sábado, 7 de agosto de 2010

Sobre Candidatos e Casamento Gay no Brasil



Não há razão alguma para que o Casamento Gay não seja aprovado no Brasil


Por Augusto Patrini


Lendo sobre a recente aprovação do casamento igualitário na vizinha República Argentina não pude deixar de concluir que não há razão para que o casamento gay não seja aprovado no Brasil. A única razão seria o conservadorismo de nossos parlamentares, deputados e senadores - sua falta de compreensão do que é a isonomia republicana, do princípio de laicidade que rege nosso Constituição Federal, e mesmo o desconhecimento das leis de nosso país.


Ora, o Artigo 5º da Constituição afirma:


“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, (...)”


Não é preciso ser formado em direito para perceber que o fato em que atualmente em nosso país os cidadãos heterossexuais possuírem o direito ao casamento, direito excluído aos casais homoafetivos fere de forma evidente o artigo quinto da Constituição. Pois ela iguala todos os cidadãos e veda qualquer forma de discriminação.

O grave, entretanto, nesta situação de facto, é que a discriminação está sendo infringia, provavelmente aos dez por cento da população brasileira com prática homoafetiva, pelo Estado brasileiro! Entre os objetivos declarados na Constituição da República Federativa do Brasil, em seu artigo 1o estão: “II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; (...)”. Percebemos claramente que estes dois valores são negados a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais - ao terem negados os direitos civis relacionados ao direito de casamento e constituir família.

Alguns detratores da igualdade jurídica afirmam que igualar heterossexuais de homoafetivos fere os princípios das religiões cristãs, desrespeitando-as. Trata-se aqui de um falso argumento, feito por ignorância ou má fé. Um estado laico, como o Brasil, deve tratar a todos o cidadãos por igual, tanto aos crentes de qualquer religião como aos não crentes.

A Constituição Federal é laica, separa o Estado da religião: O art. 19, I da Constituição de 1988 proíbe à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios "estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público", e também III “criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si”.


É justamente isso, aquilo que a Constituição brasileira proíbe em seu artigo 19 que o Estado brasileiro vem fazendo ao permitir a confusão entre a República, e seus princípios e diversos valores religiosos. Além disso, ao não permitir o cidadão homoafetivo a posse do direito ao casamento e a constituir civilmente família[1] cria, com justificativas religiosas, uma evidente desigualdade entre cidadãos. Não se trata, como pensam alguns somente de uma questão setorial, mas sim dos princípios que queremos para a República, trata-se de justiça e também do reconhecimento de isonomia e da igualdade de direitos civis.


“A César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Não se trata aqui de uma intromissão do Estado em assuntos religiosos. A Lei deixa muito claro: existe uma a diferença entre o sacramento do Matrimonio religioso e o casamento civil, garantido pelos poderes do Estado brasileiro. Os religiosos, e suas lideranças não deveriam intrometer-se em um domínio que não diz respeito aos religiosos. Fazendo isso, eles intrometem-se na vida de pessoas que não possuem as mesmas crenças e concepções filosóficas que eles – e violam o princípio constitucional da não discriminação.


O laicismo princípio que rege teoricamente as leis brasileiras é uma doutrina filosófica que defende e promove a separação do Estado das igrejas e comunidades religiosas, assim como a neutralidade do Estado em matéria religiosa. A palavra "laico" é um adjetivo que significa uma atitude crítica e separadora da interferência da religião organizada na vida pública das sociedades contemporâneas.


Outra evidente injustiça vigente no Brasil é o fato que, escandalosamente, ainda não é passível de punição criminal atos de discriminação homofóbica. O projeto de lei 122/2006, que criminaliza atos de discriminação por orientação sexual nem ao menos foi analisado e votado pela Câmara dos Deputados e pelo Senado. Isso, em um país em que a cada três dias um cidadão e brutalmente assassinado por motivo de ódio por orientação sexual[2]. Ou seja, em nosso país ainda é “legal” discriminar, excluir, apartar por motivos relacionados a tipos de afetividade. Somente algumas unidades da federação, como São Paulo (lei 10.948), Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Alagoas punem administrativamente a discriminação por homofobia.


Mesmo que muitas conquistas tenham sido atingidas, sobretudo fruto da luta do movimento homossexual organizado, as principais delas na área dos direitos humanos e civis da comunidade LGBT aconteceram por meio de ações judiciais movidas por cidadãos e cidadãs, indignados com sua condição de cidadãos de segunda classe; ou simplesmente envolvidos em crises particulares resultantes da ausência de direitos civis e humanos reconhecidos.


Os movimentos políticos, principalmente os partidos políticos, sobretudo seus representantes na Câmara federal e Senado, ainda pouco fizeram na melhoria da situação de gays, lésbicas, transexuais e bissexuais no Brasil. Algumas conquistas vieram da luta do movimento LGBT por visibilidade e de medidas administrativas em empresas públicas e privadas.


As poucas conquistas na área do poder público originaram-se do poder executivo, particularmente da presidência da República, como por exemplo, O Primeiro Plano Nacional de Combate a Homofobia, que ainda é um conjunto de boas intenções não implementadas, e a instituição do Dia Nacional de Luta contra a Homofobia (17 de maio), decretado por Lula (PT).


No atual processo de eleição o assunto do casamento gay e dos direitos civis de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais parece ter voltado à pauta política, na onda de reconhecimento de direitos civis desta população no mundo (recentemente a Islândia aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, e mesmo a ultracatólica Irlanda reconheceu os diretos de dos casais homoafetivos em constituírem união civil legal) mas, sobretudo, pela aprovação na vizinha Argentina do Casamento Igualitário.


Mesmo que o assunto de tamanha importância esteja de novo em pauta, entre os políticos e na imprensa, poucos candidatos parecem ter conhecimento suficiente sobre a questão. Os presidenciáveis declaram-se com respeito ao casamento igualitário ou união civil entre pessoas do mesmo sexo, salvo engano, da seguinte forma:


  • Dilma Rousseff (PT): Favorável - Declarou várias vezes ser favorável à união civil[3] entre pessoas do mesmo sexo. Entretanto recentemente, segundo a imprensa, fez acordos com lideranças evangélicas garantindo que deixará a cargo do legislativo o tratamento da questão. Também parece confundir-se, talvez propositalmente por tática, entre os conceitos de casamento civil e casamento religioso. Mas isso faz parecer que não está claro para a candidata o caráter laico do estado brasileiro. Por essa confusão declarou-se contrária ao casamento gay e favorável a união civil. Também defende a adoção de crianças por casais homoafetivos. Mesmo após reunião com evangélicos continua defendendo a União Civil, e considerando o aborto uma questão de saúde publica. Mesmo assim a candidata tem como vantagem de ter como partido o Partido dos Trabalhadores que possui um histórico de mais de 30 anos de atuação política na área LGBT. A fundação deste partido (FPA) foi responsável pela mais completa pesquisa de opinião sobre homofobia e diversas publicações na área LGBT. Assim como Lula, tradicionalmente Dilma sempre foi simpática à causa LGBT.

  • Marina Silva (PV): Contrária[4] - Mesmo que seu partido tenha como um de seus princípios programáticos a liberdade de orientação sexual, a candidata parece, por motivos religiosos, desconfortável com a questão. Integrante de uma das igrejas neopentecostais mais conservadoras do país, Marina chegou no começo da campanha a esconder uma bandeira gay presenteada por um vereador de seu partido. Ainda dizia que era favorável ao reconhecimento jurídico dos casais homoafetivos, mas sem deixar claro como isso aconteceria. Posteriormente parece ter assumido sua posição filosófica e declarou-se contra a união civil e o casamento gay. Em seus muitos anos como senadora, ainda no PT, sempre alegou “objeção de consciência” para abster-se do debate e da votação de qualquer medida que tivesse relação com a comunidade LGBT e aborto. O problema aqui não parece ser o fato da candidata ser evangélica, mas de ser ao contrário uma evangélica candidata. Ela coloca, aparentemente, suas crenças pessoais acima da laicidade do Estado e do bem-estar dos cidadãos LGBTs. Há algumas semanas, como forma de não dar opinião, vem falando de plebiscito (é, isso mesmo, plebiscito!) para decidir a questão. Parece não saber que não se negocia com direitos humanos e sociais.

  • Jose Serra (PSDB): Contrário[5] - Católico praticante, no começo da pré-campanha, o candidato prometeu em um evento evangélico em Santa Catarina que não aprovaria o casamento gay no Brasil. Logo em seguida afirmou ser favorável a união civil entre pessoas do mesmo sexo, para em algumas semanas mudar de ideia e declarar-se contrario, afirmando que esta não seria uma questão relevante a ser regulada pelo de Estado. Serra afirmou: “É um assunto que Estado não entra, é problema das pessoas. Cada crença tem a sua orientação. Se uma igreja não quer casar, mesmo reconhecendo união civil, a igreja não pode ser obrigada a isso. Se duas pessoas querem viver juntas, ter herança, é problema delas, não é do Estado”. Ele tem se queixado sobre as perguntas da imprensa, cada vez mais frequentes, sobre o tema. Parece que o candidato desconhece ou não é sensível ao cenário de injustiças civis cometidas contra os casais homoafetivos (37 direitos negados no Brasil), assim como desconhece os números de casos de homofobia no país e o altíssimo número de assassinatos por ódio homofóbico. Como fica evidente em sua declaração ele confunde o que é casamento civil e casamento religioso, além de desconhecer o caráter laico do primeiro. Também não parece estar claro para o candidato o caráter laico do Estado brasileiro. Estranhamente, quando prefeito da cidade de São Paulo e governador, Serra não vetou projetos de lei aprovados pelos legislativos, assinando o decreto de algumas leis favoráveis à comunidade LGBT. Seu recente posicionamento contrário ao casamento gay parece estar associado a sua queda nas pesquisas e a sua conseqüente guinada para a direita, na tentativa de atrair a parcela do eleitorado brasileiro mais conservador. Aos poucos seu partido, PSDB, parece assumir o espectro ideológico que anteriormente pertencia ao PFL, atual DEM. Ao afirmar que a questão LGBT "não é problema de Estado" o candidato parece desconhecer que o Estado tem como principal função garantir o bem-estar de todos os cidadãos! Dá frequentemente declarações contraditórias, dependendo do público ouvinte. Entretanto pelas entrelinhas percebe-se claramente sua postura contrária a igualdade civil entre homossexuais e heterossexuais.

  • Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) – Favorável - Mesmo sendo um fervoroso católico, parece ser o único candidato realmente consciente da importância do tema relacionado aos direitos LGBT, e do caráter laico do Estado Brasileiro. Em mais de uma ocasião defendeu a União Civil, recentemente começou a defender, talvez influenciado pelos argentinos, a instituição do Casamento entre pessoas do mesmo sexo no Brasil. Defende, entretanto, de forma clara, a adoção de crianças por casais homossexuais.

  • Zé Maria (PSTU) – Favorável - É único candidato que defende a instituição do Casamento Igualitário, assim como aquele instituído na vizinha Argentina. Entretanto o candidato não parece estar familiarizado ao debate das questões dos direitos LGBT confundindo orientação sexual por opção (sic) sexual. Parece que ele segue nesta área a orientação de seu partido.

  • Ivan Pinheiro (PCB) – Favorável - Declarou-se favorável a instituição da União Civil. Recentemente em sabatina do R7 declarou-se favorável a equiparação civil entre homossexuis e heterrossexuis, e ao Casamento Igualitário ("direito do casamento civil para todos.")

  • José Maria Eymael (PSDC) – Contrário. Não se pronunciou sobre a questão, mas pelas diretrizes de seu partido de fundamentos cristãos deve optar pela oposição ao casamento gay.

  • Levy Fidélix (PRTB) - Contrário. Recentemente em sabatina do R7, o candidato declarou-se contrário ao casamento gay, à união civil. Mostrou-se bastante homofóbico, e pouco informado. Associou a homossexualidade a doença, devio e pecado.

  • Rui CostaPimenta (PCO) - Favorável - Na sabatina do R7 o candidato pronunciou-se favorável ao Casamento Gay, dos direitos LGBT, assim como destacou o direito das mulheres em fazer aborto.


Mesmo que constatemos a importância da ação do poder executivo na implementação, reforma de leis e mudanças políticas no Brasil, é preciso salientar que é o poder legislativo o responsável pela elaboração de leis e reformas constitucionais. Por isso é de enorme importância que os cidadãos preocupados com a questão votem em candidatos a Câmara Federal que entendam o caráter laico do Estado brasileiro, assim como candidatos preocupados com os direitos humanos e civis da comunidade LGBT. Sem um parlamento formado por homens e mulheres que reconheçam o princípio de laicidade e considerem direitos humanos e civis como fundamentais, mudanças reais são muito lentas e poderão ficar, inevitavelmente, a cargo do poder judiciário.


Dentre os candidatos por mim contatados pelo Twitter somente José Genoíno @JoseGenoino (PT-SP), Alex Lombello Amaral @LombelloAmaral (PCB-MG), DR. Rosinha @DrRosinha (PT-PR), Jandira Fegalli @jandira_feghali (PCdoB-RJ), Renato Simões @ptrenatosimoes (PT-SP) - autor da lei Estadual que proíbe discriminação por orientação sexual em São Paulo - e Maria do Rosário @_mariadorosario (PT-RS) responderam a pergunta: “Vocês são favoráveis ao #CasamentoGay no Brasil?”. A deputada Maria do Rosário respondeu “acho ótimo! Vou começar a estudar a lei argentina. Espero q o Congresso Nacional Brasileiro venha das eleições + aberto e justo”. Já o deputado Renato Simões escreveu: “Minha posição é q o Estado deve assegurar a casais do mesmo sexo os mesmos direitos civis previstos p/ casais heterossexuais”. O deputado José Genoino respondeu com um texto: “União civil estável: reconhecimento de direitos e conquista da cidadania plena!” onde defendeu o seu PL 4914/2009 que trata da união civil estável para pessoas do mesmo sexo, com direitos e deveres.


Depende de nós, eleitores brasileiros, cobrar dos demais candidatos uma postura clara relativa à questão tão importante. Devemos cobrar dos candidatos, principalmente a Presidência, o que de fato farão para garantir que os direitos humanos de homens e mulheres LGBTs continuem a ter seus direitos humanos violados no Brasil. Devemos também cobrar, perguntar, o que farão para garantir que a isonomia republicana e laicidade sejam garantidas para todos os cidadãos LGBTs. Se heterossexuais podem casar-se civilmente, não há razões, além de crenças religiosas, para que os homossexuais também não o possam fazer, já que o Estado não tem religião e deve ser neutro nesta matéria!


Também depende de nós, cidadãos politicamente ativos, exercer pressão para que uma vez eleitos Deputados e Senadores aprovem medidas que garantam a isonomia republicana e a justiça civil.



[1] No Brasil 37 direitos são atualmente negados a casais formados por pessoas do mesmo sexo, (direitos estes acessíveis aos casais heteroafetivos):

* Não podem aceder ao casamento civil.

* Não têm reconhecida a união estável.

* Não adotam sobrenome do parceiro.

* Não podem somar renda para aprovar financiamentos.

* Não somam renda para alugar imóvel.

* Não inscrevem parceiro como dependente de servidor público (admissível em diversos níveis da Administração).

* Não podem incluir parceiros como dependentes no plano de saúde.

* Não participam de programas do Estado vinculados à família.

* Não inscrevem parceiros como dependentes da previdência (atualmente aceito pelo INSS).

* Não podem acompanhar o parceiro servidor público transferido (admissível em diversos níveis da Administração).

* Não têm a impenhorabilidade do imóvel em que o casal reside.

* Não têm garantia de pensão alimentícia em caso de separação (posição controversa no Judiciário, havendo diversos casos de concessão).

* Não têm garantia à metade dos bens em caso de separação (quanto aos bens adquiridos onerosamente, têm direitos pois constituíam sociedade de fato. Contudo, não há que se falar em meação de bens).

* Não podem assumir a guarda do filho do cônjuge.

* Não adotam filhos em conjunto.

* Não podem adotar o filho do parceiro.

* Não têm licença-maternidade para nascimento de filho da parceira.

* Não têm licença maternidade/ paternidade se o parceiro adota filho.

* Não recebem abono-família.

* Não têm licença-luto, para faltar ao trabalho na morte do parceiro.

* Não recebem auxílio-funeral.

* Não podem ser inventariantes do parceiro falecido.

* Não têm direito à herança (precisam de previsão testamentária, mas quanto aos bens adquiridos onerosamente durante a convivência, há sociedade de fato, recebendo o sobrevivente a sua parte).

* Não têm garantida a permanência no lar quando o parceiro morre.

* Não têm usufruto dos bens do parceiro (precisam de previsão testamentária).

* Não podem alegar dano moral se o parceiro for vítima de um crime.

* Não têm direito à visita íntima na prisão (visitas autorizadas por grande parte do Judiciário).

* Não acompanham a parceira no parto.

* Não podem autorizar cirurgia de risco.

* Não podem ser curadores do parceiro declarado judicialmente incapaz (grande parte do Judicíario admite o exercício da curatela pelo parceiro, mas não é possível que este promova a interdição).

* Não podem declarar parceiro como dependente do Imposto de Renda (IR).

* Não fazem declaração conjunta do IR.

* Não abatem do IR gastos médicos e educacionais do parceiro.

* Não podem deduzir no IR o imposto pago em nome do parceiro.

* Não dividem no IR os rendimentos recebidos em comum pelos parceiros.

* Não são reconhecidos como entidade familiar, mas sim como sócios.

* Não têm suas ações legais julgadas pelas varas de família. (questão em fase de mudança jurisprudencial)

[2] Números compilados pelo GGB, com base documental baseada em relatos publicados na imprensa e relatos, em todo o país. O país é considerado campeão mundial em números absolutos de assassinados motivados por homofobia.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Empresário tenta "golpe" na Associação da Parada Gay de São Paulo


Eleição da APOGLBT será decidida por diretoria e fundadores

Membros definem nova data e procedimentos. A medida foi aprovada pelos demais associados em unanimidade.
02/08/2010

Por Leandro Rodrigues

Inicialmente marcada para a última sexta-feira (30), a eleição da nova diretoria da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT) foi adiada. A decisão foi tomada pelos membros em reunião na sede da entidade. A Associação deve divulgar as definições da eleição ainda esta semana.

Segundo consta em livro de presença, 78 pessoas estiveram presentes na ocasião, entre associados, militantes, jornalistas da mídia segmentada, empresários e visitantes. Número recorde de participação em reunião administrativa da Associação, a exemplo da discussão para escolha do tema da 14ª Parada, que reuniu aproximadamente 15 pessoas.

O 8º Ciclo de Debates, atividade oficial do 14º Mês do Orgulho LGBT, recebeu uma média de 30 pessoas por dia. Dos presentes na assembleia da eleição, grande parte não participou dessa nem das outras ações do calendário promovido pela entidade, todas em prol dos direitos humanos e cidadania LGBT.

O repentino interesse deve-se a falta de definição de uma chapa em situação. Diversos não-associados reivindicaram o direito de voto e formação de chapa, mobilizando uma tentativa de anulação do Estatuto, que exige a filiação há pelo menos seis meses anteriores à data da eleição e 25% de participação nas atividades promovidas pela APOGLBT para a aptidão ao voto e a candidatura.

Um dos entusiastas dessa ilegalidade era o empresário Douglas Drumond, que pleiteava a possibilidade de se candidatar. O mesmo defende a mudança do formato da Parada, bloqueando o acesso à Avenida Paulista e condicionando a participação popular na manifestação através da venda de abadás. “Queremos formar uma chapa. [...] Nova parada novamente gay, linda, boites [sic], drags, gogos, Caca Dipoli [sic]”, disse em seu perfil no Facebook o dono da sauna 269, estabelecimento direcionado ao público gay masculino que discrimina mulheres, travestis e transexuais.

Integrante do Conselho de Sócio-Fundadores, Ideraldo Beltrame agradeceu a presença e o interesse dos não-associados, mas afirmou que “a derrubada do Estatuto é um ato anti-político, anti-ético e desrespeitoso à importância histórica da entidade”. O militante Julian Rodrigues e a ex-diretora Regina Facchini endossaram as colocações de Ideraldo.


Arquivos abertos

Acusado por Drumond de promover as eleições “às escondidas”, sem edital, o presidente da APOGLBT rebateu. “O edital da eleição está publicado em nosso site desde a semana passada, como manda o Estatuto. Os editais das outras eleições estão todos em nosso arquivo, que está aberto para quem quiser consultar”, explicou Xande. (clique aqui e confira a publicação do edital)

O empresário – que se apresentou na 14ª Parada fantasiado de “Rei-Sol", o monarca absolutista Luís XIV – dispara ainda que Associação não é democrática, mantendo a muito tempo um único grupo militante na diretoria. Quem lhe respondeu dessa vez foi Facchini, que apontou diversos membros presentes, outros ausentes, citou a militância de origem de cada um e salientou que “a Associação é formada por um grupo muito diverso de pessoas. Fazemos a Parada muito antes do apoio do governo e muito antes de ter uma sede, emprestávamos nossas casas para organizar a manifestação”.


Trabalho solitário

O último inscrito a tomar palavra foi o tesoureiro da APOGLBT, Manoel Zanini: “Bom vocês estarem aqui e constatarem o pequeno espaço em que é realizada a maior Parada do mundo. Tempos atrás, nem tínhamos como alugar uma sede. Hoje a associação tem dinheiro em caixa para pagamento de aluguel e contas para os próximos meses. Meus caros, estou aqui todos os dias e pouco vejo aquela porta se abrir. Este tem sido um trabalho solitário”, disse.

Após cerca de duas horas, o debate decidiu pelo adiamento da eleição em 30 dias, num primeiro momento, para que a atual diretoria e os sócio-fundadores possam se reunir e estabelecer como será a formação de chapas e os procedimentos de votação. Todos os associados serão anistiados de débitos com a entidade, exceto prestação de contas.

O encontro ocorre no início desta semana e a sentença para o prosseguimento será anunciada no site da organização e para a imprensa, através de sua assessoria de comunicação.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Orfeu Extático na Metrópole.



Por Augusto Patrini Menna Barreto Gomes

Historiador formado pela USP, tradutor Francês/Português


  1. Introdução

Se me explico, me implico:

Não posso a mim mesmo interpretar.

Mas quem seguir sempre seu próprio caminho

Minha imagem a uma luz mais clara também levará.

Nietzsche, Astúcia e Vingança, § 23 - Interpretação in: Gaia Ciência


A Subjetividade é a verdade.

Søren Kierkegaard


Os historiadores devem estar sempre abertos para a discussão; interpretação e exame crítico de documentos e fontes. Um texto, seja ele de natureza documental ou não – pode ter várias interpretações nenhuma certa ou errada, mas apenas miradas diversas, a partir de lugares diferentes. É assim também que talvez o autor de meu livro encare seus documentos[2] e assim encaro seu próprio texto.

Não se pode esquecer, que mesmo que nossas idéias pareçam claras e exatas, elas são sempre suposições – e que o “texto” possui sempre, em alguma medida autonomia - se esquecermos disto e tomá-los como verdades, perdemos a chance de que por meio da interpretação e reflexão – destes textos e símbolos, de vislumbrar o que somos e como poderíamos conhecer do mundo. Temos que ter em vista que somente em diálogo com eles e sua época, conscientes de nossas próprias experiências, podemos tentar compreendê-los profundamente.[3] Nicolau Sevcenko parece, em seu livro estar bem consciente disto, e esta parece ser uma das atitudes epistemológicas centrais em sua escrita.


É nesta perspectiva que inscrevo minha análise da obra do professor Nicoulau Sevcenko, Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras:2003. (pp.351) 3ª Edição.


  1. Começando pelo fim.

Um pequeno livro floresceu neste começo de século entre a inteliguentsia brasileira. Trata-se, de um pequeno grande livro,Virando Séculos – A Corrida para o Século XXI[4], de Nicolau Sevsenko. Ele traça uma perturbadora e lúcida reflexão sobre o século XX e principalmente a passagem para o século XXI. Tomando uma viagem de montanha-russa como sua imagem e inspiração básicas, o historiador e crítico da cultura Nicolau Sevcenko avalia a transição do século XX para o XXI como um processo de aceleração contínua, e nos alerta para a importância de se analisar criticamente estas transformações.


O livro, em certo sentido é assustador, por diagnosticar de forma impiedosa os principais problemas da atualidade: aquecimento global, desmonte do estado de bem estar social, fragmentação de paradigmas, mercantilização da arte e da cultura, transformações tecnológicas - desigualdades sociais e políticas. Mesmo assim, Sevsenko não deixa de apresentar-nos alguma esperança. Se, por um lado o desmoronamento das utopias “socialistas” realizadas trousse em seu bojo alguma desilusão, também permitiu que pensemos outras soluções para a contemporaneidade, livre das prisões dogmáticas e dos ismos, que tanto enquadraram o pensamento de esquerda latino-americano e mundial.


Parece-me que Sevcenko, por sua lucidez é capaz de enxergar uma saída para nós. Para ele, como para outros homens de sua geração, a saída estará sempre nas margens: é por isso que no final do livro ele aponta para a contra-cultura, em suas expressões, plásticas e principalmente musical; com seus possíveis e necessários desdobramentos políticos e sociais.


Esse pequeno livro é fundamental nesse começo de século, tão farto em niilismo e desilusão. Fundamental para historiadores, sociólogos, comunicólogos e outros intelectuais. É interessante constatar como justamente essa crise de paradigmas, e o fim dos nacionalismos, e do Estado -Nação como estava configurado no século que passou, pode ter ares de emancipação e libertação, desde que saibamos ver um caminho, e que estejamos prontos para olhar para as margens, onde surge, segundo nosso autor, uma nova geração disposta a lutar por mudanças.

Penso mesmo que este livro pode ser base teórica, para o fazer historiográfico contemporâneo, já não pautado por antigas formas e categorias, como Estado e Economia, mas um fazer historiográfico aberto para a cultura, para as idéias, para o imaginário e para as representações. Parece-me que este livro situa bem o lugar e as perspectivas epistemológicas do autor de Orfeu, assim como as minhas próprias e meu lugar no tempo.


  1. Hermenêutica dos anos 20

O Livro Orfeu é todo um exercício de interpretação crítica nos marcos do perpectivismo teórico. Uma crítica veemente ao processo de modernização, em São Paulo, e também no mundo. Essa crítica está focada principalmente na análise do processo de urbanização de São Paulo e na vida cultural da cidade na década de vinte do século passado. Ela , no entanto, não deixar de perceber todas as conexões entre a vida na cidade e no mundo, e sua fremente modificação . O autor considera a política no seu sentido mais amplo – aquela que penetra em nível micropolítico – na vida social, urbana, cultural. Contando com uma gama de documentos de várias naturezas, o historiador não deixa-se levar por uma perspectiva temática nem mesmo cronológica – para estruturar seu texto sem causalidades e nexos deterministas, mas elaborando uma fina e microscópica leitura.


Em termos estruturais o texto é dividido em três momentos: o primeiro deles trata de São Paulo entre o final do século XIX até mais ou menos a década de 20 do século XX – o foco central parece ser a urbanização da cidade, mas para isso o autor tece toda uma rede de sociabilidades, apresentando aspectos culturais (Esportes, carnaval, simbologia identitária, música etc) e políticos - em seus aspectos institucionais – econômicos e macro-políticos, mas também em seus níveis “microscópicos” – apresentando a vida popular, dos imigrantes, as agruras do povo, assim como as expectativas da elite, e a formação simbólica da identidade “paulista”, industrialização etc. Sua atenção para a configuração desordenada da cidade em meados do começo do século XX é muito pertinente e instrutiva, e deixa claro de todo seu impacto social e cultural, que podem, no limite, ser sentidos até nossos dias. Neste primeiro momento do livro são lidos e interpretados uma série documental proveniente principalmente de artigos da imprensa (sobretudo do jornal Estado de São Paulo). Fica claro como o caótico desenvolvimento urbano paulistano, não é como se costuma dizer, por falta de políticas públicas, mas justamente o contrário, por políticas que privilegiaram o transporte sobre rodas, a construção de rodovias marginais e beneficiaram a especulação imobiliária, em detrimento de uma política igualitária e que privilegiasse o transporte sobre trilhos e a implementação de serviços públicos para todos e bem distribuídos.


Em um segundo momento, o autor, consciente que nenhuma categoria social ou política pode ser isolada das conexões mundiais, sejam históricas – políticas, econômicas ou culturais - dirige seu olhar para a Europa, e toda convulsão sócio-cultural no fim do século e começo do século XX, analisando assim uma série de poetas, críticos de arte (música, balé e sobretudo pintura), e vanguardistas, estetas – todos imersos em uma ambiente de mudanças, transformações e “revoluções”, além de claro no impacto destruidor da 1ª Guerra Mundial, e toda suas conseqüências. Além disso, é neste momento que narra, de forma muito elegante e eficiente, as conexões entre as vanguardas européias e as vanguardas modernistas que se constituiriam então no Brasil, mas sobretudo em São Paulo. Este é o terceiro momento do livro, onde seu guia preferencial parece ser o “exexota”, estrangeiro, nômade, poeta e romancista Blaise Cendras.

Nesse momento, apresenta-se o que era ser moderno nos anos 20; ele nos sugere, que apesar das aparentes rupturas havia, como ainda há, uma sertã continuidade sincrônica, mesmo no caso de movimentos como o Modernista. O que era definido pelos vários modernistas, podia assumir feições diferentes e em grande parte eram conjunções com experiências exteriores (muitas vezes se encontrou o Brasil desde um olhar de Paris). Para isso, o historiador faz a análise de documentos da vanguarda – e suas várias vertentes e representantes, poemas de Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Oswald de Adrade além das correspondências de Tarsila do Amaral, as críticas sobre a música de Vila Lobos. Também indica as transformações e adaptações dos vários modernistas sob os acontecimentos políticos da época, como o surgimento do tenentismo, a revolução de 1924 e posteriormente, a revolução de 30 e a instauração do Estado Novo. Nestas transformações, lutas e movimentos o testemunho do poeta suíço assume importância notável na narrativa e interpretação do historiador. Ele destaca que somente podemos compreender o movimento modernista brasileiro, encarando como parte de um grande movimento de transformações estéticas, artísticas, e políticas que transformava as feições mundiais, e que o Brasil, mesmo em seu lugar “periférico” não se encontrava, em termos temporais, atrasado nestes movimentos. As vanguardas modernistas estavam intimamente ligadas às figuras e lugares do modernismo mundial. Acaba por concluir, inspirado em Sergio Buarque de Holanda, que não obstante a confusão estética e política da época, talvez, seja justamente esta que permitiu o desenvolvimento artístico variado e plural que caracteriza a produção modernista.


Vale a guisa de conclusão citar um dos autores empregados por Nicolau, Rubens Borba Morais:


Os historiadores brasileiros que insistem em buscar no Brasil as origens dos Modernistas [têm] uma visão restrita da literatura, não procuram encaixar a produção nacional no panorama mundial de uma época e nos grandes movimentos internacionais de idéias. Sem essa perspectiva o Movimento Modernista fica suspenso no ar, sem raízes, ou tem uma tem uma filiação espúria.[5]


Assim, fica mais que claro, que para o historiador de Orfeu, o Movimento Modernista brasileiro está, mesmo em suas vertentes nacionalistas, ou aquelas que buscam um americanismo ou uma certa entidade nacional (Mario de Andrade), e suas vertentes mais originais, estava intimamente ligado ao panorama estético e político mundial. É por isso, que Sevcenko se preocupa em estabelecer, em seu texto, o tempo todo, nexos entre nós e o outro. Além disso, cabe destacar, que ele percebe que mesmo quando se trata de movimentos de ruptura, estes guardam em seu interior estruturas, idéias, perspectivas do tempo em que hipoteticamente foi “rompido”. Parece assim, pois, que mesmo se os manifestos proclamem as rupturas, eles e seus desenvolvimentos guardam parte daquilo mesmo que queriam romper, e isso não os faz menos interessantes, mas ao contrário – identificar, estabelecer nexos e interpretar conexões pode ser um trabalho interessantíssimo para qualquer historiador, sobretudo aqueles que trabalham com cultura, política e idéias.


5. Bibliografia auxiliar.

  • GADAMER, Hans Georg. Esboço dos Fundamentos de uma hermenêutica. IN: O Problema da Consciência Histórica. (org FRUCHON, PIERRE). RJ: Fundação Getúlio Vargas, 2006
  • HUNT, Lynn (org.). A Nova História Cultural. SP: Martins Fontes, 2006
  • NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a verdade e a mentira no sentido extra moral. (org e trad.: Fernando de Morais Barros. SP: Editora Hedra, 2007
  • RICOEUR, P. La Mémoire, L´histoire, l´obli. Paris: Éditions de Seuil, 2000.


[2] Uma vez que Sevcenko utiliza-se como referencias teóricas Ludwig Wittgentein e o cita na epigrafe: “A Filosofia é a batalha contra o enfeitiçamento da nossa inteligência por meio da linguagem.” L. Wittgenstein. Philosophical Investigations apud: N. Sevcenko. Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras:2003. pp 6.

[3] RICOEUR, P. La Mémoire, L´histoire, l´obli. Paris: Éditions de Seuil, 2000.

[4] Nicolau Sevcenko; coordenação Laura de Mello e Souza, Lilia Moritz Schwarcz - São Paulo, Companhia das Letras, 2001 (Virando Séculos;7).

[5] Sevcenko, Nicolau. Orfeu Extático na Metrópole: São Paulo sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo: Companhia das Letras:2003. 3ª Edição, pp.309

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Casamento Igualitário na Argentina, e no Brasil?

Por Augusto Patrini

Interessante perceber que algumas pessoas no Brasil, de forma hipócrita, escondem seu preconceito, sua homofobia com discurso "racional" e / ou conciliatório. Todos nós sabemos que o Brasil sofre de uma hipocrisia estrutural histórica, e os brasileiros têm a triste mania de não falar claramente o que pensam. Escondem-se, mas, no dia-a-dia discriminam, são racistas, machistas e homofóbicos. Triste, essa hipocrisia impede que o país avance.

Gostaria muito de ao menos ver um debate realmente franco por aqui. Como o que aconteceu recentemente na Argentina sobre o Casamento Gay ou Igualitário. Entretanto nem isso parece ser possível por essas terras brasileiras. É por isso que o projeto de lei de União Civil entre pessoas do mesmo sexo, de autoria de Marta Suplicy, hoje já mais que caduco, está há mais de 15 anos, desde 1995, no parlamento e nem ao menos foi discutido! Hipocrisia? Sim. Negue-se a debater o assunto, e você estará escondendo de forma "elegante" seu preconceito e sua homofobia.

Engraçado que ninguém em sã consciência teria a coragem de alegar "objeção de consciência" para debater problemas relacionados ao racismo, seria imediatamente tachado de racista. Engraçado que alguns parlamentares, ditos progressistas, alegam justamente essa “objeção" para não votar, ou não discutir a questão da homofobia (Ex: Marina Silva, Tião Viana) e da equiparação de direitos civis entre heterossexuais e homossexuais (casamento gay, etc).

O fato é que temos que aprender muito com nossos hermanos argentinos. Não importa se jogam um melhor ou pior futebol que nós brasileiros, importa que esbanjam civilidade. Devíamos deixar nossa arrogância e olharmos com admiração e respeito às conquistas dos argentinos. Devíamos estudar a sociedade , para com ela aprendermos.

Exemplos de civilidade argentina?

  • Na Argentina, 95% da população é alfabetizada, enquanto no Brasil, 75% da população economicamente ativa é analfabeta funcional (está aí um grande gargalo para o desenvolvimento do país). Diga-se de passagem, que a Argentina fez uma revolução educacional ainda no século XIX, enquanto nós apenas avançamos nos últimos oito anos do governo Lula, e ainda muito modestamente… Vocês querem mais?
  • A Argentina julgou e puniu ditadores e torturadores, no Brasil eles ainda estão no nome de rodovias e ruas, ou piores são deputados e senadores. Tenho vergonha quando vejo alguns senadores na TV senado, sendo que alguns deles deveriam estar presos ou sendo julgados por seu envolvimento com a ditadura.
  • O governo Lula convocou a CONFECOM, para tentar discutir democraticamente como acabar com o monopólio midiático que sufoca nosso país. Esta foi atacada, desprestigiada e atacada por integrantes do próprio governo (Ex: Hélio Costa – ministro das Comunicações), e as ideias tiradas da conferência foram tachadas pela grande mídia de Chavistas. Absurdo? Não: Brasil. Na Argentina, o governo da presidenta CFK apresentou um projeto de Lei reformando a regulamentação da mídia, que era do tempo da ditadura, a chamada "Ley de los Medios", que ao ser aprovada está quebrando monopólios (como do grupo Clarín) que por sinal são muito menos poderosos que no Brasil. A lei divide as concessões de mídia entre sociedade civil, empresários e governo, e é uma conquista enorme da democracia argentina. (ao contrário do que a grande mídia brasileira disse não tem nada de chavista, e é muito democrática! Basta ler o texto da lei.)
  • Agora mais essa! Os argentinos, objeto de chacota de brasileiros arrogantes, aprovaram em um amplo debate no parlamento e na sociedade, não somente a equiparação civil entre os cidadãos, sejam heteros ou Homos, como o Casamento Igualitário (chamado pela imprensa do Brasil de casamento gay.) O que a lei argentina na verdade faz, é retirar do artigo do código civil o trecho que o casamento é formado por "um homem e uma mulher", substituindo-o por "duas pessoas". Algo bastante simples, mas que dá isonomia republicana de direitos aos cidadãos argentinos e corrige injustiças enormes sofridas por gays, lésbicas e transexuais. Uma coisa que me chamou a atenção é a percepção dos argentinos que a votação da lei não dizia respeito somente aos Gays, mas aos princípios básicos de igualdade e liberdade da República Argentina. Por isso, foi possível ver nos debates um grande envolvimento de heterossexuais defendendo o Casamento Igualitário.(Ex: No programa da Tv Pública Argentina 678 !)

No Brasil a antiquada lei da União Civil – que não equipara heteros e homos – proíbe adoção, nem ao menos foi discutida pelo parlamento! É por isso que a solução que o governo Lula (PT), simpático a causa, foi determinar que a Advocacia Geral da União entre com uma ação determinando que o artigo do "novo" código civil – que já nasceu pré-histórico – que determina que casamento acontece somente entre "um homem e uma mulher" seja considerado inconstitucional e discriminatório. Isso por que a Constituição Federal já diz que todos os cidadãos são iguais perante a lei. Não precisa ser da área jurídica para perceber que o dito artigo do Código Civil é claramente inconstitucional.

Vale neste momento perguntar-nos a razão pela qual o parlamento brasileiro é tão conservador e atrasado… quem escolhe os deputados e senadores que lá estão? Os argentinos? Claro que não! Somos nós brasileiros. Então nessas eleições não somente votemos em candidatos do legislativo comprometidos com estas causas, como nos mobilizemos socialmente, como o fazem os argentinos, para exigir dos parlamentares justiça, liberdade, dignidade e Igualdade.

Outro dia li um "artigo" no Estadão que dizia que a questão do "casamento gay" deve ficar fora do debate eleitoral… ! Ora, quem determina isso? O jornal? A mídia? Os partidos? Não, povo, somos nós! Então se queremos o Casamento Gay ou igualitário aprovado no Brasil vamos impor o debate, pois esse, como cidadãos, é nosso direito político e constitucional. Vale lembrar que a importância do tema dos direitos a livre orientação sexual são muito importantes em um país que um dos campeões mundiais de assassinatos homofóbicos, se não me engano somente no ano de 2009 foram trezentos. Recentemente em São Gonçalo um menino de 14 anos foi brutalmente sequestrado e torturado até a morte, apenas por que era gay. Pois então, está mais que na hora do tema da homofobia e dos direitos iguais entre homossexuais e heterossexuais entrar nas pautas políticas, jornalísticas e do movimento social. Depende de nós!

É isso. Abraços.

PS: Queria ver as organizações LGBTs brasileiras, que por sinal, têm dinheiro, promoverem uma mobilização social parecida com a que foi feita pelos argentinos da Federación Argentina de Lesbianas, Gays y Trans, ou dos "Putos Peronistas". Quem faz a maior Parada Gay, poderia muito bem promover uma campanha de conscientização, e mobilização não? Vale a pena ver os vídeos produzidos pelo INADI argentino: Objetos é ótimo!

PS2: O Brasil está tão atrasado na questão dos direitos civis, que nem ao menos fez o básico, criminalizando a homofobia! Ou seja, em nosso país, ainda se têm o direito de excluir, e ferir moralmente pessoas apenas por que estas não fazem parte da heteronormatividade. Algo urgente precisa ser feito.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

São Paulo é uma merda



São Paulo é simplesmente uma merda. Certamente, é uma das maiores cidades da América Latina, o que não a torna em nada especial. Muito pelo contrário. São Paulo é fedorenta, feia, barulhenta e esburacada. Entre três paulistanos é quase certo que pelo menos um toma algum tipo de antidepressivo. Em cada quatro, é quase certo que todos tomom muita cerveja ou simplesmente se entopem de Rivotril na hora de dormir.
As leis trabalhistas simplesmente não existem aqui – capital dos terceirizados – semi-escravos pós-modernos, nela a apatia é regra. O paulistano médio é apático, acomodado, acabado e tem mau hálito. Ninguém ainda me explicou por que o índice de mau hálito (assim como o de calvície) aqui é tão alto, talvez por que se come pouco, por que a vida é um saco e tudo é muito caro e os preços abusivos. A noite paulistana é uma piada, mesmo se comparada a outras cidades do Brasil, têm-se a impressão que se está em uma cidade do interior. Mas na hora de pagar, percebe-se que estamos em SP - capital dous roubos naturalizados.
São Paulo é uma cidade onde se pode levar três horas da Universidade de São Paulo até a avenida Paulista. Que por sinal não é nenhuma maravilha, é feia, desconfortável, cara e mal-cheirosa. Agora o pior mesmo em São Paulo é o ego hipertrofiado da imprensa paulistana que se acha no primeiro mundo “cult”, mas não vê o mendigo comendo direto do lixo, a merda espalhada pela cidade e o mar de favelas espalhadas por suas margens.
Os rios de São Paulo então são um horror: uma tristeza abissal, estão mortos, fedem tanto que suas proximidades são simplesmente inabitáveis. Outro horror de São Paulo, o barulho: a poluição sonora é uma das maiores do mundo. A cidade parece estar sempre em reforma, e nunca está pronta. Derruba-se tudo para construir algo de péssimo gosto, possivelmente um neoclássico ridículo para atender uma patética “elite” que geralmente tem cérebros do tamanho de uma ervilha. A elite paulistana não mudou muito desde os barões do café, continua inculta, ignorante, truculenta e burra. São Paulo é uma província, também uma cidade que tem como prefeito um “democrata” que faz piada da cratera trágica de uma linha de metrô que só existe nos mapas em épocas de eleição, - uma eterna projeção para o futuro... O povo paulistano apático e triste - perde o cabelo cedo, e em geral é feio, cinza e enrugado. Mal vestido e infeliz.
O que dizer dos restaurantes paulistanos – geralmente caros e ruins – você só comerá bem se tiver muita grana ou souber de um libanês camarada que faz um quibe como se faz em Beirute.
Silêncio aqui só para os ricos. Por do sol também. A cidade é dos excludentes, excluídos, dos tristes, do cinza e campeã em poluição, engarrafamentos e falta de espaço público!
Ah, esses, que se acham "elite" podem se orgulhar de ter a segunda maior frota de helicópteros do mundo, porque o apocalipse aqui é motorizado e desenvolvimentista.
Se você andar pela avenida Paulista em uma tarde de terça ociosa encontrará pelo menos duas dúzias de “bruninhas surfistinhas”: modelos de vida, de estilo e de sucesso. E elas trabalham em banco, escritórios ou "na firma". O que importa aqui é ter sucesso, não importa como, nem por que meio. O que talvez salve São Paulo? Suas margens: aqueles que não se integram à apatia e ao conformismo. Suas tribos pós-modernas, suas tatuagens multicoloridas, seus intelectuais bêbados. Suas lésbicas apaixonadas que se beijam em plena rua, seus punks enfurecidos e seus gatos de rua. O resto é pura merda. Merda fétida e material. Também Merda fenomenológica, intelectual, filosófica e espiritual. Quer viver na merda, venha morar em São Paulo. São Paulo, é capital do fedor, do ego hiperatrofiado e das injustiças escancaradas. O Aparthaid é aqui. Ou seria Haiti?

PS: Muita atenção em qual aeroporto pousar, se você vier voando para cá, pois se escolher errado esse pode ser teu último vôo em vida.

PS2: O autor infelizmente é paulistano, o que não quer dizer absolutamente nada.

PS3: São Paulo tem a mais renomada Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, onde estão seus bacharéis? Na Suíça?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Minorias aos milhões


Minorias aos milhões

Mais do que o retrato de uma classe, a parada gay de São Paulo é um retrato do povo brasileiro


Santiago Nazarian - O Estado de S.Paulo

A Parada do Orgulho GLBT de São Paulo é o maior evento do gênero no mundo. Estima-se que mais de 3 milhões de pessoas passaram pela última e a tendência é que o número aumente este ano. Mais de 3 milhões de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros, incluindo uma parcela significativa de simpatizantes. É um evento que nasceu da busca pela cidadania, respeito e direitos iguais, mas hoje se assemelha a um carnaval fora de época, com sexo livre pelas ruas, consumo desenfreado de drogas e bebidas, assaltos e uma programação intensa de festas paralelas nos clubes da cidade. E daí?

Pesquisas apontam como 10% a parcela de gays entre a população. Infelizmente, ainda é esperar muito que 10% da população brasileira (ou paulistana), seja educadinha, politizada, limpinha e com a libido sob controle. Mais do que um retrato de uma classe, a parada é um retrato do povo brasileiro ? e é importante que seja assim. É desejável e seria louvável que a parada fosse mais organizada, politizada, limpa e segura ? mas não é esse ainda o país em que vivemos. E os gays não vivem num mundo à parte. Mais do que dar um bom exemplo, a parada está aí para dar exemplos. Ser homossexual não é prova de caráter.

Questiona-se por que a parada paulistana se tornou tão grande. Não é fácil entender? São Paulo é das maiores cidades do mundo. O brasileiro é "um povo carnavalesco", com poucas opções de divertimento. Pronto. A importância da parada hoje se dá principalmente pelo seu volume. E talvez o volume seja mais importante do que o foco. São esses milhões que podem parar a Av. Paulista e emporcalhar as ruas. Milhões ? não é um personagem coadjuvante a cada quatro novelas ou um rapazinho no fundo da classe. É importante que as pessoas vejam. E se os clubes resolvem fazer festas, as empresas resolvem distribuir publicidade, qual é o mal?

Estamos no mês dos namorados. Propagandas com casaizinhos apaixonados rodam na TV. Os gays não estão lá. O homossexual ainda está longe de ter sua representatividade na mídia, nas artes. Entre os artistas, só assumem os que não conseguem disfarçar. Galã não pode se assumir gay porque ? diz-se ? vai afastar o público feminino. O adolescente que começa a se perceber diferente não se reconhece ? não tem exemplos ? "eu não sou afeminado", "não gosto de homens musculosos". É difícil se assumir diferente quando exemplos são só estereótipos.

Diz-se que a parada reforça estereótipos. Bem, são 3 milhões de pessoas, a imensa maioria tão neutra fisicamente quanto qualquer imensa maioria. Natural que, entre cem manos de bermuda e boné, uma drag queen se destaque. Natural que a imprensa prefira fotografar alguns milhares de drags e transexuais do que alguns milhões de manos. Mas quem está na parada vê o que qualquer homossexual com alguma estrada pode ver diariamente ? que os gays são seus colegas, dentistas, açougueiros, professores, cobradores de ônibus e pais de família.

Pode-se alegar que hoje já não há tanto preconceito ? os gays não estão sempre no Big Brother? (Já chegaram até a ganhar!) Mas a homossexualidade ainda é vista como uma coisa distante ? "não na minha família!". O que é visto com simpatia na televisão ou na Av. Paulista tem outros olhos dentro de casa ? e olhares de ódio em outras cidades.

Frases de senso comum são proferidas em programas de TV por pretensas simpatizantes bem-intencionadas: "Adoro os gays, mas não gostaria que meu filho fosse porque sei que ele sofreria com o preconceito". Por que não ouvimos "adoro os gordos, mas não gostaria que meu filho fosse"? Provavelmente, no meio artístico, alguém acima do peso é fruto de tanto preconceito quanto um homossexual. Mas sempre se pode emagrecer.

Os exemplos servem para vencer o preconceito. Para quê? Para que não tenha tanta gente apanhando, para que não tenha tanto gay se matando; para que não tenha tanto marido fugindo de noite de casa para pegar garoto de programa na rua; enfim, para que as mães possam aceitar e educar seus filhos para serem mais limpinhos, educadinhos, saudáveis e politizados. A palavra de ordem é "diversidade" e a Parada GLBT ? com orgulho ou não ? está aí para mostrar isso.

SANTIAGO NAZARIAN, ESCRITOR, É AUTOR DE

FERIADO DE MIM MESMO, ENTRE OUTROS

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Imoralidade



"O que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesmo."

[Clarice Lispector]


«La morale est la faiblesse de la cervelle. Acquise sans aucune réflexion, elle s'imprime en nous à nos dépens. Elle est un danger si elle n'est atténuée par la pensée raisonnable.»

Rimbaud

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Imanência



Giorgio Agamben escreve em The Coming Community (1993) : "Há algum tipo de efeito algo que os humanos são e tem de ser, mas esta não é essência pertinente de uma coisa: Ela é um simples fato da própria existência como uma possibilidade ou potencialidade"
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