domingo, 15 de maio de 2011
Amor fati

sábado, 14 de maio de 2011
Comentários sobre o Amor em Nietzsche

Instantes

sexta-feira, 13 de maio de 2011
Eu desisto

quinta-feira, 12 de maio de 2011
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Chegue bem perto de mim.

segunda-feira, 9 de maio de 2011
Felizes Juntos

“Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.”
Caio Fernando Abreu em “A terra do Coração” – Pequenas Epifanias.
Por Augusto Patrini
Mais uma noite de insônia. Chega então uma manhã-tarde ensolarada. Nesta São Paulo luminosa e solar, tão diferente das tenebrosas sombras das minhas noites mal-dormidas, a semana chuvosa agora parece estar bem longe. No rádio toca: “O meu amor sozinho/ É assim como um jardim sem flor,... Estrela, eu lhe diria/ Desce à terra, o amor existe,... Não há amor sozinho...” na voz de Maria Bethânea. É a “Primavera” de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes.
Debruço um vago olhar sobre o horizonte quadriculado-urbano deste dia iluminado e puro. Azul forte brilhante no céu sul-americano da metrópole ensandecida. Hoje quero ter esperança e força, penso. Lembro dos encontros e desencontros, de nossas fugas e buscas. Tento ainda acreditar, apesar dos carros rugirem lá fora, das megeras (e seus celulares), dos canos fumegantes e de nossos amores perdidos e estraçalhados. Apesar de toda a fumaça, guerra e dor, no meio das cinzas de São Paulo e dos “meninos que choram”, quero acreditar que não estamos no tempo dos risos amarelos. Os algodões do céu, nesta manhã são feitos de solidões e buscas. Por isso continuamos, não é? Sempre.
Lembro-me, assim, talvez como você também, dos amores que tive e que perdi. Das pessoas que cruzei o olhar e partiram para sempre. Foram talvez apenas possibilidades? Ou pessoas que nos marcaram? Foram alguns (ou tantos) os olhares? Nas noites e nos dias, em museus e padarias, nas ruas e nos bares. Lembro-me também, inutilmente, das bocas úmidas e dos beijos. Das mãos em minhas mãos. Dos olhares na mesma direção e dos olhares, depois, em direções diversas:
“Happy Toguether” !
Nesse dia estranho, me lembro de um filme maravilhoso. Como o céu de hoje, colorido, triste e intenso: “Happy Together” (Felizes Juntos) é um longa-metragem que combina mais com a música do Astor Piazzola do que com a brasilidade trágica de Maria Bethânea. O realizador deste filme, Wong Kar-Wai, nascido em Hong Kong, é considerado na Europa um dos novos gênios do cinema. Ele usa de elementos kitsh, mas subvertendo sempre a linguagem e o ritmo dos enquadramentos. Kar-Wai traz em seu currículo filmes intensos na forma e no enredo como, por exemplo, “Anjos Caídos”, “Amores Expressos” e “Amor à Flor da Pele”.
Na verdade, seu penúltimo filme, “Happy Together”, seja talvez uma tragédia-filme ou um tango-filme. Daquele tipo de tragédia ou tango que nos acomete quando, entre nossos encontros e desencontros, perdemos um amor ou um amigo. O filme é a história de um amor migrante e incerto entre dois rapazes (os ótimos Leslie Cheung e Tony Leung Chi-Wai), que juntos mudam de Hong Kong para uma romântica Buenos Aires inexistente. Mais do que um simples filme que poderia ser “rotulado-reduzido” como gay, trata-se aqui de uma tragédia-farsa maravilhosamente bem encenada, ao som de Piazzolla, Caetano Veloso e Frank Zappa. O filme trata fundamentalmente daquilo que sentimos às vezes, ao vislumbrarmos alguns olhares nas ruas e nos bares, da certeza que todos vivemos perdas, encontros e desencontros em nossas vidas/buscas/viagens.
O filme faz com que nos perguntemos sobre o porquê dessa busca estranha e desse algo misterioso e intenso que arranca de nossas estranhas ausências insossas. Lembra-nos também das perdas, daqueles a quem se amava, mas que acabaram separados de nós pela vida e pelo tempo. Mas, talvez a questão maior seja aquilo que realmente buscamos no outro.
Freud disse um dia que somos pulsões de amor e morte, e é disto que é feito esse filme estranho e azul. Sua cena mais bela, e acredito, seu ápice romântico, é aquela em que os dois rapazes dançam em uma cozinha magnificamente iluminada (fotografia de Homayun Pievar). Um momento lindo e suave, onde a real possibilidade de amor intenso e verdadeiro entre seres humanos ficará para sempre eternizada na película. Apesar disso, logo vemos que esse amor, sacudido pela vida, pode tomar novos rumos. Essa enorme força da vida que tudo muda é simbolizada no filme pela visão majestosa das Cataratas do Iguaçu.
Ética amorosa
Isso nos leva a pensar na forma como praticamos regularmente nossos atos amorosos. Tudo bem que somos meio arrastados pela vida, mas você já pensou o que um beijo pode significar? Não se trata apenas de uma troca de fluídos, ou de um comportamento animal. Trata-se também de um ato consciente de entrega amorosa, de intercâmbio de emoções e sensações. Temos certa responsabilidade sobre aquilo que acontece em nossas relações afetivas.
Hoje também acho que sexo sem entrega amorosa é muito chato. Prefiro acreditar em uma espécie de ética da entrega amorosa, onde nossa prática sexual-amorosa seja pautada por troca emocional-amorosa sincera. Esse algo mais do que apenas sensualidade, faz das nossas trocas/relacionamentos algo louco e misterioso que modifica o que somos hoje e o que podemos vir a ser no futuro, tornando-nos seres humanos mais ricos e múltiplos. É disso também que trata o filme. É sobre como somos eternamente um “vir-à-ser”.
Mesmo se nos entregamos no amor e por isso sofremos, perdidos entre margaridinhas vagabundas e sacos de lixo - como cães sujos ou gatos errantes - sabemos que estamos verdadeiramente vivos. Porque a ausência do amor nos é mais insuportável que as possíveis dores da perda sempre inerente ao amor. Por isso buscamos o outro? Eu não sei. Mas quero acreditar e confio. Acredito nesse algo mais da vida (o amor), algo profundo, sim absurdo e forte: o fogo ou a brasa que queimam - dor, amor, perdição, fuga e sonhos toscos-bobos, cheios de espinhos e flores. Tudo isso, encontramos verdadeiramente no outro, naquele que nos sorri, beija ou abraça, quando nos entregamos emocionalmente de forma profunda. Mesmo que por alguns segundos, minutos, uma noite, umas horas, cinco ou cinqüenta anos.
Mas, nesta busca/entrega estamos todos divididos entre o que queremos ser e o que seremos, neste devir eterno que somos, se tragados pela força da vida. E um dia engolidos pela morte, Desejamos sermos fortes e, vibrando além desta solidão toda, cheia de falsas cores e cuspe, somos arco-íris tensos. Todas nossas bocas e penas. São esses nossos deuses e monstros, os nossos “sonhos e mentiras de Franco”.
Se nos perdemos, às vezes, entre esses tempos e essas escolhas queremos amar além, na sarjeta e na chuva, entre o céu estrelado e as tantas margaridas livres e vadias que encontramos pelo caminho da vida.
Ainda que sua vida pareça mais uma lanchonete suja de beira de estrada com aquela luz fraquinha, não se desespere. Logo, logo, aparece o olhar, a mão e a boca de outra margaridinha louca para te trazer essa coisa misteriosa que buscas. Basta acreditar!
Crônica escrita em São Paulo, 26 de setembro de 2006
sexta-feira, 6 de maio de 2011
União homoafetiva, STF e “pecado”

Alexey Dodsworth Magnavita
Não escrevo para os que concordam com a decisão do STF de reconhecimento das uniões homoafetivas, mas para aqueles que discordam. Não faz, afinal, muito sentido tentar convencer quem já concorda. O que me interessa, aqui, é fazer algumas considerações a partir das principais argumentações de quem não gostou da decisão do STF.
Para isso, partirei do principal argumento, que é religioso: tais relacionamentos seriam “pecado”. Em momento algum pretendo convencer o leitor de que relacionamentos homossexuais não são pecado, não é isso o que se pretende discutir aqui. Deste modo, fazendo um exercício de imaginação, admitirei as seguintes afirmações como sendo corretas:
1. Deus existe, a partir de uma perspectiva cristã.
2. A vontade de Deus se revela através do livro chamado “Biblia”.
3. Por conta das instruções contidas na Biblia, lideres religiosos cristãos sabem qual é a vontade de Deus.
Não creio que seja profícuo, aqui, discutir se deus existe ou não existe, se a visão cristã acerca de deus está ou não correta, se a Biblia é realmente a palavra deste deus ou se não é. Isso é assunto pra outro momento, além de ser discussão que vai muito além da decisão do STF.
O que me parece espantoso, dentro do universo de alguns indivíduos religiosos, é que o suposto pecado do relacionamento homossexual assuma proporções imensas, em detrimento de todos os outros “pecados” que existem. Alguns pastores dedicam seu tempo quase que exclusivamente a combater este pecado (o que me parece muito sintomático).
Por vezes, o proselitismo coloca tais pastores contra seus próprios confrades. Ontem, após a decisão do STF, o pastor Silas Malafaia fez chover uma saraivada de acusações contra pessoas que partilham de sua fé religiosa. Acusou-os de “não fazer pressão suficiente” através do Twitter. O fato é que, à parte Malafaia e alguns gatos pingados, muitos expoentes do cristianismo pentecostal pouco se lixaram para a decisão do STF, partindo de um princípio muito simples: não é a existência de leis que faz as pessoas se voltarem para deus (ou para aquilo que eles entendem como sendo o chamado de deus). É o que se passa no coração desta pessoa. Vejamos o que argumentou a cantora gospel Ana Paula Valadão, após ser acusada de “omissão” por Malafaia. Disse ela, no Twitter:
“Avivamento, a volta de uma pessoa ou de uma nação para Deus e Seus princípios, a meu ver não é algo que aconteça de cima para baixo…Podem haver leis proibindo isso ou aquilo e as pessoas continuarem na prática de pecado. Creio que o avivamento vem de baixo para cima, e a mudança ou estabelecimento de leis segundo os padrões de Deus serão consequência do que se passa numa sociedade em avivamento, que quer Deus. Mais do que querer mudança ou impedimento de legislação, de cima para baixo, clamo por mudança do coração das gentes, da nação, de baixo para cima. Por exemplo, se as pessoas temerem a Deus não abortarão seus bebês, ainda que haja uma lei a favor do aborto.”
Me parece que Ana Paula Valadão compreendeu sua religião melhor do que o pastor Malafaia. Enquanto este pretende impor suas crenças a todo um grupo de pessoas que provavelmente sequer partilha delas (ou, pelo menos, não do modo como ele entendeu), Ana Paula compreende a fé como um processo pessoal, e aquilo que ela chama de “avivamento” ou revelação é um processo íntimo, um movimento estritamente pessoal, que não se impõe ao outro. Sobre isso, o filósofo Agostinho de Hipona, um dos principais pensadores cristãos, já disse bem: a fé é uma graça, e as graças vêm de deus. De nada adianta exigir do outro uma fé que ele não tem, pois será uma falsa fé. Malafaia, pelo visto, não leu Agostinho, e não leu direito a própria Biblia que diz professar. Declarou ele, no Twitter: “Avivamento não é uma ação sobrenatural de Deus independente da nossa acao“. Errado. A revelação, se considerarmos o que professa a fé cristã, é algo que vem de deus, se ele quiser.
No entender de Malafaia, impor suas crenças a toda uma população é o que deus espera dele. Ele tem todo o direito de manifestar sua contrariedade, e é o que faz, continuamente. O problema é que Malafaia demoniza quem pensa diferente, e depois reclama quando é demonizado de volta. Quer dizer: ele solicita que Ana Paula Valadão faça pressão. Ela se recusa a obedecê-lo. Então ele tem a pachorra de acusá-la de não agir como uma “verdadeira evangélica”. O que podemos concluir é que ser um “verdadeiro evangélico” é fazer o que ele, Malafaia, quer. Que eu saiba, ser um verdadeiro evangélico é agir conforme deus determina em seu coração. E, para Ana Paula Valadão, ela pode contribuir para o bem do mundo de outro modo. Independentemente do meu ateismo, me parece que Ana Paula confia em deus mais do que Malafaia…
Mas deixemos o Arauto da Verdade pra lá. Vou considerar que você pensa por si próprio, a exemplo de Ana Paula Valadão.
De acordo com o IBGE, há mais de 60 mil casais formados por pessoas do mesmo sexo em nosso país. Não creio que seja fantasioso da minha parte imaginar que o número é bem maior, considerando que muitos indivíduos devem ter declarado que vivem com seu “primo” ou “prima”, ou com “um amigo(a)”. Se você acha que o reconhecimento destes casais por parte do STF é um erro, ainda assim não pode ignorar o fato de que, mesmo que o STF não reconhecesse tais casais, eles continuariam a existir.
O reconhecimento do STF, portanto, não deveria ser encarado como uma “afronta teológica” ou uma “ofensa aos cristãos”. Se você acha que um casal – que muitas vezes nem cristão é, ou seja, nada tem a ver com sua vida e sua religião – te ofende ou ofende a deus, a “suposta ofensa a deus” já existia. O STF não está preocupado com a religião alheia. Está preocupado em dirimir injustiças, e legisla a partir de argumentos laicos. Argumentos laicos não são “argumentos ateus”. São argumentos que não se pretendem atrelados a esta ou aquela religião.
Passemos a duas histórias reais, cujos nomes foram alterados. Começo com a história de Luciana. Após ter se revelado lésbica, Luciana foi execrada por sua família, palavras duras foram trocadas e nunca mais a garota sequer ouviu falar de seus pais e irmãos. Foi expulsa de casa. Neste ponto, muita gente se choca, acham que é fantasia que uma família rejeite um filho, mas isso não é nada incomum. De ontem pra hoje, colecionei declarações no Twitter: “se meu filho se declarasse homossexual, eu o expulsaria de casa”. Em alguns casos, esta ameaça é feita da boca pra fora. Em outros, é real. Eu diria que é um presente ao filho: ele se liberta de uma família que o ama condicionalmente e está livre para criar seu novo núcleo familiar, com entes queridos que, apesar da ausência de laços de sangue, o amem como ele é. O curioso – pra não usar termos piores – é que estes familiares que execram seus filhos costumam aparecer do nada após uma eventual morte ou doença incapacitante, com o intuito claro de se beneficiar materialmente. Isso não lhe parece pecado, não lhe parece injusto? O STF não pode legislar sobre os corpos dos cidadãos, não pode impedir que pessoas estabeleçam conjunções carnais homossexuais, mas pode evitar injustiças e rapinagem patrimonial.
Continuando: Luciana conheceu Márcia, por quem se apaixonou e foi correspondida. Mantiveram relacionamento estável por doze anos. Construíram uma vida em comum, o que inclui o patrimônio. Luciana tinha um apartamento em seu nome, Márcia tinha uma casa de praia. Eis que uma fatalidade ocorre: Luciana morre num acidente de carro. Mesmo que você ache que a relação entre as duas era “pecaminosa”, tente ser justo: de quem deveria ser o apartamento de Luciana? De sua companheira, que dedicou grande parte da vida a colaborar na construção deste patrimônio, ou da família que a renegou? Pois a família biológica, que renegou Luciana e sequer apareceu enquanto ela estava internada na UTI, surgiu do nada depois de sua morte, e herdou todos os seus bens materiais. Márcia teve que lutar para provar que muitos dos móveis do apartamento tinham sido comprados por ela, e não por Luciana. Lhe parece justo?
Se suas convicções religiosas – sejam elas quais forem – ainda não lhe permitiram enxergar a injustiça desta circunstância, criarei outro cenário: e se Luciana e Márcia não fossem amantes, mas apenas amigas muito próximas que moravam juntas e criaram patrimônio em comum? Mantendo amizade próxima, elas formariam um núcleo familiar fraterno, e isso deveria ser reconhecido. Você se oporia neste caso? Márcia não teria mais direito aos bens de Luciana do que a família que a execrou e em nada colaborou para a construção deste patrimônio? Porque o que está envolvido é muito mais do que o reconhecimento de apenas casais homossexuais como um núcleo afetivo. O que está envolvido na decisão do STF é o reconhecimento do conceito de “família” como algo muito mais amplo. E esta ampliação do entendimento não influencia na suafamília, que você pode constituir do jeito que seu coração, deus, o que for, determinar.
Se, para você, “família” significa um núcleo formado por marido, mulher e filhos, tudo bem. Não se pode fugir à verdade, contudo, que ninguém é impedido de se divorciar, ainda que isso seja considerado por alguns como “pecado”. A lei brasileira garante o direito ao divórcio.
Vamos a um caso mais drástico: Marcos, como Luciana, foi execrado por sua família biológica ao assumir sua orientação homossexual. Uniu-se ao namorado, André, com quem viveu por 35 anos. Certo dia, veio o diagnóstico fatal: Marcos tinha câncer em estado avançado, e apenas alguns meses de vida. André cuidou de Marcos, que terminou vivendo mais dois anos, até falecer. Assim como na história anterior, a família biológica que abandonou completamente o filho ressurgiu das cinzas, pleiteando todo o patrimônio que ele construiu junto com André. André só pôde ficar com aquilo que estava em seu próprio nome. De resto, a família biológica levou tudo, “fez a limpa”. Isso lhe parece justo?
Eu e minha irmã moramos juntos. Formamos um núcleo familiar, e por acaso temos laços biológicos. Mas ela poderia ser uma amiga, ou amigo, com quem eu teria ou não um relacionamento sexual. Isso constitui um núcleo familiar. Não é a biologia que determina familiaridade – e isso foi amplamente repetido pelos juízes no STF – e sim os afetos. Se estes afetos têm componente sexual ou não, isso não cabe ao STF legislar. Cabe, sim, reconhecer que pessoas que cuidam umas das outras precisam ter seus direitos salvaguardados.
Deste modo, espero que tenha ficado claro que o STF não “sancionou um pecado”. Afinal, se o voto fosse “não”, o tal do “pecado” continuaria a existir! Ao contrário, o STF está ajudando a impedir uma série de outros pecados: a usura, o oportunismo, a injustiça, só para citar alguns. De resto, se você estiver certo e deus existir, caberá a ele, e apenas a ele, julgar o que cada um fez de sua vida. Se você acredita mesmo em deus, confie nele. Revoltar-se é duvidar que tudo o que ocorre, ocorre segundo sua vontade. O incréu aqui sou eu, e não você.
Vitória gay, vitória do país

Basta lembrar, por exemplo, que na campanha presidencial o aborto foi objeto de uma gincana obscurantista entre os candidatos "esclarecidos". Ou não esquecer que gays (de fato ou presumidos) são espancados por gangues nas ruas, como aconteceu outro dia na Paulista.
Ao reconhecer como legal a união estável entre pessoas do mesmo sexo, o STF estendeu a esses casais os direitos dos heterossexuais -partilha de bens e herança, pensão, declaração conjunta de IR etc.
Mas, além disso, ao facultar aos gays o direito de constituir família, o STF vai contra a discriminação e a favor de uma sociedade mais tolerante e inclusiva, capaz de lidar de maneira civilizada com suas diferenças e a multiplicidade da vida.
Eram dois os argumentos legais dos adversários da causa gay: 1) a Constituição diz que "é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar"; 2) para ampliar esse conceito aos gays, seria preciso mudar a Carta, tarefa que caberia ao Congresso.
Gilmar Mendes respondeu a essas objeções no seu voto: "O fato de a Constituição proteger a união estável entre homem e mulher não significa negar a proteção à união do mesmo sexo. É dever desta Corte dar essa proteção se de alguma forma ela não foi concedida pelo órgão competente (o Congresso)" .
Mas feliz, de verdade, foi a fórmula do relator do caso, ministro Ayres Britto: "Aqui é o reino da igualdade absoluta, pois não se pode alegar que os heteroafetivos perdem se os homoafetivos ganham".
Mesmo sem perder nada, foram derrotados aqueles que se sentem ameaçados pela sexualidade alheia (ou antes a sua própria). Perderam a igreja, os conservadores em geral e os homofóbicos em particular. Nem sempre o Brasil nos decepciona. Avançamos. Com a omissão do Congresso, pelas mãos do STF
Autor: Folha de S. Paulo
terça-feira, 3 de maio de 2011
Uma história de Borboletas

Caio Fernando Abreu
André enlouqueceu ontem à tarde. Devo dizer que também acho um pouco arrogante de minha parte dizer isso assim - enlouqueceu -, como se estivesse perfeitamente seguro não só da minha sanidade mas também da capacidade de julgar a sanidade alheia. Como dizer então? Talvez: André começou a comportar-se de maneira estranha, por exemplo? ou : André estava um tanto desorganizado; ou ainda: André parecia muito necessitado de repouso. Seja como for, depois de algum tempo, e aos poucos, tão levemente que apenas ontem à tarde resolvi tomar essa providência, André - desculpem a minha audácia ou arrogância ou empáfia ou como queiram chamá-la, enfim: André enlouqueceu completamente. Pensei em levá-lo para uma clínica, lembrava vagamente de ter visto no cinema ou na televisão um lugar cheio de verde e pessoas muito calmas, distantes e um pouco pálidas, com o olhar fora do mundo, lendo ou recortando figurinhas, cercadas por enfermeiras simpáticas, prestativas. Achei que André seria feliz lá. E devo dizer ainda que gostaria de vê-lo feliz, apesar de tudo o que me fez sofrer nos últimos tempos. Mas bastou uma olhada no talão de cheques para concluir que não seria possível. Então optei pelo hospício. Sei, parece um pouco duro dizer isso assim, desta maneira tão seca: então-optei-pelo-hospício. As palavras são muito traiçoeiras. Para dizer a verdade, não optei propriamente. Apenas:
domingo, 1 de maio de 2011
Rútilo Nada

Constrangedor Louco Demente
Absurdo Intolerável
Ducente Deo começo estes escritos deveria ter dito. Tendo Deus como guia, começo estes escritos deveria ter dito.
Trecho de "Rútilo Nada", conto de Hilda Hilst
Sabato

La Rochefoucauld

Il y a des gens si remplis d'eux-mêmes que, lorsqu'ils sont amoureux, ils trouvent le moyen d'être occupés de leur passion sans l'être de la personne qu'ils aiment.
