terça-feira, 23 de novembro de 2010

Comentários de Lucien Febvre e Braudel sobre Oswald Spengler


Augusto Patrini Menna Barreto Gomes

História – FFLCH – LabTeo (bolsista FAPESP)

Este artigo pretende fazer uma breve análise dos comentários feitos por Lucien Febvre e Fernand Braudel a respeito da obra “A Decadência do Ocidente[1], de Oswald Spengler. Este livro, pontilhado de fulgurantes imagens vitalistas, comparações ousadas e algo de arrogância profética, foi bastante influente no mundo germânico dos anos 1922 – 1929. Sua interpretação sobre a história, cultura e civilização ecoou fortemente entre leitores cultos de língua alemã, como testemunha-nos L. Febvre:

Vejo ainda nas vitrinas renanas as pilhas impressionantes feitas com esse in-octavo: elas se desmanchavam como neve ao sol. Em algumas semanas o nome de O. Spengler estava célebre no mundo germânico – e seu livro conhecia o maior sucesso alcançado na Alemanha por um livro de filosofia desde Gibbon. Sucesso ainda não seria bem o termo: seria necessário falar-se de revelação.[2]

no mundo anglo-latino, sua recepção foi bem mais timida. Entretanto pode-se afirmar que posteriormente as ideias contidas em “A Decadência do Ocidente” estiveram ressoando em Arnold Toynbee, André Malraux e Ortegat y Gasset[3].

Peter Burke chega arriscar em “A Escola dos Analles” que mesmo Braudel repercute algumas ideias spenglerianas:

Sua concepção [a de Braudel] de civilização material merece também uma análise mais acurada. A ideia de um domínio da rotina (civilization), contra um domínio da criatividade (Kultur), foi muito cara a Oswald Spengler, um historiador com o qual braudel tem mais afinidades do que as geralmente admitidas.[4]

Talvez pela popularidade e influência da obra de Spengler no mundo de língua alemã, L. Febvre e Braudel escreveram artigos sobre seu principal.

Lucien Febvre emDeux philosophies opportunistes de l´histoire: de Spengler à Toynbee” empreende uma crítica ácida ao livro, apontando nele características negativas como o antiintelectualismo resoluto, a noção heróica de destino, o antiesteticismo, o frênio da criatura humana diante da majestade, a ampla majestade da história[5] Para o fundador dos annalles é como que se estas características decorressem de um tipo de zeitgeist pré-nazista, que deram a Spengler a possibilidade de responder aos anseios ideológicos de uma Alemanha pósGuerra Mundial, ressentida com o liberalismo ocidental e as concepções hegemônicas de progresso e ciências naturais. Trata-se, deste modo, para Febvre, de uma teoria da história “totalitária”:

Todos os fatos humanos de uma mesma época se integram emculturas”. Essas culturas são seres vivos. São digamos plantasque nascem, se desenvolvem, murcham e morrem. Seu destino começa quando o impulso, a proliferação de tudo o que elas englobam em sua unidade, se fazem anárquicos e desregrados. Além disso, ainda que todas realizem na mesma ordem as mesmas etapascada uma delas difere profundamente de suas vizinhas pela própria alma que a anima.[6]

Lucien Fevbre essa concepção de histórica como organicista como expressão do “anúncio do declínio da civilização” e do “ódio pessimista da Kultur alemã da época” – era quilo que os alemães desejavam escutar dos historiadores profissionais alemães. Mas como estes, nesta época, encontravam-se ilhados em um antiquado elitismo acadêmico, Spengler pôde espezinha-lhes oferecendo à psicologia ressentida dos alemães imagens vivamente coloridas”, e regras da analogia da decadência. que nas palavras de Febvre os alemães preferiam sentir confusamente” à compreender com toda a lucidez”.

Lucien Febvre termina seu duro artigo afirmando que Spengler de forma burlesca – afastou-se explicitamente do nacional-socialismo em seu último livroAnos de Decisão[7], mas continuou oferecendo conselhos aos seus líderes. Este posicionamento político, de acordo com Febvre, não teria acontecido por que o nazismo não era mais compatível com as teorias pessimistas de Spengler - posto que, uma vez no poder, o hitlerismo necessitava do otimismo redentor do “recomeçar, novo homem” (Neubeginnen, Der neue Mensch).

Essa interpretação do fundador dos annalles sobre a obra de Spengler é provavelmente fortemente marcada pelo clima de disputa e sofreguidão da época da 2a Guerra Mundial. De alguma forma, o artigo diz muito sobre a obra de Spengler, mas também diz muito sobre o tempo e o lugar do historiador Lucien Febvre. Considero que sua crítica é eminentemente política, e não teórica ou historiográfica.

o olhar de Braudel, é muito menos marcado por essa sofreguidão, pois escreveu sobre Spengler muito após a guerra. Braudel percebeu as inovações metodológicas contidas em “A decadência do Ocidente”, e julgou o livro de forma mais tranquila. Em seu texto “A História das Civilizações: o passado explica o presente[8], de 1959, notou acertadamente que a compreensão da Kultur spengleriana relaciona-se com aquela concepção medieval relativa à alma, e não como muitos intérpretes pensam, ao organismo biológico:

[...] cada cultura particular é um ser unitário de ordem superior’: o maior personagem da história. Mas personagem não é um termo conveniente, nem organismo tão pouco. Como se acentuou recentemente, as culturas, no pensamento de spengler, são seres; não seres no sentido de biologia, mas antes no sentido do pensamento medieval: corpos inertes se uma alma os não animar (a Kulturseele). O que este livro veementemente fustiga sob o nome de cultura do ocidente é decididamente, um ser místico, uma alma.[9]

Braudel também percebeu que a questão central na concepção de história de Spengler é que “uma cultura é um encadeamento ou, como diríamos na nossa gíria atual, uma estrutura dinâmica e de larga duração.” Além disso, ele não deixa de ressaltar o caráter curioso do método comparativo spengleriano que coloca emcontato” cronologicamente e geograficamente culturas históricas diversas, sem deixar de observar, entretanto, o problema de como estabelecer o ponto de contato entre essas várias culturas:

Ao definirmos uma cultura através de uns quantos traços originais, ou mais ainda pelo feixe particular que estas originalidades formam, o método do historiador das civilizações ganha em simplicidade: reduz-se a extrair, a estudar estas peculiaridades. Depois não tem mais que pô-las em relação umas com as outras e compará-las, a fim de comparar assim as próprias civilizações. A partir destas premissas, vemo-nos arrastados a estranhas viagens através do tempo, dos séculos, dos milênios; viagens que sugerem as descrições e as antecipações que, agora, nos permitem as viagens cósmicas. Subitamente fora das leis da gravidade, todas as bagagens, todos os corpos são arrancados do seu lugar e flutuam juntos livre e estranhamente.[10]

O problema de Spengler, para Braudel, não é seu método, mas sua pretensão em dar a História uma ordem coerente marcada por fases determinantes e inevitáveis - ao colocar em destaque “o destino dos valores espirituais” a que reduz as culturas e as civilizações. Algo, que hoje, parece-nos no mínimo irracional ou determinista.

Uma teória da história totálitária?

Mas, como devemos entender as ideias de Spengler? Como classificá-las dentro das teorias da história? Precisamos, como o faz Lucien Febvre, definí-lo politicamente? Seria acertado classificá-lo nestes parâmetros?

O declínio ou a decadência são temas muito comuns ao romantismo. Em certa medida, Spengler foi parte da tradicional Kulturpessimismus alemã. Por isso, muitos intérpretes o relacionam ao romantismo, assim como o faz Le Goff[11]. Às vezes, Spengler é considerado como o último romântico filosófico, ou como um precursor do estruturalismo, ou simplesmente, em termos mais políticos, tachado como um teórico protonazista.

O historiador Jeffrey Herf[12], em seu livro “O Modernismo Reacionário” aborda o conteúdo político dos escritos de Spengler e os classifica como um tipo ambíguo de modernismo reacionário. Sua hipótese é que em sua principal obra Spengler conseguiu unir valores opostos, como crítica à sociedade moderna, à democracia liberal e ao capital com a valorização da técnica, do nacionalismo e da Kultur. Não se pode negar que havia em Spengler (assim como seus colegas defensores da revolução conservadora) uma vontade de mudar, ao modo nietzscheano a situação política, intelectual e econômica da Alemanha. Spengler parece ter defendido, principalmente em seus livros menores, a ordem técnica de massa, a modernidade técnica e social, como vetor de uma mobilização total. Isso tudo, não obstante suas várias críticas à modernidade.[13]

Herf afirma sobre A Decadência do Ocidente:

A obra está repleta de conhecidos itens do repertório antimodernista, mas também apresenta um tema que recebia menor atenção, qual seja, a conciliação de sentimentos românticos e irracionalistas com o entusiasmo pelo avanço técnico. Os íntimos laços pessoais de Spengler com os industriais alemães e os revolucionários conservadores[14] do Clube de Junho alimentavam sua síntese ambígua de técnica e irracionalismo, que mais tarde propiciou aos engenheiros papel fundamental dentro da nova elite cuja tarefa era resgatar a Alemanha do liberalismo da República de Weimar.[15]

Ou seja, nesta obra, mas, sobretudo seus livros posteriores, Spengler conciliou os valores da Kultur com o nacionalismo e a defesa da técnica. Spengler via o nacionalismo e a tecnologia como expressões da intuição e da vontade[16] para ele, motores da vida e da História (Destino).

É interessante notar que para a perspectiva spengleriana, a ciência encarnaria os mesmos aspectos rituais e míticos daqueles da religião, esta posição expressa, nas palavras de Herf, uma sensação de mundo faustiana”, “um impulso para se espalhar através dos espaços naturais da terra a fim de sobrepujar a resistência e amorfia.”[17] O desenvolvimento das técnicas modernas representava para o autor a renovação do mito e reencantamento do mundo. O mundo da formapolítica, cultura, economia etc - seria apenas expressão daquilo antigo e imanente - a alma cósmica. Essa visão é característica de uma aceitação e de uma rejeição seletiva da modernidade.

É claro que Spengler foi também, como deixou claro Lucien Febvre, umprofeta que anunciou a ascendência das massas, dos exércitos, de um partido, e o advento de novas ditaduras[18]. Defendeu mesmo a conciliação entre o Volk, os operários e os conservadores, os valores essenciais da Prússia – coração da Alemanha[19].

Herf afirma sobre a visão política de Spengler:

(...) a originalidade de Spengler situava-se na amálgama de um panorama do passado com uma visão de mito e símbolo que indicava a possibilidade de uma nova era de política estetizada amanhecendo no futuro. Mais ainda, ver os avanços da técnica moderna através dos prismas de semelhante simbolismo transformava fatos profanos da vida cotidiana em fatos sagrados e transcendentais.[20]

Essa visão estabelecia um tipo de anticapitalismo de direita, cujo principal elemento a ser criticado não era a máquina, mas o dinheiro, enquanto fator desenraizado, e parasitário.

Não resta dúvida de que seus dos repetitivos volumes estejam cheios de queixas antimodernistas padrão. Mas a obra [A Decadência do Ocidente] não termina em nota de desespero e resignação. É um apelo à ação, o manifesto de um modernismo fendido. A política, o sangue, e tradição devem se levantar para derrotar o poder da Geist e do Geld.[21]

Herf também conclui que Spengler enxergava os problemas de sua época e da história por meio do prisma de mitos e de símbolos que possibilitavam tornar a realidade muito menos complexa do que de fato era. Essa visão permitiu justamente ligar a tecnologia à tradição romântica e irracionalista, e o nacionalismo, com ideias de socialismo e revolução. Entretanto, em muitos textos, Spengler acaba por exibir um tipo lúgubre de estoicismo, onde na História a tragédia apresenta-se sempre como inexorável.

É justamente esse seu pessimismo trágico que acabou afastando-o de intelectuais como Ernest Jünger[22], e dos próprios nacional-socialistas, que “acreditavam na sobrevivência do homem faustiano no moderno mundo tecnológico.”[23]

Conclusão

Assim, admitamos que politicamente Oswald Spengler era um homem de direita, um conservador. Contudo, considero, que esta conclusão, muito tempo apontada por Lucien Febvre, e reforçada na obra de Herf, não invalida em absoluto o estudo acurado da Teoria da História contida em “A Decadência do Ocidente”. Fenômeno editorial, cultural e histórico-filosófico, esta obra deve ser estudada em seu aspecto histórico-teórico, e não apenas no político. Não é possível que um autor que foi um imenso fenômeno intelectual no começo do século passado, seja ainda praticamente um desconhecido entre historiadores brasileiros.

Como historiadores sabemos que a história não é feita somente de flores, e assim, não podemos permitir que preconceitos ideológicos nos afastem de teorias, obras ou documentos históricos que podem contribuir para o enriquecimento do conhecimento e do fazer historiográfico.



[1] SPENGLER, O. L´Déclin de L´Occident. Tomos I e II. Paris: Gallimand, 1976.

[2] FEBVRE, Lucien. Combats pour l’histoire IN: MOTA, Carlos Guilherme. Febvre. São Paulo: Editora Ática, 1978. p. 131.

[3] É possível também destacar que essa obra influenciou autores importantes, como o são por exemplo: Thomas Mann, Ernst Jünger, Emil Cioran, Martin Heidegger, Ludwig Wittgenstein, Arnold Joseph Toynbee, e Richard de Coudenhove-Kalergi.

[4] BURKE, Peter. A escola dos Annales. São Paulo, Ed. Unesp, 1991. p. 60

[5] FEBVRE . Op. Cit. P. 135.

[6] Op. Cit. P. 132

[7] SPENGLER, Oswald. Anos de Decisão. Porto Alegre, Edições Meridiano, 1941.

[8] IN: BRAUDEL, Fernand. História e Ciências Sociais. Lisboa, Editora Presença, 1990.

[9] Op. Cit. p. 100.

[10] Op. Cit. P. 99.

[11] LE GOFF, Jacques. História e Memória, Campinas: Editora da UNICAMP, 1990

[12] Herf, Jeffrey. O Modernismo Reacionário: Tecnologia, Cultura e Política na República de Weimar e no 3º Reich. São Paulo: Editora Ensaio/Editora da Unicamp

[13] Essa postura política marcou-o com o rótulo de filósofo e historiador filo-nazista, e de alguma forma transformou sua teoria da História em um tabu teórico - responsável por seu relativo banimento entre historiadores e filósofos.

[14] grifos meus.

[15] Idem, p. 63

[16] Idem, p. 68

[17] Idem.

[18] Koehn, Barbara, La Révolution conservatrice et les élites intellectuelles, Presses universitaires de Rennes, Rennes, s/d

[19] SPENGLER, O. Pressentun und Sozialismus. München, C. H. Beck.Muünchen, 1924.

[20] Herf, Jeffrey. O Modernismo Reacionário: Tecnologia, Cultura e Política na República de Weimar e no 3º Reich. São Paulo: Editora Ensaio/Editora da Unicamp, p. 69

[21] Idem, p. 71 - Herf afirma ainda falando sobre Spengler e o ambiente intelectual da época : “ A guerra e o nacionalismo ligavam as tradições românticas e irracionalistas da Alemanha a uma forma defeituosa e reacionária de modernismo, um apelo aos ditadores da política para porem fim ao domínio do liberalismo econômico sobre a vida social.” P. 72

[22] Ernst Jünger (1895 1998) , escritor, filósofo e entomologista alemão.

[23] idem, p. 83

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Zero Grau de Libra






Caio Fernando Abreu



Sobre todos aqueles que continuam tentando, Deus, derrama teu Sol mais luminoso.


O Sol entrou ontem em Libra. E porque tudo é ritual, porque fé, quando não se tem, se inventa, porque Libra é a regência máxima de Vênus, o afeto, porque Libra é o outro (quando se olha e se vê o outro, e de alguma forma tenta-se entrar em alguma espécie de harmonia com ele), e principalmente porque Deus, se é que existe, anda destraído demais, resolvi chamar a atenção dele para algumas coisas. Não que isso possa acordá-lo de seu imenso sono divino, enfastiado de humanos, mas para exercitar o ritual e a fé - e para pedir, mesmo em vão, porque pedir não só é bom, mas às vezes é o que se pode fazer quando tudo vai mal.
Nesse zero grau de Libra, queria pedir a isso que chamamos de Deus um olho bom sobre o planeta terra, e especialmente sobre a cidade de são Paulo. Um olho quente sobre aquele mendigo gelado que acabei de ver sob a marquise do cine Majestic; um olho generoso para a noiva radiosa mais acima. Eu queria o olho bom de Deus derramado sobre as loiras oxigenadas, falsíssimas, o olho cúmplice de Deus sobre as jóias douradas, as cores vibrantes. O olho piedoso de Deus para esses casais que, aos fins de semana, comem pizza com fanta e guaraná pelos restaurantes, e mal se olham enquanto falam coisas como: "você acha que eu devia ter dado o telefone da Catarina à Eliete? – e outro grunhe em resposta.
Deus, põe teu olho amoroso sobre todos que já tiveram um amor, e de alguma forma insana esperam a volta dele: que os telefones toquem, que as cartas finalmente cheguem. Derrama teu olho amável sobre as criancinhas demônias criadas em edifícios, brincando aos berros em playgrounds de cimento. Ilumina o cotidiano dos funcionários públicos ou daqueles que, como funcionários públicos, cruzam-se em corredores sem ao menos se verem – nesses lugares onde um outro ser humano vai-se tornando aos poucos tão humano quanto uma mesa.
Passeia teu olhar fatigado pela cidade suja, Deus, e pousa devagar tua mão na cabeça daquele que, na noite, liga para o CVV. Olha bem o rapaz que, absolutamente só, dez vezes repete Moon Over Bourbon Street, na voz de Sting, e chora. Coloca um spot bem brilhante no caminho das garotas performáticas que para pagar o aluguel tão duro como garçonetes pelos bares. Olha também pela multidão sob a marquise do Mappin, enquanto cai a chuva de granizo, pelo motorista de taxi que confessa não Ter mais esperança alguma. Cuida do pintor que queria pintar, mas gasta seu talento pelas redações, pelas agências publicitárias, e joga tua luz no caminho dos escritores que precisam vender barato seu texto- olha por todos aqueles que queria ser outra coisa qualquer a que não a que são, e viver outra vida se não a que vivem.
Não esquece do rapaz viajando ônibus com seus teclados para fazer show na Capital, deita teu perdão sobre os grupos de terapia e suas elaborações da vida, sobre as moças desempregadas em seus pequenos apartamentos na Bela Vista, sobre os homossexuais tontos de amor não dado, sobre as prostitutas seminuas, sobre os travestis da República do Líbano, sobre os porteiros de prédios comendo sua comida fria nas ruas dos Jardins. Sobre o descaramento, a sede e a humildade, sobre todos que de alguma forma não deram certo (porque, nesse esquema, é sujo dar certo), sobre todos que continuam tentando por razão nenhuma – sobre esse que sobrevivem a cada dia ao naufrágio de uma por uma das ilusões.
Sobre as antas poderosas, ávidas de matar o sonho alheio- Não. Derrama sobre elas teu olhar mais impiedoso, Deus, e afia tua espada. Que no zero grau de Libra, a balança pese exata na medida do aço frio da espada da justiça. Mas para nós, que nos esforçamos tanto e sangramos todo dia sem desistir, envia teu Sol mais luminosos, esse zero grau de Libra. Sorri, abençoa nossa amorosa miséria atarantada.

O Estado de S. Paulo, 24/09/86.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O casamento gay e a omissão dos candidatos

Elecciones en Brasil y derechos LGBT


POR BRUNO BIMBI


Embora a Argentina, vizinha ao lado, e Portugal, que faz parte da família, tenham aprovado neste ano o casamento igualitário, a discussão sobre os direitos civis dos homossexuais não foi seriamente considerada pelos candidatos à presidência do Brasil. Os três concorrentes que pontuam nas pesquisas fizeram todo o possível para fugir das perguntas sobre o assunto.

E não é que eles sejam tão conservadores ou acreditem mesmo na discriminação, que nem o Levi Fidelix — afinal, tanto Serra quanto Dilma pertencem, pela sua trajetória de vida e formação política, à turma dos que sentiriam vergonha de dizer aos amigos que têm preconceito de gay. E a Marina, embora evangélica, é uma mulher negra, de esquerda, que nasceu pobre e foi analfabeta até a adolescência, o que tornaria absurdo que ela defendesse qualquer tipo de discriminação. E, acima de tudo, ela é do Partido Verde!

Mas mesmo assim, os candidatos se omitiram. Quando perguntados sobre o casamento gay, responderam sobre a “união civil”. E se alguém replicasse, contestavam em uníssono: “O casamento diz respeito à religião”, embora todos eles saibam — e se não souberem, deveriam — o que a Constituição Brasileira estabelece: “O casamento é civil” (226 § 1). O casamento religioso pode ter efeito civil, mas não é a mesma coisa.

Portanto, quando se fala em direitos civis (que é o único que está em discussão, já que ninguém está reivindicando o direito a se casar na igreja) a única forma de garantir a igualdade aos casais do mesmo sexo é acabando com a exclusão no acesso ao casamento civil. A resposta ficaria mais óbvia se falássemos dos negros, que também sofrem o preconceito, como os gays. Algum político democrático defenderia que quando um negro se casa, seu casamento fosse chamado pela lei com outro nome, por exemplo, “união estável de negros”? Imaginem um candidato à Presidência da República explicando para a população negra deste país: “Gente, é a mesma coisa, vai ter herança e plano de saúde! Deixa a palavrinha pra lá!”?

O que Dilma, Serra e Marina precisam que alguém lhes explique é que não existe a ‘quase igualdade’: ou se é igual ou não se é. E nós, lésbicas e gays, queremos ser.

Em todos os países onde a discussão do casamento igualitário chegou ao parlamento, a direita e os extremistas religiosos defenderam a alternativa da “união civil” — que eles nunca tinham proposto quando o casamento não estava sendo discutido. Antigamente, eles defendiam a fogueira, depois passaram a aceitar que nós continuássemos vivos, mas nos chamavam de doentes e desviados e não aceitavam que a lei nos reconhecesse direito algum. Acontece que agora isso é politicamente incorreto. A última carta que eles têm, e dessa não abrem mão, é impedir a igualdade simbólica.

Eles não são tolos e entendem o valor dos símbolos. Se permitirem o casamento gay, o preconceito contra nós passará a ter data de vencimento neste século, porque as crianças se educarão sabendo a lei nos reconhece até o direito a nos casarmos. Seremos iguais perante a lei e não haverá nenhuma norma juridicamente aceita que legitime o tratamento preconceituoso contra nós na vida social.

O que me surpreende é que a proposta de estabelecer direitos diferentes, com diferente nome, para homo e heterossexuais — que na Europa e até mesmo na Argentina é patrimônio da direita — seja partilhada no Brasil até por alguns políticos que se dizem de esquerda:

— Qual é o problema de não chamar as uniões homossexuais de casamento? — perguntou o candidato verde Alfredo Sirkis aos militantes do seu partido, discursando em defesa de Marina Silva.

Talvez a resposta que o primeiro ministro português José Sócrates deu aos oposicionistas na Assembleia da República possa ajudá-lo: “Falemos claro: o que acontece é que essa proposta [a “união civil”] mantém a discriminação, e uma discriminação tanto mais ofensiva quanto, sendo quase inútil nos seus efeitos práticos, é absolutamente violenta na exclusão simbólica, porque atinge pessoas na sua dignidade, na sua identidade e na sua liberdade. Srs. Deputados, em matéria de dignidade, de identidade e de liberdade, pela minha parte, não aceito ficar a meio caminho”.

O caminho da “união civil” é o caminho da segregação, como os restaurantes para negros e os restaurantes para brancos. Mesmo se os restaurantes para negros fossem igualmente bonitos e tivessem um ótimo cozinheiro, alguém duvida de que seria uma ofensa? Não só uma ofensa aos negros, mas à democracia.

________________

O autor é argentino, jornalista, ativista da FALGBT e aluno do curso de mestrado em Letras na PUC-Rio. Foi um dos responsáveis da campanha pelo matrimônio igualitário na Argentina e é autor de um livro sobre a história da nova lei, que será publicado em dezembro pela editora Planeta. Atualmente, está finalizando sua dissertação de mestrado, que trata da controvérsia linguística a respeito da palavra ‘matrimônio’.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Domingo



Por Augusto Patrini

Estremeceu, o gato preto na escada, os olhos verdes no escuro, uma estrela e o vazio. E então.

Abriu os olhos, o peito confuso, a alma e a cabeça doloridas, o sonho aos poucos mergulhou esquecido no outro lado da consciência. Não quis se levantar, ficou deitado olhando, pálido, o teto, os pontos brancos, as sombras roxas e a poeira no rastro de luz impertinente pela cortina.

Fechou os olhos e nas sombras imaginou o mar, a brisa e o sol. Lento levantou-se tonto. Abriu a cortina e sorveu a brisa fresca da manhã cinza.

Detestou e amou a cidade: Maldita, tão medíocre, mas tão adorável! Amada e repelida. Sufocou.

Lá fora, na manhã de Domingo com ironia à noite mal dormida, ouvia-se uma música distante,... “but We’re thrash, you and me, We’re the litter on the breese, We’re the lovers on the street...” Os olhos verdes, não esquecia, um abraço amigo, um aperto de mão e o adeus triunfante sobre todas as coisas. E a ausência fria. Sufocou, a asfixia opressora das manhãs de Domingo. Solidão. Saiu.

Sobre a xícara de café, um primeiro cigarro turvo, no fundo do peito a saudade da amizade franca, a ânsia de se descobrirem amigos, os mesmos sonhos, o mesmo tempo perdido, e depois aquele – agente não pode lutar... E então.

Andando pela rua, as pedras brancas, assim meio que sem rumo lembrou o dia, ou não talvez a noite – um dia fora do tempo: no bar, Pessah, Hagadá, Moisés e os Hebreus, Ofir e Salomão – mitologia e mito. A discussão fosca, os ânimos exaltados, jovens, e de repente nos olhos verdes a simpatia, os cachos pretos, a amizade. Depois disso as conversas sem fim, os mesmos livros – Baudelaire, Lispector, Rimbault, Pessoa. Os mesmos filmes, as mesmas músicas, os cafés e os cigarros fumados juntos, a mesma poesia.

E meio que sem jeito forma se amando amigos urgentes e sôfregos por que o tempo não lhes pertencia. Sobre o fundo esfumaçado, nas mesas de todos os bares, alheios às festas, absortos a si mesmos.

Chove. Chove. Chove a garoa fina. Entrou na catedral, o altar altivo indigno em toda sua decadência de luz e ouro; pensou. Como viver o presente sem escravizar-se com os fatos do passado. Olhou todos os santos, nos cantos, em sombra, seus rostos complacentes mórbidos de cera. As velas e as preces, luz e desespero ou esperança nas sombras... A Fé como um chacal alimenta-se entre os túmulos...”A garoa lá fora a cidade imensa cinza, plácida, branca, poderosa... dentro, as sombras, as velas, e a branca face de uma virgem morta. Confusão e pânico. Fobia.

Na saudade, a prova do crime tornou-se evidente, difuso na mente, a luz e as trevas nas copas das árvores do Bom Fim em Porta Alegre, a sua infância caleidoscópio de luz terra e sangue. O ouro em sua frente, o altar, tanto sangue, tanta dor e ódio, na pobre miserável História humana. Tudo isso para quê? E por que este miserável deus? Carnívoro não poupa ninguém, nos rouba o tempo, a carne e todos os sonhos.

Tudo tão urgente. A vida lá fora, sob a garoa, passa rápida indiferente e entre dois vazios o presente. A multidão se choca e triste, cega, se ignora.

Mil países dentro de um país se basculam e se ignoram. Todos os Homens com sua vidas a serem vividas, sem escolha, abraçam e também repelem este estranho e maldito paradoxo urbano que lhes devora o coração e chama-se Solidão.

Estava cansado, chega de Solidão e dor. Sem querer lembrou: “Sobre a sombra de um Mundo errado,... murmuraste um protesto tímido”. Pessoa, tão genial. Sentiu vontade de gritar este mundo errado, acordar deste pesadelo fosco e tosco. Sufocou, sufocou e sufocou...

Saiu da igreja, tão humana e tão pouco sagrada. A cidade lá fora continuava cinza. Não se surpreendeu. Não havia mais chuva, só as poças e o ar fresco que aliviou seus pulmões deprimidos. Tomou dois comprimidos e pensou escrever uma carta. Depois desistiu, após o adeus, lembrou, foram muitas cartas que pareciam imunes ao tempo, mas logo o tempo tornou-se mais tempo e logo muito tempo e as cartas rarearam, mais e mais, até que se tornou dolorido manter aquela amizade distante. Como uma foto antiga, amarelou, perdeu a cor, se não fossem as malditas fotos, os rostos teriam se perdido no tempo.

Sentou-se em uma praça, deveria ter ficado em casa, esperando o telefone que não tocaria, a carta que não chegaria, a visita que não viria...

Não, não... Acendeu um cigarro, preciso parar, maldito vicio, pensou. Opressor Domingo, perfeita maldição dos solitários. Uma criança brincando com sua própria sombra entre as poças d’água o distraiu, talvez mais um anjo perdido. Como a sua beleza juvenil me atormenta, me faz sofrer, em sua volúpia ardente de viver a vida. Assim, sem teorizar as coisas apenas viver sem se perguntar, porque afinal, pensou, nunca encontraremos as resposta. A vida não tem razão de ser, talvez tudo seja apenas produto de um glorioso maldito acaso. E talvez a única razão de ser seja apenas isto: nada. O supremo nada, no fundo seria a única meta do homem, apenas no supremo advento da morte atingiria seu significado e razão de ser. A morte, este estranho enigma, talvez seria daí nossa força tola para continuar a existir. Ou talvez o nada seja melhor.

Lembrou-se de uma tarde de outono, o vento e os cabelos emaranhados, as folhas das árvores vermelhas, douradas – Quem os via, via apenas dois jovens amigos, os olhos brilhantes, os cafés e os cigarros, todo prazer, o céu aberto sobre suas cabeças e o futuro tão incerto. Naquela tarde eles tinham visto um filme, um filme francês e conversavam animadamente no Café Central – algo assim comum a seus gostos habituais. Foi então, neste dia, que tudo mudou, pois súbito era tudo tão profundo e aquele olhar olhos nos olhos e uma certo constrangimento. Tudo o céu, os homens, a vida, tudo lhes parecia tão estranho. Irônico. Não conseguiu lembrar-se exatamente como todo resto aconteceu; aquela ironia os aproximava e os separava. Parecia, não sabia ao certo que algo tina acontecido depois; uma noite, muitos copos de vinho, um abraço exultante e um beijo sôfrego e depois e depois... a noite, que tolos resolveram esquecer amigos. Depois foi a separação lenta, por que a lembrança daquela noite os perseguia por dentro, perigosamente linda e medonha – o sonho não iria se realizar. Não, não podiam,...havia tanto medo. E então. O adeus triunfantemente real, físico, e afinal: - Agente não pode lutar... E aquela frustração, sem se completar aquela noite louca, sem desvendar no universo a imensidão daquele amor.

Fechou os olhos, quis tudo esquecer e nada mais lembrar. Sentia-se emocionado e triste. Fechou os olhos, encostou a cabeça sobre o banco e aos poucos adormeceu profundamente magoado.

Estremeceu, o gato preto na escada, os olhos verdes no escuro sobre a estrela e o vazio, riu e falou como se respondesse uma questão:

- Eu sou tudo, eu sou o nada, sou a terra e o fogo, mas não sou ego. Sou a noite e o dia, a salvação e a perdição.

- Não, não e não, você é meu pesadelo, meu vicio minha dor,...

- Não pobre raça de criaturas malditas, você é sua própria dor seu pesadelo, e seu ego sua maldição. Eu sou simplesmente um ator, sou o que você, homem, baniu de seu coração, de ti sou apenas a arte, a música e quando amas, amo junto e teus lábios são também os meus. Sou o sonho humano irracional e selvagem.

E então o caos e a escuridão engoliram tudo.

Acordou assustado: Pânico! Pânico! Pânico!

Acalmou-se aos poucos, umas mocinhas olhavam indiscretas inquisitórias: Monstras, pensou. Prontas para comentar cruéis a vida alheia. De repente teve ódio delas, de si, e do mundo. Obstante a tanta beleza e gloria, o mundo era por demais injusto - Como podem, monstras, ignorar tanta miséria e trapos. Todos os dias passam pelo mesmo mendigo sujo sem nunca o olharem. Não me venham com seus olhares comportamento pré-estabelecido, não me venham com seu moralismo hipócrita.

Tentando se aclamar levantou-se tonto, pensou, é melhor ir para casa este domingo vai de mau à pior. Agora, quase milagrosamente, o sol saia preguiçoso no canto do céu, doce e puro. Reconfortante.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Beijaço na Paulista

Por: Foto: Maurício Moraes

Ativistas beijam por direitos iguais

Beijaço na Paulista

Por direitos iguais, ativistas LGBTs se beijaram em São Paulo (Foto: Maurício Moraes)

Em defesa do casamento igualitário, ativistas de movimentos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBTs) protestaram na esquina da avenida Paulista com a rua Augusta, zona sul de São Paulo (SP). Um beijaço foi a forma de pedir direitos iguais e que candidatos às eleições deste ano tomem posição sobre esse segmento da população.

Leia mais a respeito

Beijaço na Paulista (Foto: Maurício Moraes)
Beijaço na Paulista (Foto: Maurício Moraes)

Beijaço na Paulista (Foto: Maurício Moraes)
Beijaço na Paulista (Foto: Maurício Moraes)

Outras fotos da: Ana Pintangos:
http://www.flickr.com/photos/casamentoigualitario/
E do @Mike_Wino: http://www.flickr.com/photos/maik_wino/
Mais informações sobre o Manifesto: http://casamentoigualitario.wordpress.com/

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Artéria viva


Augusto Patrini


“Eu, que tenho uma juventude cheia de vozes,

de relâmpagos e artérias vivas,

que deitado nos meus músculos, atento a como corre

e chora o meu sangue,

a como se amontoam as minhas angústias

como mares amargos

ou como espessas pedras de desvelo,

ouço que se juntam todos os gritos

qual um bosque de estreitos corações apertados;

ouço o que dizemos ainda hoje,

tudo aquilo que ainda diremos,

na ponta dos pés, sobre os nossos graves latidos,

pela boca das árvores, pela boca da terra.

José Revueltas. Canto Irrevocable

Encolheu-se no canto, enrugado e triste, como a quem estremece os galhos de uma roseira seca. Jovem, tinha os olhos intumescidos e cheios d’água, os cabelos fora de prumo – revolta esvoaçada entre lágrimas. Cansado, tenso triste e cheio de aflição. A terra vermelha-roxa em seu nostálgico pesar – era parte da mãe que abandonara- sufocava-lhe o peito.

Por que, um dia, ao se levantar viu os homens entre tripas e fogo, mas hoje lá fora aquelas ruas rápidas esfumaçadas, vingando a terra e estilhaçando os abomináveis gritos dos trapos, fustigavam sua vida. Lembrou: “Não são sussurros, são gritos”. Tenso. Pensa e cai. Grita. Não se meche.

Está novamente, perto do sono, calmo, quimicamente calmo e feliz, pois o sangue cai pelas feridas dos quaisquer bares e quando se faz de álcool e praças não há por que ter medo da vida. “Por que o medo se o futuro é a morte?” Tatuado no braço. Mais um programa, mais vida dentro das veias, além da dor e dos gritos, para amanhã mais um dia de triste recordações e depois e depois aquelas noites sujas de tesos sexos tristes. Gostava daquilo, dos sexos desejosos e das lágrimas brancas. Dos homens entristecidos e da devoção que em sua perdição medrosa lhe ofereciam. Sua percepção distorcida sendo devastada por aquela coisa de sua vida devaneada em um momento de seco estalo. Mas sabia, ao contrário daqueles homens, que podia realmente enfrentar a vida. Sem medo. Cansado, sim, mais dois programas e nada mais. Aprumou-se e resolveu. Lá fora ouvia Elis cantarolar uma música que era a vida tocando com pena aos homens sem lar. Tinha que levantar.

Mas noutro dia era a mesma coisa, precisava comer e viver, além da putrefação das coisas queria crescer e ser mais, e por isso entregava-se ao que tinha, ganhar-levar-descobrir e se ia sempre vazio aos beijos úmidos delirantes do pavor da inexistência embriagante da lógica da vida daqueles homens que queriam um pouco da verdade-coragem que era sua. Queriam sempre lhe roubar que não sabia bem o que, era a vida, a juventude ou apenas o perigo daquilo nos rios de fumo e nas poças barrentas da vida.

Esticou as costas largas espreguiçando os músculos, pôs os olhos para fora da noite começando e mais dois programa por que depois nada mais, recomeçava – o já-mais-de-meio-dia despertar cheio de nostalgias e a luz solar impertinente, entre sombras rochas, penetrando seu pequeno quarto infinito e branco. Ou até podia chover, pois daí era pior, se afogava no cinza das nuvens, gordas e fodidas como aquela puta que conhecera na rua da esquina e levara-o bêbado como uma mãe para deitar-se em sua cama. Na sua cama de mãe, velha de fodida. Pois assim que no outro dia, tinha de estar cansado, penetrado, relaxado e livre, com vida nas veias e o dinheiro no bolso, pois a vida é como uma ferida, gangrena quem não se vira.

Agora o que precisava era de cigarro nas mãos, ou as mãos nos bolsos, calça jeans e camisa banca – era tudo que tinha – além de seu corpo forte e juvenil. Isso era, não queria mais carregar no lombo a riqueza dos velhos podres entristecidos, preferia beijar-lhe a carne velha e mostrar-lhes sádico que de seu viço na verdade nada teriam. Havia de assim dizer que a vida era mais, além da suas pelancas velhas e cinzas, era a coragem de foder com a morte lancinante e com o cotidiano simples e selvagem das ruas de lama. As vezes contava-lhes como era bom foder com a puta gorda e velha, assim mesmo de graça, pois achava bom como foder com a mãe ou com a avó. Não tinha pena, são covardes e velhos por que querem, pensava – por que se a coragem tivessem estavam hoje eternos e grandes – como só o dinheiro pode fazer. Mas isso lembrava-lhes sempre. Eram pequenos, fodidos nanicos insignificantes em suas vidinhas tediosas e burras. Bom, na verdade já não lembrava-lhes tanto assim, pois preferia dar-lhes o conforto úmido, pois alguém havia de lhes dar algo na vida maldita, a ele lhe dava o conforto a puta velha e gorda da rua da esquina sempre quando chegava bêbado de seus dezenove anos feitos de terra roxa e mel de laranjeiras, e aos velhos fodidos e tristes em seus carrões de luxo era ele que confortava bulindo em suas extremidades e feridas e lembrando-lhes quão tolas e inúteis tinham sido suas vidas. Mas apesar disto, gostava, quanto mais perto da cova mais lhe pagava o cliente, pois assim, achava graça, a vida fazia-se corajosamente de sexo e de morte. Levantou-se. Riu e saiu.