sábado, 17 de abril de 2010

Experiência

Fotografia: Gisele Alves


Ou divagações em uma manhã de primavera.


Por Augusto Patrini


Toda experiência deixa sua marca, seja na pele, no corpo, ou no mundo interior – tatuagem, escarificação, ruga, cicatriz. Quando marcadas as experiências, tornam-se passando na ilusão do tempo, lembranças e memórias, como terna lembrança do que um dia foi experiência viva; sentimento pleno – alegria. Esta quem sabe seja uma forma poética de encarar as escarificações de nossa memória, aquela que entende a própria vida como obra de arte, como fenômeno e substância. Outra forma, entretanto, completamente diversa existe, são aquelas que entendem as lembranças cheias de fantasmagorias, nostalgia, pesar, ressentimento e tristeza – aquela para quem a possui a única fuga possível é a decadência e os abismos tenebrosos – possuidores do esquecimento que alivia. Salva.

Entretanto o que fazer das lembranças quando se perdeu a fé em tudo? O que são as memórias quando se é um cético radical? Apenas registros fotográficos em nosso negativo orgânico mental? Pois se existem marcas, são realidades ou alucinações? Elas são ‘passado morto’ ou ainda vivem no presente- possuindo-nos em suas reminiscências e vagas de influência. Como, nessa sentido, conviver com lembranças de algo belo e prazeroso, quando isto acabou-se – tornando-se apenas uma fotografia antiga meio sépia? Borrada.

De qualquer forma, se algo já não é o que foi, será necessária uma ruptura radical com esse passado? É possível separar-se dele? Não seria mais sábio encará-lo e aceitá-lo? Por que se no fundo mesmo o que já não é, ficará marcado eternamente, no negativo orgânico mental – como algo que foi o que foi e por isso ainda é. Tudo será assim bom, belo e prazeroso de um lado, e de outro declinante e decadente. Pois que viver, não seria justamente declinar, decair? Em 3 meses, 6 anos ou 40 anos, não importa, todos cheios de lembranças pereceremos. Enfiem o passado e o futuro, realmente existem? Não, não há recomeço, ressurgir – tudo isso é ilusão dos entorpecidos; para fugir das lembranças somente duas opções são realmente possíveis: a loucura (em suas variadas formas: torpor, alucinação, fé) ou a morte. Negue o que foi e que ainda é, e estará dando as costas para a vida.

Tudo isso é sim muito melhor, melhor do que aquilo que nunca foi, e que ficou apenas como uma possível expectativa de experiência. Essa dor, a do não ter sido, não há nada que cure. Ironicamente, ela ficará para sempre, essa não-experiência, marcada em nossa memória de existência.


2 comentários:

polivocidade disse...

Creio que uma lembrança dolorosa ou infeliz seja como uma fogueira. Se ainda arde em chamas, é preciso saber de onde vem o combustível para alimentá-la. Se já são apenas os calores das cinzas, é preciso deixar que amainem.

Nesse ponto, estou com Nietzsche e os gestaltistas. Uma porta entreaberta sempre deixará um rastro de curiosidade, ou para abri-la, ou para fecha-la permanentemente.

Mas é sempre uma espécie de narrativa. Toda psicologia, toda terapêutica do ser, na minha modesta opinião, deveria ser uma narrativa, jamais uma ciência ou truque.

Bom texto, abraços!

Conrado disse...

"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos". (Marx, 18 Brumário de Louis Bonaparte)

Impossível e indesejável se livrar do passado. Temos que lidar com ele de uma forma ou de outra.

Essa é a grande dificuldade da vida: encontrar uma maneira de crescer com o passado. Um jeito de transformar o passado em bom futuro.