terça-feira, 16 de março de 2010

Georges Hippolyte Darien


Tradução: Augusto Patrini

“Eu como, eu bebo; e eu deixo o prato e a garrafa sobre a mesa. Existem ladrões que recolocam tudo em ordem, nas casas que ele visitam. Eu, ao contrário, não. Eu faço uma bagunça, é verdade, mas eu tenho uma boa desculpa, o faço meu trabalho de forma verdadeiramente suja.” “O Ladrão” (Voleurs!, Georges Darien, Omnibus, 2005) [sem tradução no Brasil][1]

Eu não gosto dos pobres. Suas existências, que eles aceitam, que eles gostam, me desagradam; a resignação deles me dá nojo. A tal ponto, que isso, eu creio, a antipatia, a repugnância, que eles me inspiram, é o que me torna revolucionário. Eu gostaria de ver a abolição do sofrimento humano para não ser obrigado a contemplar este espetáculo abjeto. Eu faria tudo para isso. Eu não sei se para isso poderia ir até o ponto de sacrificar minha existência, mas eu sacrificaria sem hesitação aquela de um grande homem entre meus contemporâneos. Eles que não se repitam. A ferocidade é muito mais rara que a submissão.” “A Bela França” [sem tradução no Brasil][2]
Georges Hippolyte Darien

[1] « Je mange, je bois ; et je laisse l'assiette sur le buffet et la bouteille sur la table. Il y a des voleurs qui remettent tout en ordre, dans les maisons qu'ils visitent. Moi, jamais. Je fais un sale métier, c'est vrai ; mais j'ai une excuse : je le fais salement. » Le Voleur

[2] « Je n'aime pas les pauvres. Leur existence, qu'ils acceptent, qu'ils chérissent, me déplaît ; leur résignation me dégoûte. A tel point que c'est, je crois, l'antipathie, la répugnance qu'ils m'inspirent, qui m'a fait devenir révolutionnaire. Je voudrais voir l'abolition de la souffrance humaine afin de n'être plus obligé de contempler le repoussant spectacle qu'elle présente.Je ferais beaucoup pour cela. Je ne sais pas si j'irais jusqu'à sacrifier ma peau ; mais je sacrifierais sans hésitation celles d'un grand nombre de mes contemporains. Qu'on ne se récrie pas. La férocité est beaucoup plus rare que le dévouement. » 1901: La Belle France, pamphlet, Stock, reedição: 1965. La Belle France, pamphlet, avec une préface de Jean-François Revel, Pauvert. Texte amputé de passages jugés "dépassés".

segunda-feira, 15 de março de 2010

Spengler


« J'ai jusqu'à présent passé la Russie sous silence ; c'était intentionnel, car il ne s'agit pas là de deux peuples, mais de deux mondes. Les Russes ne sont certainement pas un peuple, comme peuvent l'être les Allemands et les Anglais, ils représentent le potentiel de plusieurs peuples à venir, tout comme l'étaient les Germains de la période carolingienne. La Russie est la promesse d'une culture du Futur, alors que l'ombre du crépuscule assombrit peu à peu l'Occident. On ne saurait trop insister sur le fossé qui sépare l'esprit russe de l'esprit occidental. Aussi marqués que soient les antagonismes spirituels, religieux, politiques ou économiques entre Anglais, Allemands, Américains et Français, tous ces peuples n'en forment pas moins un monde clos face à la Russie. »

Oswald Spengler


domingo, 14 de março de 2010

Civilization on Trial


The extinction of race consciousness as between Muslims is one of the outstanding achievements of Islam and in the contemporary world there is, as it happens, a crying need for the propagation of this Islamic virtue.
  • Civilization on Trial, Arnold Joseph Toynbee, éd. Oxford University Press, 1948, p. 205

sexta-feira, 12 de março de 2010

Antigo/moderno

A oposição antigo/moderno, que emerge periodicamente as controvérsias dos intelectuais europeus desde a Idade Média, não pode ser reduzida à oposição progresso/reação, pois se situa fundamentalmente em nível cultural. Os "antigos" são os defensores das tradições, enquanto os "modernos" se pronunciam pela inovação. No caso especial da história, a oposição antigo/moderno introduz uma periodização, que é vista também no quatro do contraste entre concepções cíclicas e concepções lineares do tempo (…). (LE GOFF, 2003, p.173)

Nas sociedade, a distinção do presente e do passado (e do futuro) implica essa escalada na memória e essa libertação do presente que pressupõem [sic] a educação e, para, além disso, a instituição de uma memória coletiva, a par da memória individual. (LE GOFF, 2003m p.210)

(…) o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. (LE GOFF, 2003, p.525)

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.

A História por Pierre Nora


"A história é reconstrução sempre problemática e incompleta do que não existe mais. A memória um fenômeno sempre atual, um elo vivido no eterno presente; a história, uma representação do passado."

- NORA, Pierre. Entre memória e Historia. A problemática dos lugares.
- In: Projeto História 10. PUCSP, São Paulo, 1993. pp. 9

quinta-feira, 11 de março de 2010

Memórias do Subsolo - Dostoiévski


"Todo homem tem algumas lembranças que ele não conta a todo mundo, mas apenas a seus amigos. Ele tem outras lembranças que ele não revelaria nem mesmo para seus amigos, mas apenas para ele mesmo, e faz isso em segredo. Mas ainda há outras lembrancas em que o homem tem medo de contar até a ele mesmo, e todo homem decente tem um considerável número dessas coisas guardadas bem no fundo. Alguém até poderia dizer que, quanto mais decente é o homem, maior o número dessas coisas em sua mente."

"Oh, se eu não fizesse nada unicamente por preguiça! Meu Deus, como eu me respeitaria então! Respeitar-me-ia justamente porque teria a capacidade de possuir em mim ao menos a preguiça; haveria, pelo menos, uma propriedade como que positiva, e da qual eu estaria certo. Pergunta: quem é? Resposta: um preguiçoso. Seria muito agradável ouvir isto a meu respeito. Significaria que fui definido positivamente; haveria o que dizer de mim. "Preguiçoso!" realmente é um título e uma nomeação, é uma carreira. Não brinqueis, é assim mesmo. Seria então, de direito, membro do primeiro dos clubes, e ocupar-me-ia apenas em me respeitar incessantemente."

"O fim dos fins, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a inércia consciente! Pois bem, viva o subsolo! Embora eu tenha dito realmente que invejo o homem normal até a derradeira gota da minha bílis, não quero ser ele, nas condições em que o vejo (embora não cesse de invejá-lo. Não, não, em todo caso, o subsolo é mais vantajoso!) Ali, pelo menos, se pode… mas estou mentindo agora também. Minto porque eu mesmo sei, como dois e dois, que o melhor não é o subsolo, mas algo diverso, absolutamente diverso, pelo qual anseio, mas que de modo nenhum hei de encontrar! Ao diabo o subsolo!"

Memorias Do Subsolo

Autor: DOSTOIEVSKI, FIODOR
Tradutor: SCHNAIDERMAN, BORIS
Editora: EDITORA 34

quarta-feira, 10 de março de 2010

Blues da Piedade

Blues da Piedade

Composição: Roberto Frejat/Cazuza

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

terça-feira, 9 de março de 2010

As coisas



Jorge Luis Borges


A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro.
Um livro e em suas páginas a seca
Violeta, monumento de uma tarde
Sem dúvida inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas, taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão para além de nosso esquecimento;
Nunca saberão que nos fomos num momento.

O texto acima foi extraído do livro "Elogio da Sombra", Editora Globo/MEC - Porto Alegre, 1971, pág. 24 (tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques; revisão da tradução: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz).

segunda-feira, 8 de março de 2010

Alcoólicas


Alcoólicas (trechos)

Hilda Hilst


I

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

II


Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.


III


Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida


IX


Se um dia te afastares de mim, Vida — o que não creio
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida —
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha
Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as)
Recorda-me, Vida: passeia meu casaco, deita-te
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado
vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso:
compreenderá
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via
manifesta.
Pervaga. Deita-te comigo. Apreende a experiência lésbica:
O êxtase de te deitares contigo. Beba.
Estilhaça a tua própria medida.


Os versos acima foram extraídos dova — Rio de Janeiro, 2001, pág. 293, uma seleção de Ítalo Morico livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", editora Objetini, publicados originalmente em "Do desejo".

Caio Fernando Abreu

Aquele um vai entrar um dia talvez por essa mesma porta, sem avisar. Diferente dessa gente toda vestida de preto, com cabelo arrepiadinho. Se quiser eu piro, e imagino ele de capa de gabardine, chapéu molhado, barba de dois dias, cigarro no canto da boca, bem noir. Mas isso é filme, ele não. Ele é de um jeito que ainda não sei, porque nem vi. Vai olhar direto para mim. Ele vai sentar na minha mesa, me olhar no olho, pegar na minha mão, encostar seu joelho quente na minha coxa fria e dizer: vem comigo. é por ele que eu venho aqui, boy, quase toda noite. Não por você, por outros como você. Pra ele, me guardo. Ria de mim, mas estou aqui parada, bêbada, pateta e ridícula, só porque no meio desse lixo todo procuro o verdadeiro amor."

Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 5 de março de 2010

Preciso

Preciso de alguém, e é tão urgente o que digo. Perdoem excessivas, obscenas carências, pieguices, subjetivismos, mas preciso tanto e tanto. Perdoem a bandeira desfraldada, mas é assim que as coisas são-estão dentro-fora de mim: secas. Tão só nesta hora tardia - eu, patético detrito pós-moderno com resquícios de Werther e farrapos de versos de Jim Morrison, Abaporu heavy-metal -, só sei falar dessas ausências que ressecam as palmas das mãos de carícias não dadas. Preciso de alguém que tenha ouvidos para ouvir, porque são tantas histórias a contar. Que tenha boca para, porque são tantas histórias para ouvir, meu amor. E um grande silêncio desnecessário de palavras. Para ficar ao lado, cúmplice, dividindo o astral, o ritmo, a over, a libido, a percepção da terra, do ar, do fogo, da água, nesta saudável vontade insana de viver. Preciso de alguém que eu possa estender a mão devagar sobre a mesa para tocar a mão quente do outro lado e sentir uma resposta como - eu estou aqui, eu te toco também. Sou o bicho humano que habita a concha ao lado da concha que você habita, e da qual te salvo, meu amor, apenas porque te estendo a minha mão. No meio da fome, do comício, da crise, no meio do vírus, da noite e do deserto - preciso de alguém para dividir comigo esta sede. Para olhar seus olhos que não adivinho castanhos nem verdes nem azuis e dizer assim: que longa e áspera sede, meu amor. Que vontade, que vontade enorme de dizer outra vez meu amor, depois de tanto tempo e tanto medo. Que vontade escapista e burra de encontrar noutro olhar que não o meu próprio - tão cansado, tão causado - qualquer coisa vasta e abstrata quanto, digamos assim, um Caminho. Esse, simples mas proibido agora: o de tocar no outro. Querer um futuro só porque você estará lá, meu amor. O caminho de encontrar num outro humano o mais humilde de nós. Então direi da boca luminosa de ilusão: te amo tanto. E te beijarei fundo molhado, em puro engano de instantes enganosos transitórios - que importa? (Mas finjo de adulto, digo coisas falsamente sábias, faço caras sérias, responsáveis. Engano, mistifico. Disfarço esta sede de ti, meu amor que nunca veio - viria? virá? - e minto não, já não preciso.) Preciso sim, preciso tanto. Alguém que aceite tanto meus sonos demorados quanto minhas insônias insuportáveis. Tanto meu ciclo ascético Francisco de Assis quanto meu ciclo etílico bukovskiano. Que me desperte com um beijo, abra a janela para o sol ou a penumbra. Tanto faz, e sem dizer nada me diga o tempo inteiro alguma coisa como eu sou o outro ser conjunto ao teu, mas não sou tu, e quero adoçar tua vida. Preciso do teu beijo de mel na minha boca de areia seca, preciso da tua mão de seda no couro da minha mão crispada de solidão. Preciso dessa emoção que os antigos chamavam de amor, quando sexo não era morte e as pessoas não tinham medo disso que fazia a gente dissolver o próprio ego no ego do outro e misturar coxas e espíritos no fundo do outro-você, outro-espelho, outro-igual-sedento-de-não-solidão, bicho-carente, tigre e lótus. Preciso de você que eu tanto amo e nunca encontrei. Para continuar vivendo, preciso da parte de mim que não está em mim, mas guardada em você que eu não conheço. Tenho urgência de ti, meu amor. Para me salvar da lama movediça de mim mesmo. Para me tocar, para me tocar e no toque me salvar. Preciso ter certeza que inventar nosso encontro sempre foi pura intuição, não mera loucura. Ah, imenso amor desconhecido. Para não morrer de sede, preciso de você agora, antes destas palavras todas cairem no abismo dos jornais não lidos ou jogados sem piedade no lixo. Do sonho, do engano, da possível treva e também da luz, do jogo, do embuste: preciso de você para dizer eu te amo outra e outra vez. Como se fosse possível, como se fosse verdade, como se fosse ontem e amanhã.

Caio Fernando Abreu


quinta-feira, 4 de março de 2010

"La única respuesta posible a la globalización económica es el surgimiento de un espacio político igualmente global"



Bauman, último cartucho contra el libre mercado

El sociólogo aboga por la creación de un organismo global para contrarrestar el poder de las finanzas en su nuevo libro Mundo consumo. Asegura que ni los estados ni los organismos internacionales están preparados para este cambio



Zygmunt Bauman, creador del concepto de modernidad líquida, es uno de los principales teóricos sociales contemporáneos. - AP
CARLOS PRIETO - MADRID - 02/03/2010 08:00

Pocos autores pueden presumir de haber inventado una metáfora exitosa para describir los nuevos tiempos marcados por el desarrollo de los servicios globales de comunicación, la caída del comunismo y el triunfo del libre mercado. El sociólogo polaco Zygmunt Bauman (Poznam, 1925) es uno de ellos. Su concepto se llamó modernidad líquida. Líquida porque, según él, vivimos en un periodo marcado por la inestabilidad y la precariedad.

Bauman cree que la desregulación de los mercados se ha llevado por delante los pilares y los lazos sociales sobre los que se sostenían los países occidentales tras la II Guerra Mundial. La globalización económica no sólo ha afectado a las relaciones laborales sino a todas aquellas que vertebran el cuerpo social, incluidas las familiares y las sentimentales, tesis plasmada por el escritor en libros como Amor líquido (FCE), Vida líquida (Paidós) y Miedo líquido (Paidós).

El sociólogo polaco vuelve ahora a la carga con Mundo consumo (Paidós). Un análisis sobre las posibilidades de supervivencia del individuo ético en una aldea global en la que los gobiernos locales no son capaces de ponerle el cascabel al tigre de los mercados globales.

"Los estados-nación ya no son los soberanos de muchos aspectos de la vida común de sus ciudadanos", cuenta a Público. "Antiguamente lo que distinguía a las socialdemocracias era que creían en que el principal deber de la comunidad era proteger a todos sus miembros de las fuerzas poderosas a las que uno no puede enfrentarse solo. Los estados modernos eran suficientemente poderosos para conseguir que los intereses económicos se plegaran a los deseos políticos de la comunidad".

Todo cambió a raíz de lo que Bauman describe en Mundo consumo como "el golpe de Estado neoliberal de Reagan-Thatcher", que puso en entredicho los significados de dos conceptos que entonces parecían tan robustos como "público" y "social". La correlación de fuerzas entre política y mercado se vio bruscamente alterada. "El nuevo poder global no está sometido ahora a la supervisión política. El alcance de los estados-nación sigue siendo local, demasiado pequeño como para poder controlar a los mercados", cuenta el sociólogo a este periódico.

La gran cuestión política contemporánea es, por tanto, "si alguna fuerza política puede contener la marea de globalización desenfrenada de capital, comercio, financias, criminalidad, drogas y armas teniendo a su disposición únicamente los medios de un Estado solitario".

La respuesta es no. Y la crisis económica lo ha vuelto a poner en evidencia. Bauman critica con dureza las medidas tomadas por los gobiernos progresistas para frenar la recesión. "Cada vez es más complicado distinguir entre las políticas económicas de la derecha y las de la izquierda. Ser de izquierdas parece significar ahora hacer de un modo más riguroso el trabajo que la derecha dice que hay que hacer. Y, una vez hecho, paliar las nefastas consecuencias sociales de dicho trabajo", dice.

Acción colectiva y global

Reducida la socialdemocracia a una especie de organismo de beneficencia encargado de cuidar a las víctimas de un huracán llamado globalización económica, sólo queda saber si aún estamos a tiempo de revertir esa situación. Las recetas de Bauman pasan, para empezar, por dar un giro de volante a la deriva de la sociedad de consumo. "Actualmente se espera que sean los propios individuos los que conciban soluciones individuales a los problemas sociales. La solidaridad comunitaria ha dado paso a la competencia entre individuos. La sociedad de consumo practica una exclusión más estricta, violenta e implacable que la antigua sociedad productiva", dice el autor, que acompaña sus críticas a la globalización económica con una batería de estadísticas: hace 40 años la renta del 5% más rico de la población mundial era 30 veces mayor que la del 5% más pobre. Hace 15 años era 60 veces superior. Y en 2002, 114 veces más.

"La única respuesta posible a la globalización económica es el surgimiento de un espacio político igualmente global", cuenta. La tarea no es precisamente sencilla. Bauman sabe que la idea de crear una especie de super Estado democrático global se enfrenta al "escepticismo existente en torno a la viabilidad de una democracia posnacional o de cualquier entidad política democrática por encima del nivel de nación".

El sociólogo polaco también tiene claro que los actuales organismos de acción internacional y las instituciones universales no están preparadas para este cambio. "Parece dudoso que los actuales marcos para la política global puedan dar cabida a las prácticas del sistema político global emergente o servir como incubadoras de estas. ¿Qué podemos decir de la ONU, por ejemplo, creada con la misión de salvaguardar y defender la soberanía plena e inexpugnable de todo Estado sobre su territorio? ¿Puede la fuerza vinculante del derecho global depender de la obediencia que tengan a bien dispensar los miembros soberanos?", se pregunta. Bauman concluye que hay que empezar prácticamente de cero: "Se necesitan nuevas fuerzas para crear un foro verdaderamente global. Y estas sólo podrán afianzarse soslayando a los antiguos actores".

América en crisis

El sociólogo polaco no sólo pone en duda la capacidad de EEUU para gestionar el nuevo organismo global, sino que lo califica de país en decadencia debido, entre otras cosas, a su incapacidad para apagar los fuegos bélicos que ha provocado en otras naciones y a su enorme deuda económica: "EEUU es un país adicto al dinero importado del mismo modo que es adicto al petróleo importado. Ese dinero importado que, tarde o temprano habrá que devolver, no se gasta en la financiación de inversiones rentables sino en sostener el boom del consumo", escribe.

Pese a que tampoco tiene mucha fe en la actual Europa ("Hasta hace poco era el centro que convertía el resto del planeta en periferia, pero ya no goza de semejante privilegio y no puede tener ninguna aspiración seria de recuperar lo que perdió. De ahí el desvanecimiento de nuestra confianza"), señala cuáles son los pasos que debería dar Europa para hacernos salir del atolladero global: dejar de ver a EEUU cómo el líder natural y abandonar su obsesión por la seguridad, que parece guiar sus políticas: "Da la impresión de que está sellando sus propias puertas, al tiempo que hace muy poco (o nada) por reparar la situación que le ha inducido a cerrarlas".

Fuera como fuese, el trayecto transformador propuesto por Bauman está repleto de riesgos. "El camino es tan incierto hoy como lo era entonces, al comienzo de la era moderna y de su fase de construcción nacional y estatal. Lo peor es que no hay mapa alguno de dicho camino, por lo que cada nuevo paso se asemeja a un salto hacia lo desconocido", zanja. Buena suerte a todos, pues.

http://www.publico.es/culturas/298864/bauman/ultimo/cartucho/libre/mercado

quarta-feira, 3 de março de 2010

Suicídios Exemplares



"Eu me ponho em pé de guerra e penso que já é hora de nós, os cansados deste mundo, unirmos nossas forças para acabar, de uma vez por todas, com tanta injustiça e estupidez."
Vila Matas, p. 121 em Suicídios Exemplares


Você acredita no Brasil?

Brasileiros faz essa pergunta -- tema permanente desta página -- a vários brasileiros. Confira as respostas


"Eu acredito no Brasil, ou melhor dizendo, acredito em um Brasil que muitos brasileiros carregam dentro de si. São brasileiros que, apesar de toda a corrupção e hipocrisia, sobrevivem com dignidade e responsabilidade. São eles que também acreditam no poder da educação para todos e não apenas no slogan publicitário repetido há anos. Esses brasileiros encontram tempo para contribuir para uma sociedade mais justa - e isso se faz no dia a dia, nas relações familiares, profissionais e de amizade - e compreendem que se dar bem na vida a qualquer custo não é o caminho, apesar dos maus exemplos que nos cercam. Esses brasileiros nos quais acredito não são donos da verdade, estão abertos ao diálogo e querem preparar o País para o futuro próximo, encarando novos desafios com relação à tecnologia, ao planeta, às relações trabalhistas, direitos, deveres, etc... Esse Brasil, no qual acredito, ainda tem força para se indignar contra a falta de justiça, a violência, a falta de vergonha na cara daqueles que tiram dos que mais precisam e que olham para o País com indiferença.
O Brasil do Tom, do Ben, das belezas naturais, da mistura de raças e credos pode ser muito mais do que uma caricatura de araras, futebol e mulatas. Precisamos seguir em frente. Aprimorando, aprendendo, reinventando."
Simoninha, cantor, São Paulo (SP)

"Apesar de nossos problemas históricos de corrupção e falta de investimentos em setores fundamentais, como educação, saúde, segurança e cultura, acredito sim que o Brasil tem jeito. Desde que haja uma mudança em médio prazo de nossos representantes e nessa velha cultura de se acostumar com tudo, sem reivindicar as transformações necessárias. Precisamos agir para que isso seja possível."
Éden Moraes da Costa, funcionário público, Belém (PA)


"Eu acredito que o Brasil somente vai dar 'certo' e será um lugar melhor para se viver quando as pessoas e a sociedade passarem a questionar alguns dogmas. É preciso refletir sobre o dogma do crescimento e do progresso material, o dogma do trabalho e o dogma do consumo. Esses dogmas são fontes de alienação, individualismo e atomização social. Enquanto isso não for feito por cada cidadão, o Brasil continuará a ser um País injusto e desigual. É preciso repensar os objetivos coletivos e as formas de viver e de se relacionar socialmente. Que sejam formas não mais fundamentadas em relações comerciais, mas em vínculos de solidariedade, pluralidade e liberdade. Com essas transformações, um outro Brasil é possível." Augusto Patrini Menna Barreto Gomes, historiador, tradutor e jornalista, São Paulo (SP)


"Por que não acreditar? Ou seria melhor acreditar na grande mídia que insiste em ofender nossa inteligência e tenta a todo custo embotar nossa sensibilidade? Ou em empresários social e ambientalmente responsáveis de fachada? Ou em governantes mentirosos, omissos e hipócritas? Não vou listar uma infindável série de razões econômicas, culturais, sociais, acadêmicas, artísticas, afetivas, comunitárias, todas de caráter estrita e altissimamente positivos que, mesmo diante dos descalabros e absurdos perpetrados por nossa gente de 'bem', os antigos 'homens bons' (Para quem? - eu me pergunto...), acobertados pela grande 'imprensa' e pela 'justiça'. O País e sua gente são muito, mas muito melhores do que pensam parcelas ínfimas, mesmo que bem aquinhoadas ou apadrinhadas, do ponto de vista material, da população."
Ciro Hardt Araujo, editor, Vargem Grande Paulista (SP)

Original em: http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/31/textos/857/