quinta-feira, 13 de maio de 2010

Você sabe por que as pessoas morrem?



Ao som de Strange Fruit - Billie Holiday

Augusto Patrini


Pergunto-me as razões para que mesmo estamos destinados ao nada e a morte, negamos admiti-lo. E, pois que de rebente, olhando para este mundo-rato, cheio de muros e solidão a resposta pareceu-me simples.

As pessoas e os seres desistem de viver. É quando, lentamente, o desencanto e a desilusão penetram-lhe no fundo de sua existência, que tudo começa – pois que essa dor de existir em um mundo sem amor e plenitude, penetra o fundo de cada ser, e o desapontamento, o desengano atingem cada célula, cada tecido, cada parte de seu corpo – fazendo que pouco a pouco a vida torne-se impossível. Envelhecer, talvez, seja amargurar nossas células, perder seus sonhos, aceitar a dor e essa in-comunicação inexorável de todos nós. Sentimo-nos desconectados do que existe, dos outros homens e animais, e nossos atos de vida desandam assim em destruição. É por isso que não há como não morrer, por que continuar a viver não tem nexo algum. Então é assim, somos crianças caminhando com afeto pelo mundo, criaturas sós, que pouco a pouco, somos esmagados e embrutecidos.

“Só por que contive meus crimes, me acho de amor inocente.”

Esta terra é violenta, triste, e melancólica, sem qualquer deus e redenção. Não há transcendência, baby. É por isso, que nós morremos, por que nossa vingança contra o mundo-rato é inexorável, e profunda, e nos enche de dor e ódio. Mesmo que contenhamos nossos crimes continuamos a viver a truculência do mundo, da luta, e deparamo-nos sempre com lixo, sangue e pequenos cacos de vidro – por todo lado – e isso diz lá no fundo de nós que não há redenção – e que apesar das belas rosas encarnadas – tudo é destruição, decadência e decomposição.

Nenhuma tristeza nisso, já que tudo é imanência. Talvez aceitar a morte, seja justamente exaltar a vida, compreender que a regeneração e a vitalidade está nessa falta de sentido, nesse caos transformador, nessa destruição que nos ressuscita.

É por isso que é preciso amar a vida mais que seu sentido. É por isso que somente a própria vida, pode nos redimir do mundo. Sem isso morremos em vida, e cada instantes somados, acumulados, tornam-se um fardo e um dia pesam em demasia. Assim, é, que tudo em silêncio para, e então é a morte mesma, viva e poderosa nos invade – e por fim, talvez, nos redime de toda dor, toda tristeza e melancolia, libertando-nos de nós mesmo e desse mundo-rato sem clemência e nem amor.


Um comentário:

polivocidade disse...

Amar é criar um sentido para si e para o mundo. É transbordar e perder a si para se encontrar no outro. Amar é político.

Abraço!