sexta-feira, 9 de setembro de 2011

rosa roxa


Augusto Patrini

Convaincu du néant de tout, il reste délicieux de s'attendrir sur la fragilité des roses

(Maurice Renan)

Ao som de Wild Is The Wind – David Bowie ou Nina Simone

I: João

Ele entrou. Enterneceu-me com coragem, uma rosa roxa nas mãos. Seus olhos lacrimejando lívidos, alívio desanvergonhado. Encontrando-se os dois, pelos cantos dos olhos, belas beiras e fissuras, pelas ruas, quartos, cafés, bares baratos e esquinas. Dias escuros e dias claros, entardeceres e visões instantâneas de um paraíso há tanto tempo ansiado. Divagações a dois. Instantes, afagos e beijos trêmulos. Medo. Medo da possibilidade. Tremores. Eram dois, e eram muitos. Múltiplos e únicos dentro da multidão surda. Enfurecida. Esse vir-à-ser tsunami. E eles “devires” tontos.

João não sabia outra vez onde estava. Acordou e viu pela fenda de luz azul-lilás a poeira flutuar no ar abafado do quarto. Em um móvel, velho, aquela estúpida rosa. Era uma rosa roxa, que lhe calou a boca e deixou-o sem palavras, pois que outro a tirava do peito, das entranhas, das carnes, e da experiência. Uma rosa nascia-lhe, súbito, no seu asfalto. Preenchida de espinhos e visgos iluminados. Sangue. “Somos feitos de sangue”. Descobriu junto que era sangue, feito de sangue e de gosmas. E dois, emparedaram-se naquela noite, juntos na fenda, na dor, carne de um, e na compreensão silenciosa do outro. Era dois, eram um choque, um eco, uma voragem, e muitos – todos aqueles que foram, e talvez ainda fossem.

- Suspiros. João esticava-se preguiçoso, encolhendo, tímido, os brios de sua juventude rija e, esperando. Essa solidão lhe era estrangeira, e atordoada. O outro lhe pendia, fendia, interiormente, pelo peito. Como um nó, como um sopro. Ele, em sua solidão de menino, tinha medo. Não sabia quem era, nem o que queria, nem onde estava. Nunca o soubera. Porém fingia, furiosamente fingia, fingia ter ânimo, vigor, força - fingia ser capaz de se confiar e oferecer. Mas. Seu fingimento era apenas uma promessa.

E dessa afeição, nascida inesperadamente, abruptamente, de mística diferença: espaço e deslocamento. O outro com 14 anos a mais. Às vezes lhe parecia um gigante, esmagando-lhe a alma e as carnes. Mas também tinha seus medos. Com suas altercões mudas, seus suspiros de adolesceste velho, e o efeito da voz de João,... João fazia-lhe um efeito, sua voz dúbia, insegura, cheia de estonteamento – viril e infantil. Jovem e fresca. Sem esperanças de normas, caixas e contratos. Era tudo apenas hoje, depois e amanhã, e talvez um pouco mais, por que o outro lhe dizia doce, e algo desesperado, “Não solte minha mão”. Suando juntos, de mãos com mãos, ele, tão cheio de anos, experiência, e vida, sentia-se frágil e medroso. E isso lhe dava muito medo.

Esse era o outro. João lembrou-se um dia, subindo uma escada, que “com algum afeto e amor até um cão faz poesia”. Não se lembrava de onde tirava a frase, mas repetia, pelo metrô, nas ruas e nas esquinas. E, sobretudo nos bares baratos de São Paulo.

João não entendia bem, e nem sabia o que o outro significava. Vivia apenas. O outro dava-lhe certo pavor, dava-lhe paz, dava-lhe algo que não tinha nome. O outro, o segundo Pedro, obrigava-lhe a engolir alguma coisa. Isso lhe doía. Assustava. Era uma fragilidade adulta, de homem feito, do outro, apavorava-se, pois que às vezes pareciam-se espelhos. Era um destes apavorados, destes que andam nas ruas e nos becos com os olhos no céu, e as mãos cheias de flores. “Um lunático?” – perguntava-se. Receio, que se desdobrava nos dois e que se completava, aversão a possível inerente perda (?). E então viria aquela coisa, sombras inomináveis, ocos sem fundo, e a dor sem nome. Isso de se estar vivo. Covardia fresca, ou preguiça? E se dizia, “preciso ser forte”, o prontamente o outro, esse Pedro, o segundo, perguntava o que isso enfim queria dizer,...

Encontraram-se na rua, no meio da multidão, e um olhou para o rosto do outro, reconhecendo e estranhando uma possibilidade de existência, de ânimo, e amor fati, Pois que viver, dizia um, “é respirar um dia após o outro”, sem se perguntar se isso ou aquilo é possível, certo, bom ou ruim, apenas, assim, sem esperança, sendo, e caminhando. Dizendo sim!

Deitado ainda, moreno. Cheio de - suspiros - Doce e ácido:

- E eu, percebendo, que de mim você guardava mais do que uma flor; escandalizava-te com minha alucinada e cruel juventude, saindo-me pelos poros, pelos olhos, e furando-lhe teus olhos. Teus gestos me tornavam aberto, úmido e doce – e imensamente fingidor e cruel. Sua boca espreitava-me o cadafalso da carne... Nunca encontrar uma réstia da música ideal, a situação ideal ou sonhada, e ainda desistir, conformar-se e entregar-se ao torpor do que é sintético e pronto. Seremos daqueles homens loucos que com nitidez tudo vêm? Toda terrível lucidez. O trágico de nossas vidas, e a fúria bela desse nosso querer desamparado. Aquela lucidez dos desamparados. Dos loucos e das bruxas.

João levanta-se. Senta na cama. Observa a luz roxa entrar pela cortina azul da janela. Acende um cigarro, traga-o profundamente. Mente para si, finge que sente falta do outro. Ele era muitas máscaras, e talvez, nunca saberia onde eu, só-eu, aquele verdadeiro, estava. Alucinava máscaras, e perdia-se em si, dentro de si. E já nem sabia quem era e onde estava.

Levantou-se, tomou um café e foi para a faculdade.

II: Pedro

"E de repente a vida te vira ao avesso. E você descobre que o avesso é o seu lado certo". (C. F. Abreu)

(Essa é a história de um homem feito?)

Pedro, homem feito. Aos 17 anos começou a namorar a menina com quem um dia casaria (secretamente, ele sabia que ela era cínica)... Modelo padrão, dois filhos, formado no Largo de São Francisco, família tradicional, uma carreira consolidada. Trinta e sete anos de vida responsável. 12 anos de casamento monogâmico e estável. Dois filhos, uma conta bancária gorda, várias aplicações, e muito trabalho. E então? Um dia... Descobrira-se cadáver. Morto por dentro. Não sabia mais onde estava, e quem era. Existir para quê, e para quem.

- E eu achava que era homem. Que me encontrava feito. Tão seguro, infinito, culto, ativo e produtivo. E eu achava que era grande. E eu nem sabia que me enganava. Pois que eu estava sendo apenas um camelo, que carrega culpas, tarefas e o mundo. Eu achava que sabia das coisas, dos aparelhos e das ideias do mundo. Eu era apenas um bruto, um bobo, uma criança de braços grandes. Longos e brancos. Triste e lamacento. Eu era esse eco do mundo que se comportava segunda as normas, tão regular, previsível, e estático. Eu não era umvida”, e então, pronto. Deparei-me comum grande rato ruivo, feio e sujo, com as patas esmagadas”. E esse menino-rato, com sua juventude cheia de vozes, me arrastou para fora dessa vida mortificada...

- Pergunto-me, espantado doutor, como foi, diabos, que subitamente comecei a tanto amar a vida?

Pedro levanta-se do divã, pensando que talvez o médico anotava: “crise da meia idade, homossexualidade latente,, neurose,...” entre outros termos cruéis e psicanalíticos. Saindo estonteado, depois de pagar a sessão e dizer boa tarde a secretária, Pedro caiu ofuscado na Avenida Angélica. Perguntava-se até: “perdera a razão?” Justo ele, tão ponderado, sério, racional e técnico.

Definitivamente, Pedro andava em direção a avenida Paulista, pensando que essa felicidade o assustava. E que toda sua vida parecia-lhe agora uma enorme mentira. Seu rosto, aquele encaixado sobre a gravata, uma máscara tosca. - O que fazer? Largar tudo? Esposa, filhos, segurança? Apavorava-se se acovardando. E pensando, “mudo o número de meu celular, mas e se ele procurar minha filha, se contar para alguém o que fizemos? E se alguém ficar sabendo? “ Porém pensar em nunca mais ver João parecia-lhe tão insuportavelmente necessário, mas por dentro, era como se encolhesse a morte e um suicídio-em-vida. Pensou pois então em matar-se realmente. Pois que amar, e viver parecia-lhe muito trabalhoso e arriscado, e que já não podia como antes voltar para aquela vida cinza e morna. Por instantes, odiou profundamente sua mulher, seu cinismo e suas compras; odiou também seus filhos, e lá no fundo onde não ousava ter consciência, pensou em matá-los.

O problema não eram eles. Simplesmente cansou-se desse “um dia depois do outro” Já não sabia onde estava, e nem quem era. Resolveu tudo abandonar. Os filhos, a mulher, a casa, o trabalho, e ser outro. Outra probabilidade ou talvez, ainda, outra máscara.

III.

Apenas uma carona.

- Olha pai, esse é o João, ele faz jornalismo, e também estuda alemão. Ele também gosta de fotografias antigas.

Foi isso. Apenas isso, um encontro nascido de reminiscências duplas do passado.

Lembrou-se: dezenove anos, uma luz dourada entrando pela clarabóia da galeria Lust. Suas mãos empoeiradas entre fotografias antigas, cartas abandonadas e livros antigos. Muitos rostos, várias vozes – memórias abandonadas, postas a venda. Um dia na galeria encontrou o professor, seu vizinho, Chamava-se Mateus. Solteiro (estranho) 41 anos, parecia, também inexplicavelmente ter a mesma paixão que a sua: Fotografias antigas. Foram alguns cafés, algumas conversas soltas, e aos poucos se tornando diferentemente amigos. Contava ao professor como adorava cada vez mais tocar piado, sua solidão, e seus ecos juvenis... e o outro apenas sorria, meio tímido e medroso. O outro, professor de história, um dia convidara-lhe para conhecer sua coleção. Foram alguns copos de vinho.

E subitamente, descobrira o que era aquilo que lhe faltava. Aquela mancha cinza e sem forma tinha um nome. Podia ser preenchida, entendida. O amor enlouquece, pensava. O outro, mirando-lhe, em sua beleza branca e rija pensava: “A beleza enlouquece”.

E então, rompendo com tudo, vestiu furiosamente aquela mesma máscara, essa que até hoje carregava. Mentindo, furiosamente mentindo, tornando-se um patético cadáver ganhador de dinheiro, uma caricatura da felicidade negada, uma desenho primitivo, apenas uma ave de rapina, infeliz e triste. Esquecera tudo, o professor, os copos de vinho, a luz dourada da galeria Lutz, aquela poeira antiga...

IV

E então. Era aquela roxa rosa. E aquela luz azul entrando pela janela.

V.

Entardecer em São Paulo. A luz azulada-roxa entrando pela janela-cortina-entre-aberta. Liberando na memória uma remota luz dourada. Fotografias antigas e poeira flutuando como aquela envelhecida e ausente poeira de outro apego. Os dois, cansados e ofegantes, deitados em uma cama de solteiro. E aquela forma sem nome formando-lhe de novo no peito. Rosas saindo-lhe pela boca, pétalas escorrendo-lhe pelos ombros, pelo corpo, e aquele perfume estranho saindo-lhe pela boca, e pelos poros. Pedro sentiu-se então outro, cheio de coragem e força – não para arrancar, humilhar e planejar. Mas apenas para se deixar estar. Uma entrega, um deixar ser. Arrebatamento.

João, moreno, ávido e tanto negligente, esticou-se inteiro abraçando grave o corpo branco do outro, sentindo-lhe os pelos e as dobras – as curvas e as pequenas rugas. Beijou-lhe o rosto e cantarolou despreocupado e fingidor: “Like the leaf clings to the tree, oh my darling cling to me. For we're like creatures of the wind. Wild is the wind, wild is the wind”. Pedro sorriu-lhe medroso, como se ainda fosse aquele moço antigo de muitos anos... “O que seria então, agora isso...” Infinitamente, entregou-se. E viveu.

1 commentaires:

B Puccinelli disse...

De certo rodopiar das palavras a uma estonteante mistura de sensações, o texto obscuro perde força no capítulo II. Ainda assim permanece latente. Manteria umas partes, tiraria outras e tornaria o texto mais vigoroso e fulgaz.