar assim as próprias civilizações. A partir destas premissas, vemo-nos arrastados a estranhas viagens através do tempo, dos séculos, dos milênios; viagens que sugerem as descrições e as antecipações que, agora, nos permitem as viagens cósmicas. Subitamente fora das leis da gravidade, todas as bagagens, todos os corpos são arrancados do seu lugar e flutuam juntos livre e estranhamente.[10]

O problema de Spengler, para Braudel, não é seu método, mas sua pretensão em dar a História uma ordem coerente marcada por fases determinantes e inevitáveis - ao colocar em destaque “o destino dos valores espirituais” a que reduz as culturas e as civilizações. Algo, que hoje, parece-nos no mínimo irracional ou determinista.

Uma teória da história totálitária?

Mas, como devemos entender as ideias de Spengler? Como classificá-las dentro das teorias da história? Precisamos, como o faz Lucien Febvre, definí-lo politicamente? Seria acertado classificá-lo nestes parâmetros?

O declínio ou a decadência são temas muito comuns ao romantismo. Em certa medida, Spengler foi parte da tradicional Kulturpessimismus alemã. Por isso, muitos intérpretes o relacionam ao romantismo, assim como o faz Le Goff[11]. Às vezes, Spengler é considerado como o último romântico filosófico, ou como um precursor do estruturalismo, ou simplesmente, em termos mais políticos, tachado como um teórico protonazista.

O historiador Jeffrey Herf[12], em seu livro “O Modernismo Reacionário” aborda o conteúdo político dos escritos de Spengler e os classifica como um tipo ambíguo de modernismo reacionário. Sua hipótese é que em sua principal obra Spengler conseguiu unir valores opostos, como crítica à sociedade moderna, à democracia liberal e ao capital com a valorização da técnica, do nacionalismo e da Kultur. Não se pode negar que havia em Spengler (assim como seus colegas defensores da revolução conservadora) uma vontade de mudar, ao modo nietzscheano a situação política, intelectual e econômica da Alemanha. Spengler parece ter defendido, principalmente em seus livros menores, a ordem técnica de massa, a modernidade técnica e social, como vetor de uma mobilização total. Isso tudo, não obstante suas várias críticas à modernidade.[13]

Herf afirma sobre A Decadência do Ocidente:

A obra está repleta de conhecidos itens do repertório antimodernista, mas também apresenta um tema que recebia menor atenção, qual seja, a conciliação de sentimentos românticos e irracionalistas com o entusiasmo pelo avanço técnico. Os íntimos laços pessoais de Spengler com os industriais alemães e os revolucionários conservadores[14] do Clube de Junho alimentavam sua síntese ambígua de técnica e irracionalismo, que mais tarde propiciou aos engenheiros papel fundamental dentro da nova elite cuja tarefa era resgatar a Alemanha do liberalismo da República de Weimar.[15]

Ou seja, nesta obra, mas, sobretudo seus livros posteriores, Spengler conciliou os valores da Kultur com o nacionalismo e a defesa da técnica. Spengler via o nacionalismo e a tecnologia como expressões da intuição e da vontade[16] para ele, motores da vida e da História (Destino).

É interessante notar que para a perspectiva spengleriana, a ciência encarnaria os mesmos aspectos rituais e míticos daqueles da religião, esta posição expressa, nas palavras de Herf, uma sensação de mundo faustiana”, “um impulso para se espalhar através dos espaços naturais da terra a fim de sobrepujar a resistência e amorfia.”[17] O desenvolvimento das técnicas modernas representava para o autor a renovação do mito e reencantamento do mundo. O mundo da formapolítica, cultura, economia etc - seria apenas expressão daquilo antigo e imanente - a alma cósmica. Essa visão é característica de uma aceitação e de uma rejeição seletiva da modernidade.

É claro que Spengler foi também, como deixou claro Lucien Febvre, umprofeta que anunciou a ascendência das massas, dos exércitos, de um partido, e o advento de novas ditaduras[18]. Defendeu mesmo a conciliação entre o Volk, os operários e os conservadores, os valores essenciais da Prússia – coração da Alemanha[19].

Herf afirma sobre a visão política de Spengler:

(...) a originalidade de Spengler situava-se na amálgama de um panorama do passado com uma visão de mito e símbolo que indicava a possibilidade de uma nova era de política estetizada amanhecendo no futuro. Mais ainda, ver os avanços da técnica moderna através dos prismas de semelhante simbolismo transformava fatos profanos da vida cotidiana em fatos sagrados e transcendentais.[20]

Essa visão estabelecia um tipo de anticapitalismo de direita, cujo principal elemento a ser criticado não era a máquina, mas o dinheiro, enquanto fator desenraizado, e parasitário.

Não resta dúvida de que seus dos repetitivos volumes estejam cheios de queixas antimodernistas padrão. Mas a obra [A Decadência do Ocidente] não termina em nota de desespero e resignação. É um apelo à ação, o manifesto de um modernismo fendido. A política, o sangue, e tradição devem se levantar para derrotar o poder da Geist e do Geld.[21]

Herf também conclui que Spengler enxergava os problemas de sua época e da história por meio do prisma de mitos e de símbolos que possibilitavam tornar a realidade muito menos complexa do que de fato era. Essa visão permitiu justamente ligar a tecnologia à tradição romântica e irracionalista, e o nacionalismo, com ideias de socialismo e revolução. Entretanto, em muitos textos, Spengler acaba por exibir um tipo lúgubre de estoicismo, onde na História a tragédia apresenta-se sempre como inexorável.

É justamente esse seu pessimismo trágico que acabou afastando-o de intelectuais como Ernest Jünger[22], e dos próprios nacional-socialistas, que “acreditavam na sobrevivência do homem faustiano no moderno mundo tecnológico.”[23]

Conclusão

Assim, admitamos que politicamente Oswald Spengler era um homem de direita, um conservador. Contudo, considero, que esta conclusão, muito tempo apontada por Lucien Febvre, e reforçada na obra de Herf, não invalida em absoluto o estudo acurado da Teoria da História contida em “A Decadência do Ocidente”. Fenômeno editorial, cultural e histórico-filosófico, esta obra deve ser estudada em seu aspecto histórico-teórico, e não apenas no político. Não é possível que um autor que foi um imenso fenômeno intelectual no começo do século passado, seja ainda praticamente um desconhecido entre historiadores brasileiros.

Como historiadores sabemos que a história não é feita somente de flores, e assim, não podemos permitir que preconceitos ideológicos nos afastem de teorias, obras ou documentos históricos que podem contribuir para o enriquecimento do conhecimento e do fazer historiográfico.



[1] SPENGLER, O. L´Déclin de L´Occident. Tomos I e II. Paris: Gallimand, 1976.

[2] FEBVRE, Lucien. Combats pour l’histoire IN: MOTA, Carlos Guilherme. Febvre. São Paulo: Editora Ática, 1978. p. 131.

[3] É possível também destacar que essa obra influenciou autores importantes, como o são por exemplo: Thomas Mann, Ernst Jünger, Emil Cioran, Martin Heidegger, Ludwig Wittgenstein, Arnold Joseph Toynbee, e Richard de Coudenhove-Kalergi.

[4] BURKE, Peter. A escola dos Annales. São Paulo, Ed. Unesp, 1991. p. 60

[5] FEBVRE . Op. Cit. P. 135.

[6] Op. Cit. P. 132

[7] SPENGLER, Oswald. Anos de Decisão. Porto Alegre, Edições Meridiano, 1941.

[8] IN: BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais. Lisboa, Editora Presença, 1990.

[9] Op. Cit. p. 100.

[10] Op. Cit. P. 99.

[11] LE GOFF, Jacques. História e Memória, Campinas: Editora da UNICAMP, 1990

[12] Herf, Jeffrey. O Modernismo Reacionário: Tecnologia, Cultura e Política na República de Weimar e no 3º Reich. São Paulo: Editora Ensaio/Editora da Unicamp

[13] Essa postura política marcou-o com o rótulo de filósofo e historiador filo-nazista, e de alguma forma transformou sua teoria da História em um tabu teórico - responsável por seu relativo banimento entre historiadores e filósofos.

[14] grifos meus.

[15] Idem, p. 63

[16] Idem, p. 68

[17] Idem.

[18] Koehn, Barbara, La Révolution conservatrice et les élites intellectuelles, Presses universitaires de Rennes, Rennes, s/d

[19] SPENGLER, O. Pressentun und Sozialismus. München, C. H. Beck.Muünchen, 1924.

[20] Herf, Jeffrey. O Modernismo Reacionário: Tecnologia, Cultura e Política na República de Weimar e no 3º Reich. São Paulo: Editora Ensaio/Editora da Unicamp, p. 69

[21] Idem, p. 71 - Herf afirma ainda falando sobre Spengler e o ambiente intelectual da época : “ A guerra e o nacionalismo ligavam as tradições românticas e irracionalistas da Alemanha a uma forma defeituosa e reacionária de modernismo, um apelo aos ditadores da política para porem fim ao domínio do liberalismo econômico sobre a vida social.” P. 72

[22] Ernst Jünger (1895 1998) , escritor, filósofo e entomologista alemão.

[23] idem, p. 83

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Zero Grau de Libra






Caio Fernando Abreu



Sobre todos aqueles que continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso.


O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.
Nesse zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de são Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete? – e outro grunhe em resposta.
Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto- olha por todos aqueles que queria ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio- Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminosos, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.

O Estado de S. Paulo, 24/09/86.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O casamento gay e a omissão dos candidatos

Elecciones en Brasil y derechos LGBT


POR BRUNO BIMBI


Embora a Argentina, vizinha ao lado, e Portugal, que faz parte da família, tenham aprovado neste ano o casamento igualitário, a discussão sobre os direitos civis dos homossexuais não foi seriamente considerada pelos candidatos à presidência do Brasil. Os três concorrentes que pontuam nas pesquisas fizeram todo o possível para fugir das perguntas sobre o assunto.

E não é que eles sejam tão conservadores ou acreditem mesmo na discriminação, que nem o Levi Fidelix — afinal, tanto Serra quanto Dilma pertencem, pela sua trajetória de vida e formação política, à turma dos que sentiriam vergonha de dizer aos amigos que têm preconceito de gay. E a Marina, embora evangélica, é uma mulher negra, de esquerda, que nasceu pobre e foi analfabeta até a adolescência, o que tornaria absurdo que ela defendesse qualquer tipo de discriminação. E, acima de tudo, ela é do Partido Verde!

Mas mesmo assim, os candidatos se omitiram. Quando perguntados sobre o casamento gay, responderam sobre a “união civil”. E se alguém replicasse, contestavam em uníssono: “O casamento diz respeito à religião”, embora todos eles saibam — e se não souberem, deveriam — o que a Constituição Brasileira estabelece: “O casamento é civil” (226 § 1). O casamento religioso pode ter efeito civil, mas não é a mesma coisa.

Portanto, quando se fala em direitos civis (que é o único que está em discussão, já que ninguém está reivindicando o direito a se casar na igreja) a única forma de garantir a igualdade aos casais do mesmo sexo é acabando com a exclusão no acesso ao casamento civil. A resposta ficaria mais óbvia se falássemos dos negros, que também sofrem o preconceito, como os gays. Algum político democrático defenderia que quando um negro se casa, seu casamento fosse chamado pela lei com outro nome, por exemplo, “união estável de negros”? Imaginem um candidato à Presidência da República explicando para a população negra deste país: “Gente, é a mesma coisa, vai ter herança e plano de saúde! Deixa a palavrinha pra lá!”?

O que Dilma, Serra e Marina precisam que alguém lhes explique é que não existe a ‘quase igualdade’: ou se é igual ou não se é. E nós, lésbicas e gays, queremos ser.

Em todos os países onde a discussão do casamento igualitário chegou ao parlamento, a direita e os extremistas religiosos defenderam a alternativa da “união civil” — que eles nunca tinham proposto quando o casamento não estava sendo discutido. Antigamente, eles defendiam a fogueira, depois passaram a aceitar que nós continuássemos vivos, mas nos chamavam de doentes e desviados e não aceitavam que a lei nos reconhecesse direito algum. Acontece que agora isso é politicamente incorreto. A última carta que eles têm, e dessa não abrem mão, é impedir a igualdade simbólica.

Eles não são tolos e entendem o valor dos símbolos. Se permitirem o casamento gay, o preconceito contra nós passará a ter data de vencimento neste século, porque as crianças se educarão sabendo a lei nos reconhece até o direito a nos casarmos. Seremos iguais perante a lei e não haverá nenhuma norma juridicamente aceita que legitime o tratamento preconceituoso contra nós na vida social.

O que me surpreende é que a proposta de estabelecer direitos diferentes, com diferente nome, para homo e heterossexuais — que na Europa e até mesmo na Argentina é patrimônio da direita — seja partilhada no Brasil até por alguns políticos que se dizem de esquerda:

— Qual é o problema de não chamar as uniões homossexuais de casamento? — perguntou o candidato verde Alfredo Sirkis aos militantes do seu partido, discursando em defesa de Marina Silva.

Talvez a resposta que o primeiro ministro português José Sócrates deu aos oposicionistas na Assembleia da República possa ajudá-lo: “Falemos claro: o que acontece é que essa proposta [a “união civil”] mantém a discriminação, e uma discriminação tanto mais ofensiva quanto, sendo quase inútil nos seus efeitos práticos, é absolutamente violenta na exclusão simbólica, porque atinge pessoas na sua dignidade, na sua identidade e na sua liberdade. Srs. Deputados, em matéria de dignidade, de identidade e de liberdade, pela minha parte, não aceito ficar a meio caminho”.

O caminho da “união civil” é o caminho da segregação, como os restaurantes para negros e os restaurantes para brancos. Mesmo se os restaurantes para negros fossem igualmente bonitos e tivessem um ótimo cozinheiro, alguém duvida de que seria uma ofensa? Não só uma ofensa aos negros, mas à democracia.

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O autor é argentino, jornalista, ativista da FALGBT e aluno do curso de mestrado em Letras na PUC-Rio. Foi um dos responsáveis da campanha pelo matrimônio igualitário na Argentina e é autor de um livro sobre a história da nova lei, que será publicado em dezembro pela editora Planeta. Atualmente, está finalizando sua dissertação de mestrado, que trata da controvérsia linguística a respeito da palavra ‘matrimônio’.