A normal antipatia do homem por seus parentes, principalmente pelos de segundo grau, é explicada pelos psicólogos de várias maneiras torturantes e improváveis. A real explicação me parece muito mais simples. reside no simples fato de que todo homem vê em seus parentes (especialmente em seus primos) uma série de grotescas caricaturas de si próprio. Eles exibem as qualidades dele deformadas para o máximo ou para o mínimo; dão-lhe a impressão de que talvez seja assim que ele próprio se mostra ao mundo, e isto é inquietante — e por isso ferem o seu amour propre e lhe provocam intenso desconforto.
O contra-parente
O homem detesta os parentes de sua mulher pela mesma razão de que não gosta de seus próprios, ou seja, porque eles lhe parecem grotescas caricaturas daquela por quem ele tem respeito e afeição, ou seja, sua mulher. De todos eles, a sogra é obviamente a mais repugnante, porque ela não apenas macaqueia sua mulher, mas também porque antecipa o que sua mulher provavelmente se tornará. Aquela visão, naturalmente, lhe provoca náuseas. Às vezes, a coisa é mais sutil. Digamos, por exemplo, que sua própria mulher lhe pareça uma caricatura de uma irmã mais jovem e bonita. Neste caso, estando atado à sua mulher, ele pode vir a detestar a irmã — como sempre se detesta uma pessoa que simboliza o fracasso e a escravidão de alguém.
O dono da verdade
O homem que se gaba de só dizer a verdade é simplesmente um homem sem nenhum respeito por ela. A verdade não é uma coisa que rola por aí, como dinheiro trocado; é algo para ser acalentada, acumulada e desembolsada apenas quando absolutamente necessário. O menor átomo da verdade representa a amarga labuta e agonia de algum homem; para cada pilha dela, há o túmulo de um bravo dono da verdade sobre algumas cinzas solitárias e uma alma fritando no Inferno.
O romântico
Há uma variedade enorme de homens cujo olho inevitavelmente exagera o que vê, cujo ouvido ouve mais do que a orquestra toca e cuja imaginação duplica ou triplica as informações captadas por seus cinco sentidos. É o entusiasta, o crédulo, o romântico. É o tipo do sujeito que, se fosse um bacteriologista, diria que uma mísera pulga é do tamanho de um cachorro São Bernardo, tão bela quanto a catedral de Beauvais e tão respeitável quanto um professor de Yale.
O empresário
Existe um sólido instinto que põe o empresário abaixo de todos os outros profissionais e joga-lhes às costas um fardo de inferioridade social do qual ele não consegue se livrar, mesmo na América. O próprio empresário reconhece esta suposição de inferioridade, mesmo quando protesta contra ela. É o único homem, além do verdugo e do gari, que vive se desculpando por sua ocupação, para fazer parecer, quando atinge o objetivo de seu trabalho — i. e., ter ganho uma montanha de dinheiro —, que o dinheiro não era o objetivo de seu trabalho.
O jornalista, crítico e filólogoH. L. Mencken(Henry Louis Mencken) nasceu em Baltimore, Maryland, no dia 12 de setembro de 1880 e estudou no Baltimore Polythecnic. Tendo começado sua carreira jornalística como repórter, Mencken veio a exercer cargos editoriais em diversos jornais e revistas. Morreu em sua cidade natal na noite de 28 para 29 de janeiro de 1956.
A questão da saída do capitalismo nunca deixou de ser atual. Ela está colocada em termos e com uma urgência radicalmente novos. Por seu desenvolvimento mesmo, o capitalismo atingiu um limite tanto interno como que externo, que ele é incapaz de ultrapassar, e que o torna um sistema morto vivo, que sobrevive se camuflando por subterfúgios a crise de suas categorias fundamentais: o trabalho, o mérito, e o capital.
Esta crise do sistema tem como fato marcante que a massa dos capitais acumulados não é mais capaz de se valorizar pelo crescimento da produção e pela ampliação do mercado.A produção não é mais o bastante lucrativa para poder valorizar os investimentos produtivos adicionais. Os investimentos de produtividade por meio da qual cada empresa tenta restaurar seu nível de lucro têm como efeito a liberação de formas de consumo assassinas que se traduzem, entre outros efeitos, pela redução competitiva dos efetivos, terceirização, desalocação e precarização dos empregos, a baixa das remunerações, e assim, em escala macro-econômica, a baixa do volume de trabalho produtor de mais-valia, e a baixa do poder de compra. Ora, quanto menos as empresas empregam trabalho e cada vez mais taxa de capital fixo por trabalhador é substancial, maior é a taxa de exploração, quer dizer de sobre-trabalho e sobre valorização produzida por cada trabalhador deve ser mais elevada. Há nesta elevação um limite que não pode ser indefinidamente recuada, mesmo se as empresas se transfiram para a China, para as Filipinas ou para o Sudão.
Os números atestam que este limite já foi atingido. A acumulação produtiva de capital produtivo não para de regredir. Nos Estados-Unidos, as 500 firmas do índice Standard & Poor´s dispõem, em média, de 631 bilhões de reservas liquidas, a metade dos benefícios das empresas americanas provêm de operações nos mercados financeiros. Na França, o investimento produtivo das empresas do CAC 40 não aumentam, mesmo quando seus benefícios explodem. A impossibilidade de valorizar os capitais acumulados pela produção do trabalho explica o desenvolvimento de uma economia fictícia fundada na valorização de capitais fictícios. Para evitaruma resseção que desvalorizaria o capital excedente (sobre-acumulado), os poderes financeiros habituaram-se a incitar os consumidores ao endividamento, a consumir sua renda futura, seus ganhos financeiros futuros, a alta futura de seus imóveis, enquanto que a Bolsa capitaliza primeiro o crescimento futuro, os lucros futuros das empresas, as compras futuras dos consumidores, os ganhos que fariam os cortes e as reestruturações impostas pelos LBO[3], das empresas que ainda não tenham colocado em prática a precarização, a super-exploração e a terceirização do seu pessoal.
O valor fictício (das Bolsas) dos ativos financeiros dobrou em um espaço de tempo de aproximadamente seis anos, passando de 80 000 à 160 000 bilhões de dólares (ou seja, três vezes o PIB mundial), criando para os Estados-Unidos um crescimento econômico fundado no endividamento interior e exterior, o qual cria em seus domínios uma liquidez da economia mundial e o crescimento da China, dos países vizinhos, e por efeito colateral, da Europa.
A economia real tornou-se um apêndice das bolhas financeiras. É necessário, imperativamente, um novo fluxo de capital para a bolha financeira não exploda – e uma alta continua do preço imobiliário para que não destrua-se a bolha dos certificados de investimentos imobiliários por meio da qual os bancos atraíram poupança dos indivíduos prometendo-lhes mil maravilhas – pois a explosão destas bolhas ameaçaria o sistema bancário com falências em cascata, e a economia real de uma depressão prolongada (a depressão japonesa dura quinze anos). “ Nós caminhamos na beira de um abismo”, escrevia Robert Benton. Aí está, por que, nenhum Estado ousa tomar para si o risco de se alienar ou de inquietar os poderes financeiros. Não há nada a esperar de decisivo dos Estados nacionais que, em nome do imperativo da competitividade, abdicaram passo à passo no curso dos últimos trinta anos aos seus poderes para entregá-los a um quasi-Estado supranacional que impõe leis feitas sob medida para o benefício do capital financeiro mundial, de que ele é a emanação. Estas leis, promulgadas pela OMC, OCDE, FMI impões na fase atual o “tudo-é-mercadoria”, quer dizer a privatização dos serviços públicos, o desmantelamento da proteção social, a monetarização dos magros restos das relações não comerciais. Tudo acontece como se o capital, após ter ganho a guerra que ele decretou a classe operária em meados dos anos setenta, tratasse de eliminar todas relações sociais que não sejam relações comprador/vendedor, quer dizer aquelas que não reduzem os indivíduos em seres consumidores de mercadorias e vendedores de seu trabalho ou de outra “prestação de serviço” considerada como “trabalho”, independentemente do pouco que ela seja tarifada. O “todos-somos-comerciantes”, o “tudo-é-mercadoria” como formas exclusivas de relação social, seguidas da liquidação completa da sociedade, o que Margaret Thatcher tinha anunciado como projeto. O totalitarismo do mercado se explicitou como estrategia de dominação. Desde então que a globalização do capital e dos mercados, e a ferocidade da concorrência entre capitais particulares exigiam que o estado não fosse mais o garantidor da reprodução da sociedade, mas garantidor da competitividade das empresas, suas margens de manobra em matéria de política social estando condenadas a diminuir, os custos sociais eram denunciados como estorvos a livre concorrência, e entrave para a competitividade, o financiamento publico deveria ser então aliviado pela privatização.
O “todos-somos-comerciantes” desferia ataques ao que os britânicos chamam de commons e os alemães de Gemeinwesen, quer dizer a existência de bens comuns indivisíveis, inalienáveis, inconfiscáveis, incondicionavelmente acessível a todos. Contra a a privatização dos bens comuns, os indivíduos têm a tendência em reagir com ações comuns, unidas por apenas um objetivo. O Estado tem a tendencia de impedir, e em muitos casos impedir e reprimir esta união de todos, cada vez mais rigidamente, que agora ele não possui mais margens suficientes para apaziguar as massas pauperizadas, precarizadas, despojadas de direitos adquiridos. Cada vez mais sua dominação torna-se mais precária, mais as resistências populares ameaçam de se radicalizar, e mais a repressão é acompanhada por políticas que direcionam os indivíduos, uns contra os outros e designam os bodes expiatórios sobre os quais concentrar seu ódio.
Se percebemos-se o espírito deste senário, os programas, os discursos e os conflitos que ocupam o centro da cena política parecem derisórios e deslocados em relação ao mecanismos da realidade. As promessas e os objetivos colocados como prioritários pelos governantes e pelos partidos aparecem como diversões irreais, que mascaram o fato que o capitalismo não oferece nenhuma perspectiva, se não aquela de uma degradação continua das condições de vida, do agravamento da crise, passando por degradações econômicas cada vez mais longas, com curto e fracos períodos de recuperação. Não há nenhum “melhor” a ser esperado, se julgamos o melhor segundo os critérios habituais: não haverá “desenvolvimento” sob a forma do aumento do emprego, do salário e da segurança social. Não haverá mais “crescimento” de cujos os frutos possam ser socialmente redistribuídos e utilizados para um programa de transformações sociais que transcendam os limites e a lógica do capitalismo
A esperança colocada, há quarenta anos, nas “reformas revolucionárias” que nasceram do interior do sistema sob pressão das lutas sindicais, que acabaram por transferir para a classe operária os poderes arrancados do capital, esta esperança não existe mais. A produção necessita cada vez menos de trabalho, e distribui cada vez menos poder de compra com cada vez menos ativos; elas não são mais concentradas em grandes indústrias, e nem lá mais se concentra a força de trabalho. O emprego é cada vez mais descontinuo, disperso em prestadores de serviço externo, sem contato entre eles, com um contrato comercial em vez de um contrato de trabalho. As promessas e os programas de “retorno” ao pleno emprego são miragens cuja a função é somente manter o imaginário salarial e comercial, quer dizer, a idéia que o trabalho deve necessariamente ser vendido a um empregador e os bens de subsistência comprados com o dinheiro ganho; de outra forma dito: que não há salvação fora da submissão as necessidades do consumo de mercadorias; que não há vida, não há sociedade além da sociedade da mercadoria e do trabalho mercantil, além e fora do capitalismo.
O imaginário comercial e o reino da mercadoria impedem a qualquer um imaginar a possibilidade de sair do capitalismo, e impedem conseqüentemente o “querer sair”. Também há tanto tempo que permanecemos prisioneiros do imaginário salarial e mercantil, que o anticapitalismo e a referência de uma sociedade além do capitalismo torna-se abstratamente utópica, e as lutas sociais contra as políticas do capital permaneceram lutas defensivas que, no melhor dos casos, poderão frear, mas não impedir a deterioração das condições de vida.
A “reestruturação ecológica” somente vai agravar a crise do sistema. É impossível evitar uma catástrofe climática sem romper radicalmente com os métodos e a lógica econômica que são empregados há 150 anos. Se prolongamos a tendência atual, o PIB mundial será multiplicado pelo fator 3 ou 4 no ano 2050. Ora, segundo o relatório do Conselho sobre o Clima da ONU, as emissões de CO2 deverão diminuir em 85% até esta data para limitar o reaquecimento climático em 2o C, as conseqüências serão irreversíveis, e não controláveis.
A desaceleração é então um imperativo de sobrevivência. Mas ela supõe uma outra economia, um outro estilo de vida, uma outra civilização, outras relações sociais. Em sua falta, a desaceleração corre o risco de ser imposta a força, com restrições, racionamentos, e alocações de fontes características de um socialismo de guerra. A saída do capitalismo se imporá então de uma forma ou de outra. A reprodução do sistema é assombrada ao mesmo tempo por seus limites internos e externos engendrados pela pilhagem e pela destruição de uma das duas “principais fontes de onde provêm toda riqueza”: a terra. A saída do capitalismo já começou sem que ainda se tenha desejado-a conscientemente. A questão é então somente com que forma e com que cadência elavai acontecer.
A instauração de um socialismo de guerra, ditatorial, centralizador, tecnocrático,seria uma conclusão lógica, somos tentados a dizer “normal” - de uma civilização capitalista que na preocupação de valorizar massas crescentes de capital, procedeu ao que Marcuse chama de “dessublimação repressiva”, quer dizer a repressão das “necessidades superiores”, para criar metodicamente necessidades crescentes de consumo individual, sem se preocupar com as condições de sua satisfação. Ela é aludida desde o começo da questão que está na origem das sociedades: a questão entre a relação das necessidades e as condições que tornam sua satisfação possível: a questão é a forma como gerenciar os recursos limitados de maneira que eles sejam suficientemente duráveis para cobrir a necessidade de todos; e inversamente a procura por um acordo geral sobre o que será suficiente para cada um, de maneira que as necessidades correspondam aos recursos disponíveis.
Nós chegamos então ao ponto onde as condições não existem mais para permitir a satisfação das necessidades que o capitalismo nos deu, inventou, impôs, persuadiu a ter, para poder fazer escoar as mercadorias que ele nos ensinou a desejar. Para nos ensinar a renunciar a isto, a eco-ditadura parece a muitos ser o caminho, o mais curto. Ela seria a preferência daqueles que sustentam o capitalismo e o mercado para apenas serem capazes de criar e redistribuir as riquezas, e que preveria uma reconstituição do capitalismo sob novas bases depois das catástrofesecológicas tenham recolocado o “medidor” no zero, provocando o anulamento das dividas, e do crédito.
Portanto uma via totalmente diferente é possível. Ela leva a uma extinção do mercado e do salariado pelo desenvolvimento da auto-produção, da disponibilização comum, da gratuidade. Encontramos os exploradores e os pesquisadores desta via nos movimentos dos softwares livres, da rede livre (freenet), da cultura livre que com licença CC (Créative Communs) torna livre ( e livre: free em inglês, ao mesmo tempo, significa acessível, utilizável por todos, e gratuito) do conjunto dos bens comuns culturais – conhecimentos, programas, textos, musicas, filmes, etc – reproduzíveis em um número ilimitado de cópias por um custo negligenciável. O passo seguinte seria logicamente a produção “livre” de toda vida social, começando-se por subtrair do capitalismo certos flancos suscetíveis de serem auto-produzidos localmente por cooperativas comunais. Este gênero de subtração da esfera mercantil é compreendida por bens culturais onde ela foi batizada de “auto-cooperating”, um exemplo clássico é a Wikipedia que está em processo de “auto-cooperar” a Enciclopédia Britânica. A extensão deste modelo aos bens materiais tornou-se cada vez mais fraca graças a baixa dos meios de produção e a difusão dos saberes técnicos requisitados para a sua utilização. A difusão de competências informáticas, que fazem parte da “cultura do cotidiano” sem terem sido ensinadas, é um exemplo entre tantos outros. A invenção dos fabbers, também chamados digital fabricators ou factories in a box – trata-se de uma espécie de ateliês flexíveis transportáveis e instaláveis em qualquer lugar – obra da auto-produção local, com possibilidades preticamente ilimitadas.
Produzir aquilo que nós consumimos e consumir aquilo que nos produzimos é a via real da saída do mercado: ela nos permitiria perguntar-nos de que realmente temos necessidade, e em que quantidade e em qual qualidade, e de redefinir pela concertaçãotendo em conta o meio-ambiente e as matérias primas, a norma do suficiente que a economia de mercado tenta de toda forma abolir. A auto-redução do consumo, sua auto-limitação – o self-restreint – e a possibilidade de reencontrar o poder sobre nossa forma de viver, passam por isso.
É mais provável que os melhores exemplo de praticas alternativas de ruptura com o capitalismo nos venham do sul do planeta, julgando-se a criação no Brasil nas favelas mas não somente das “novas cooperativas” e dos “pontos de cultura”. Claudio Prado, que dirige o departamento da “cultura numérica”no ministério da Cultura, declarou recentemente: “O “job” é uma espécie em via de extinção... Nós esperamos pular essa fase sem valor do século XX para passar diretamente do século XIX para o século XXI.” A auto-produção e a reciclagem de computadores, por exemplo, são sustentadas pelo governo: Trata-se de favorizar “a apreciação das tecnologias pelo usuário dentro do objetivo da transformação social”. Tão bem, que três quertos de todos os computadores produzidos no Brasil em 2004/5 foram autoproduzidos.
Setembro 2007
[1]André Gorz, nascido Gerhard Hirsch, (Viena, fevereiro de 1923 — Vosnon, 22 de setembro de 2007) foi um filósofo austro-francês, também conhecido pelo pseudônimo Michel Bosquet.
Como jornalista, ajudou a fundar em 1964 o semanário Le Nouvel Observateur. Apoiador de Sartre na versão existencialista do marxismo depois da guerra, rompeu com ele após o Maio de 68. Passou a se interessar por ecologia política e tornou-se um de seus principais teóricos. Seu tema central foi o trabalho: liberação do trabalho, justa distribuição de trabalho, trabalho alienado, etc. Ele também defendeu a Renda Básica de Garantia (ou Renda básica de cidadania), que tem no Senador Eduardo M. Suplicy seu principal defensor no Brasil.
Autor da obra "Metamorfoses do Trabalho", na qual analisa, entre outras questões, a relação do Cálculo Contábil com a Racionalidade Econômica.
André Gorz cometeu suicídio no dia 24 de Setembro de 2007, aos 84 anos, porque sua mulher, Doriane, estava acometida de doença incurável, e segundo o próprio Gorz, não seria possível para ele viver um segundo sequer nesse mundo sem a presença e a companhia de sua amada.
[3]Um leveraged buyout (LBO), também conhecido como highly-leveraged transaction, refere-se a uma transação onde um se adquire o controle acionário de empresa e uma parcela signifcativa do pagamento é financiado através de dívida.Esta estratégia normalmente passa por criar um veículo (empresa) com relativamente pouco capital que procede à compra da empresa alvo endividando-se pelo montante da compra. De seguida, após a aquisição, o veículo e a empresa alvo são fundidos numa só empresa, pelo que na prática a empresa adquirida acaba por assumir a dívida usada para a comprar, e o investimento total dos compradores, muitas vezes firmas de Private Equity, se resume ao capital do veículo, um montante muito inferior ao custo da compra da empresa alvo; são usuais rácios de 30% equity/70% dívida, mas na prática esta distribuição pode chegar até próxima de 0% equity/100% dívida.
Na “grande” imprensa, a utilização de termos estrangeiros numa matéria é, geralmente, indicador de elitismo e esnobismo. Mas, não para nós, que temos uma perspectiva internacionalista e libertária em relação ao mundo. Muito menos quando queremos dar nosso adeus a alguém como Mercedes Sosa, que dedicou sua arte e vida ao rompimento das fronteiras, ao desejo de cantar as línguas do mundo.
“La Negra”, como era carinhosamente chamada por seus compatriotas, morreu aos 74 anos, na madrugada de domingo, 4 de outubro.
Para quem viveu neste continente nos últimos 40 anos, é impossível resumir a importância dessa mulher (nascida em Tucumán, no norte argentino, em 1935), a uma página de jornal. Uma mulher que, pra começar, foi, ao mesmo tempo, profundamente indígena e imensamente universal.
Nossa melhor homenagem é ouvi-la e cantá-la, sempre. É carrega-la em nossos “corações e mentes”, embalando nossos sonhos e lutas pela liberdade; nossos amores e perdas. E, principalmente, dando “gracias a la vida, que nos há dado tanto...”. Inclusive o prazer ter tido Mercedes Sosa entre nós e, também, do “nosso” lado.
La hermana libertad!
Em 1979, quando a Argentina vivia sob a pesada botina do general Videla, Mercedes exilou-se na Europa, depois de ser presa num show em La Plata, dando início a sua projeção internacional ao ser elevada pelos seus fãs (exilados, como ela, ou oprimidos por ditaduras dentro de seus próprios países) à voz que embalava a luta pela liberdade, não só na América Latina, mas mundo afora.
Na época, ela já era bastante conhecida em sua terra, onde, desde os meados dos anos 1960 – quando lançou “Yo no canto por cantar”, com clássicos “Canción para mi América” e “Zampa para no morir” –, Mercedes se tornou uma das principais expressões do “novo cancioneiro” latino-americano, um movimento marcado pela mescla, nos ritmos e letras (na forma e no conteúdo), das tradições culturais dos países latinos, suas paixões políticas e afetivas.
No Brasil, sua voz se tornou mais conhecida a partir de 1976, através de um memorável dueto com Milton Nascimento – um de seus principais parceiros no Brasil (ao lado de Chico Buarque, Elis Regina e Fagner, dentre vários outros) –, com quem gravou a dilacerante “Volver a los 17”. Desde então, seu bumbo, poncho e sua voz encantadora jamais ficaram muito distantes do Brasil.
A gravação, que lhe custou uma investigação pelos órgãos da ditadura, era da “mãe” da canção de protesto latino-americana, a compositora e artista plástica chilena Violeta Parra, que havia se suicidado dez anos antes, depois de deixar poéticos e vibrantes testemunhos de sua luta pela liberdade e de sua conturbadíssima vida pessoal, em letras como “Gracias a la vida”, a dolorosamente militante “La carta”(“Me mandaron una carta / por el correo temprano, / en esa carta me dicen / que cayó preso mi hermano....”) e a ultra comovente e anti-racista "Duerme, negrito".
Nos anos que se seguiram, foi a voz de Mercedes que nos conduziu pelos corredores, labirintos e todos os cantos – mágicos ou sinistros –, da América Latina.
Foi assim nos sombrios anos da década de 1970. Foi La Negra, porexemplo, que com a voz rasgada e indignada, nos colocou dentro de um maldito estádio chileno, fazendo com que os últimos acordes do poeta, dramaturgo e professor Victor Jara nunca fossem esquecidos, mesmo depois de ter tido suas mãos decepadas pelos militares. Fazendo-nos lembrar que sua dor nunca será perdoada.... Nem sua poesia e luta foram em vão.
E, certamente, foi a voz dela que deve ter ninado e acalentado aqueles que, como Jará, padeciam pelos cantos escuros dos calabouços militares que contaminavam o Sub Continente. Por isso, em nome deles, também lhes damos “gracias”.
La Negra: grande como o continente
Para muitos de nós, brasileiros, que, deformados pela ideologia dominante, às vezes nos esquecemos que somos, também e sempre, latino-americanos, foi também a poderosa e comovente voz de Mercedes que nos guiou pelos vales e cordilheiras dos Andes, pelas ruas de Buenos Aires e Santiago,até a mítica Macondo de Garcia Márquez, passando pelos labirintos de Cortazar, mas sempre nos deixando perto da Cuba, da Nicarágua, de El Salvador ou onde quer que houvesse alguma luta.
Responsável, como poucos, pela real “integração” latino-americana que precisamos – a das lutas, da cultura e de um novo projeto social e político –, Mercedes trouxe para o Brasil “Cuando voy al trabajo” e “Plagaria a um labrador”, de Jará; “Poema 15”, de Neruda, e trabalhos de uma infinidade de outros argentinos geniais, como Atahualpa Yupanqui, Horacio Guarany (da belíssima e libertária “Si se calla el cantor”), Tejada Gómez e César Isella (que fizeram juntos “Cancíon con todos”).
Desta lista – difícil escolha numa obra deixada em mais de 40 discos – também não podem faltar outros talentos latinos, como Pablo Milañes (“Años”), Felix Luna e Ariel Ramirez (da rasgada “Alfonsina y el mar”) e Maria Elena Walsh, autora da resistente “Como la cigarra” (“Tantas veces me mataron / Tantas veces me morir / Sin embargo estoy aqui resucitando / Gracias doy a la desgracia...”).
Cumprindo seu papel de “porta-voz” de nossas lutas e sonhos, Mercedes, em suas “andanças”, também carregou consigo, coisas nossas como “Semeadura”(regravada com o nome “Seambra”), de José Fogaça e Victor Ramil, ou a “Maria, Maria”, desde sempre transformada em hino das mulheres em luta, continente afora.
Por isso, não foi por acaso que, quando o povo, aqui no Brasil, foi pras ruas, parou as fábricas, subiu nos banquinhos das escolas e, ao lado de negros, mulheres, gays e lésbicas, começou a virar a mesa e subverter a ordem, foi mais uma vez Mercedes Sosa, a hermana-compañera, que embalou as passeatas e ritmou os sonhos de toda uma juventude que, no final dos anos 1970, ao se rebelar contra a ditadura, reatava seus laços com os herdeiros dos Tupa Amaros, dos Bolivares, dos Martís, dos incas e astecas.
Vivir és otra cosa!
Para os que tiveram o privilégio de ver Mercedes Sosa em sua última passagem pelo Brasil, no ano passado, a imagem que ficou de “La Negra”, é de uma figura que lembra aquelas “grandes-deusas”, tão presentes nas tradições míticas latino-americanas.
Já bastante debilitada fisicamente, Mercedes mal podia mover-se, mas mantinha sua poderosa voz intacta e com a vivacidade de sempre, fazendo-se gigante e parecendo atemporal (como aquelas figuras que arrancam forças da própria natureza), “La Negra” entoou seus velhos sucessos e canções de um de seusúltimos discos, “Corazón Libre”.
Testemunho fiel das idéias às quais se manteve fiel até o fim da vida, inclusive a defesa de uma sociedade comunista, “Corazón Libre” é, também, uma espécie de “testamento” de La Negra, na medida em que foi nele que ficou gravado um poderoso verso, no qual a cantora já dialogova com sua morte: “Adelante, corazón, sin medo de la derrota. Durar nos es estar vivo, corázon. Vivir és otra cosa”.
Sim, viver, de fato, é outra coisa. Viver é lutar, sonhar, se indignar, mas também saber tirar o máximo da vida, saber arrancar poesia da “desgraça”. E, acima de tudo, viver é ter consciência do nosso papel no mundo. Por isso, não há dúvidas de que Mercedes viveu. E viverá para sempre em suas canções e em nossas lutas: Mercedes Sosa, nuestra hermana, libertad!
Pintura: Descendimiento.1991.Oleo sobre tela.170 X 200 cm de Germán Gardano (pintor argentino)
Ele estava morrendo, como morrem os cardíacos. Eu o via todos os dias se sentar, por volta das duas horas, sob as janelas do hotel, na frente do mar tranqüilo. Ele permanecia por algum tempo imóvel no calor do sol, contemplando com olhos mornos o mediterrâneo. As vezes ele dirigia seus olhar para a alta montanha com seus cumes vaporosos, que circundavam Menton; depois ele cruzava com movimentos muito lentos, suas longas pernas, tão magras que elas pareciam dois ossos, em torno dos quais flutuava o tecido da calça, e ele abria um livro, sempre o mesmo.
Assim ele não se mexia mais, ele lia, lia com os olhos e com o pensamento; todo seu pobre corpo expirando parecia ler, toda sua alma submergia-se, perdia-se neste livro ate a hora quando o ar refrescava-seo fazia tossir um pouco. Ele então se levantava e recolhia-se.
Era um alemão grande, com a barba loira, que almoçava e jantava em seu quarto e não falava com ninguém.
Uma vaga curiosidade me levava até ele. Um dia, eu me sentei ao seu lado, tendo pego também, para me dar postura, um volume de poesias de Musset.
E eu me pus a percorrer Rolla.
Meu vizinho disse-me de súbito, em bom francês:- “Você sabe alemão, senhor?”
- Não sei nada, senhor.
- É uma pena. Pois que a sorte nos colocou lado à lado, eu lhe teria emprestado uma coisa inestimável: este livro que eu tenho aqui.
- O que ele é?
- É um exemplar de meu mestre Schopenhauer, anotado por sua própria mão. Todas as margens, como você vê, estão cobertas por sua escrita.
Eu peguei o livro com respeito e eu contemplei as formas incompreensíveis para mim, mas que revelavam a imortalidade pensadado maior destruidor de sonhos que já passou sobre a terra.
E os versos de Musset explodiram em minha memória:
Você dorme contente, Voltaire e seu hediondo sorriso
Ainda faz malabarismos sobre os descarnados?
E eu comparei involuntariamenteo sarcasmo religioso infantil de Voltaire a irresistível ironia do filosofo alemão cuja influencia é, não obstante, indisfarçável.
Não importa o quanto se proteste ou zangue-se, ou se indigne ou que se exaspere; Shopenhauer marcoua humanidade com o selo de seu desdém e de seu desencantamento.
Gozador desabusado, ele inverteu as crenças, as esperanças, a poesia, as quimeras, destruiu as aspirações, devastou a confiança das almas, matou o amor, abateu o culto ao Idea da mulher, arrasou com as ilusões do corações, e realizou a maior tarefa céptica que jamais havia sido feita. Ele tudo atravessou com seu sarcasmo e tudo esvaziou. E hoje mesmo, todos aqueles que o execram, parecem possuir, involuntariamente, parcelas de seu espírito.
- Você então conheceu particularmente Schopenhauer? – disse eu ao alemão.
Ele sorriu tristemente.
- Até sua morte, senhor.
E ele me fala dele, ele me conta da impressão quase sobrenatural que causava esse ser estranho a todos aqueles que se aproximavam.
Ele falou-me de uma conversa que teve o velho demolidor com um político francês, doutrinariamente republicano, que o quis conhecer e o encontrou em uma brasserie tumultuosa, sentado no meio dos discípulos, seco, reto, sorrindo com uma expressão imóvel, sarcástico e rasgando as idéias e as crenças com apenas uma palavra, como um cão que com uma mordida rasga os tecidos com os quais brinca.
Ele me repetiu as palavras deste francês, que retirando-se assustado, horrorizado e se exclamando:
- Eu pensei ter passado uma hora com o diabo.
- Ele tinha, de fato, senhor, um assustador sorriso, que nos causou medo, mesmo depois de sua morte.É uma história quase desconhecida que eu posso te contar se ela te interessa.
E ele começou, com uma voz cansada, com acessos de tosse o interrompendo a todo o momento.
*
Schopenhauer acabara de morrer, e foi decidido que nos o velaríamos em turnos, em duplas, até a manhã.
Ele estava deitando em um grande quarto, muito simples, vasto e sombrio. Duas velas queimavam na mesa do quarto.
Foi a meia noite que eu assumi meu posto, com um dos nossos camaradas. Os dois amigos que nos substituíamos saíram e nós fomos nos sentar ao pé da cama.
A sua aparência não tinha em nada mudado. Ele ria. O vinco que nós conhecíamos tão bem se mostrava nos cantos dos lábios, e nos parecia que ele abriria de novo os olhos, se mexeria e falaria. Seu pensamento, ou melhor, seus pensamentos nos envolviam, nós sentíamos como nunca a atmosfera de sua personalidade, invadidos e possuídos por ela. Sua dominação nos parecia até mesmo mais soberana agora que ele estava morto. Um mistério se misturava a potência deste espírito incomparável.
O corpo destes homens desaparece, mas eles permanecem vivos, e, na noite que segue a parada de seus corações, eu asseguro senhor, que eles são assustadores.
E, em todo caso, nós falávamos dele, nos lembrávamos de suas palavras, suas fórmulas, suas surpreendentes máximas que pareciam luzes jogadas, por meio de algumas palavras, nas trevas da Vida desconhecida.
“Eu tinha a impressão que ele ia falar” disse meu camarada. E nós olhamos, com uma inquietude beirando o medo, aquele rosto imóvel, ainda sorrindo.
Pouco a pouco nós nos sentimos desconfortáveis, oprimidos, enfraquecidos. Eu balbuciei:
“Eu não sei o que eu tenho, mas, eu te asseguro que eu estou doente.”
E nós percebemos então que o cadáver cheirava mal.
Então, meu companheiro me propôs que mudássemos para o quarto viszinho, deixando a porta aberta; e eu aceitei.
Eu peguei uma vela que queimava sobre a mesa do quarto, e deixei a segunda, e nós fomos nos sentar no outro lado do cômodo de forma que de nosso lugar a cama e o morto eram claramente vistos.
Mas ele nos obsedava ainda, podia-se dizer que seu ser imaterial, desprendido, livre, todo poderoso e dominador, rondava em nosso entorno. E às vezes, o odor infame do corpo decomposto chagava a nós, penetrando-nos, enjoativo e vago.
De súbito, um arrepio nos envolveu os ossos, um barulho, um pequeno barulho tinha vindo do quarto do morto. Nossos olhares dirigiram-se imediatamente sobre ele, e nós vimos, sim, senhor, alguma coisa branca correndo sobre a cama, cair no chão sobre o tapete e desaparecer embaixo de uma poltrona.
Ficamos de pé antes de ter tempo de pensar a qualquer coisa, loucos com um terror estúpido, prontos a fugir. Depois, nós nos olhamos. Estávamos horrivelmente pálidos. Nossos corações batiam tão forte que levantavam o tecido de nossas roupas. Eu falei primeiro.
“Você viu...?”
- Sim, eu vi.
- Será que ele não está morto?
- Mas isso é impossível já que já começou a putrefação?
- O que vamos fazer?
Meu companheiro pronuncia hesitante
- “Temos que ir ver.”
Eu peguei nossa vela, e eu entrei primeiro percorrendo os olhos por toda peça sombria e seus cantos escuros. Nada mais se movia; e eu me aproximei da cama.Mas eu permanecia dominado pelo estupor e pelo medo: Schopenhauer não ria mais! Ele fazia uma careta horrível, sua boca fechada, e as bochechas profundamente fundas. Eu balbuciei:
“Ele não está morto!”
Mas o odor insuportável me subia ao nariz, e sufocava-me. E eu não me mexi mais, olhando-o fixamente, assustado como diante de uma aparição.
Então meu companheiro, tendo pegado a vela se inclina. Depois sem dizer uma palavra ele me toca o braço. Eu segui seu olhar, totalmente branca sobre o tapete, aberta como que para morder, estava a dentadura de Schopenhauer.
O processo de decomposição desprendeu as suas mandíbulas, fazendo-a cair da boca.
Eu tive realmente medo nesse dia, senhor.
E como o sol se aproximava do sol do mar cintilante, o alemão tísico levantou-se, cumprimenta-me e voltou para o hotel.