quarta-feira, 26 de março de 2008

Desesperante Fumaça




por Guilhermo Breytenbach B.de Mont Serrat


Sorveu a fumaça suja do cigarro para seu peito, lento e despudoradamente. Olhou a janela, lá fora a chuva deprimida caia e a cidade cinza: em coma adormecida.
Levantou-se do sofá de couro, foi até a estante plena de livros, Camus e Lispector. Pôs um disco de Ella Fitzgerald e a melodia toda envolveu a penumbra, um sentimento lívido, branco e imenso. A Libertação.
Passara o dia a esperar, esperara o amigo que não viria, o telefone que não tocaria e a carta que não chegaria. Passara a vida toda a esperar, a esperar por um mundo melhor, onde a miséria e o preconceito, o egoísmo e a ira não dominassem tudo e todos. Realmente estava cansado de esperar, esperar por este mundo tolo e errado. Estava cansado, muito cansado de lutar, de tentar fazer sua parte, de brigar e de chorar. Pensou na utopia, na utopia que diante deste mundo errado insistia em existir.
Maria, na faculdade sempre dizia: você pensa de mais... Achou que ela tinha toda razão, porém não podia poupar o mundo de sua crítica, não poderia ignorar tanta dor e asco, por que achava o vomito e os excrementos do mundo demasiadamente físicos e presentes na vida. Maria nunca o abandonara, nem mesmo em suas andanças pelo Brasil e pelo mundo... Nunca. Sempre uma carta mágica chegava, estranha-maravilhosamente quando parecia que toda esperança perderia, mesmo quando a escuridão tudo engolia, engolia, engolia, engolia...O vomito do mundo. Até que um dia fatídico e real engoliu-nos o mundo, a tortura e a loucura, e onde estaria agora Maria? Para sempre desaparecida e engolida pelo mundo, pela dor e pela fúria. Seria a ditadura das coisas? Do mundo e dos homens que me tiraram Maria para me negarem para sempre a esperança e a vontade de ver no sonho a realidade?
-Não, pensou, chega, não vou chorar, há muito tempo superara Maria, em seu peito terrivelmente às vezes voltava das trevas, nas lembranças douradas despertava quase-viva, suplicante a lacrimejar: - Por favor, não me esqueça... não me esqueça,...não me esqueça o sonho. Prometeu um dia, sim se lembrava muito bem, ainda na faculdade... Porém como suportar triunfante a lembrança dourada da realidade que não voltará. Como não soluçar toda esta dor, toda a saudades e toda a fúria, por ter, o mundo negado-lhe Maria.
Nunca mais após aquilo, seria o mesmo, pagara por acreditar, por acreditar em um mundo melhor, onde a liberdade e a justiça fossem uma realidade, pagara físico e emocionalmente, sem o sonho e sem Maria perdera tudo. A vida, a luz para se tornar a sombra do que tinha sido, nos tempos de liderança estudantil. Maldita Historia latino-americana, Maldita! Achou que nunca se libertaria, enfim, depois da dor e da escuridão tentara acreditar, levar a vida,... Mas hoje via o mundo igual, coeteris paribus,... A realidade continuava tão injusta e podre como antes, ai hoje tinha vontade de gritar para o mundo tolo e ingrato o sacrifício de Maria, o sacrifício de sua Maria. Gritar para os tolos deste imenso país que tudo apesar de seus sacrifícios continuara igual, e que isto não era justo e certo com o mundo, com eles e com o futuro que um dia nasceria. Tentara fazer algo na escola, sim! Mas até lá; no começo era o Medo que vinha de cima, depois a memória tola dos alunos que esquecia o que não podia ser por ele esquecido, afinal não haviam vivido.
Irremediavelmente, admitiu não poder nem mesmo esquecer, pois tudo aquilo tinha sido inesquecível, a amizade, branda, branca, lívida e depois o amor profundo e devastador, parecia que juntos poderiam reconstruir o mundo - doce e tola prepotência juvenil.
Tentou pensar o que tudo aquilo significava, depois a chegada de Carlos em sua vida, reconstruindo tudo, reformando tudo como um grande tolo e prepotente arquiteto-engenheiro.
Olhou para o copo de uísque e pensou há quanto tempo não pensava mais em Carlos e sua risada juvenil e larga... Porém tudo aquilo, aquele ambiente enfumaçado e a voz de Ella, chorando, o oprimia mais do que sete palmos de terra. Por Deus, pensou, tu es realmente pequenino e insignificante e não podes mudar o (desar)rumo humano!
A saudade negra e poderosa apoderou-se aos poucos de sua garganta magra e lamacenta. Seu rosto adquiriu feições cinzas e graves ao lembrar dos rostos dos seres que mais amara em sua pobre e infeliz vida. Desde que Carlos o deixara, pensará, que tudo estaria definitivamente acabado para ele, sentia-se velho e enrugado, e o sopro divino parecia que deixara seu esquálido corpo, enchendo-o de pesadelos durante a noite. Porém, gritava interiormente que não queria, não queria morrer sozinho, sempre fora este seu maior pesadelo! Carlos surgira assim tão de repente, assim como não quer nada, tentando construir sua historia reconstruindo a sua, sem querer, transformar seu medo e sua dor em esperança. Na idade em que a maioria das pessoas defrontava-se com a vida e com o nascimento, ele, deparava-se com a morte por todos os lados, e Carlos achava que não devia ser assim,... achava que ele também poderia esquecer, e reconstruir a vida em sua quase-vida,... Odiava relembrar as coisas, mas não podia evitar, por afinal a sua própria existência dera-lhe uma consciência.
Sentado olhando a parede branca, coberta de sombras aveludadas, lembrou-se de seus corpos brancos e suaves: Ele-Maria-Carlos sentia-os infinitamente atados, interligados, prisioneiros do mesmo pesadelo fosco: morte, dor e prazer. Não queria lembrar-se como eram boas as manhãs de domingo onde pelo parque com Maria, o sol doce transfigurava tudo e esqueciam toda luta, toda miséria e dor e entregavam-se puros a seus corpos e espíritos unos, a seus vinte anos, e então tinham o luxo de sentir sobre seus pés a imensidão da terra, doce e fértil, para o céu azul contemplarem juntos, embebedados de vida. Não queria relembrar a risada franca de Carlos, e suas conversas, sobre tudo e todos falavam, e ele aos poucos se deixava dominar pela pureza daquele rapaz, ainda tão jovem e cheio de esperança, deixava-se levar por seu amor desinteressado,... Conhecera-o na faculdade, aluno serio e aplicado, porém ao contrario dele aos vinte anos, livre do peso do mundo, livre da obrigatoriedade em mudar o mundo,...
Mas estava de novo, de novo naquela tarde de domingo preso em seus delírios depressivos, novamente gritando interiormente sua fúria o deixava certamente ridículo e cinza, e seu rosto franzia-se todo, indiferente ao Jazz na voz de Ella.
Abriu um livro, o Estrangeiro, achou uma carta, era de Carlos, do tempo que ainda não moravam juntos, leu-a em voz alta:

São Paulo, 20 de junho de 1987.

Querido Amigo,
O vento passa sobre nossas cabeças. Estamos nos todos bem. Lá no alto o sol continua a brilhar obstante a tudo. As crianças continuam a nascer, brincar e o mundo continua a rodar. Todos nós com suas historias e ideais. Mas até onde? Até quando? Onde o vazio poderá tudo engolir?
A esperança. Eu me pergunto. É ela um chacal ou um cordeiro?
Eu olho o céu luminoso cheio de veludos e algodões e não sei se choro ou se rio. Tudo tão grandioso; as torres gigantescas e eu aqui em baixo pareço, às vezes tão pequenino. Mas tenho consciência da grandiosidade de meu espírito. Por que eu penso e isto me basta para garantira continuidade da vida. E esta continuidade me faz forte. Não vou dizer que não tenho medo. Sim eu tenho. Tenho medo de viver só, tenho medo de morrer só. Mas não esmoreço, continuo a lutar. Lutar para ter esperança, lutar para acreditar em um mundo melhor.
Às vezes tudo parece tão luminoso, às vezes tudo é tão sombrio, mas justamente por isso o mundo torna-se tão intrigante e belo. As pessoas são tão complexas e estranhas e nisto temos a possibilidade de vermos toda cor.
Você sabe naquelas tardes frias cheias de sol, quando sentimos o gosto ocre do chá na boca e ouvimos um Blues qualquer e aí, vem no espírito aquele raro momento de Paz. Todo aquele cenário. E são aqueles tons de prata sobre o pelo e aquelas sombras roxas na parede e são as horas das estranhas nostalgias majestosas; onde degustamos o presente, rememoramos o passado e acreditamos no futuro. E nestas horas o lampejo de paz penetra tudo, todos cantos e segundos do meu apartamento branco.
E aí depois, é tão fácil ver toda cor, no canto de um parque a majestosidade da terra e do amor.
Com amor,
Carlos

O amor, como só os jovens e tolos podem fazê-lo, porém invejava-se de sua capacidade de ver esta cor, desde que Maria se fora nada lhe devolveria isto, nem mesmo o amor de Carlos, nada,... E talvez por isso ele partira em uma manhã fria de outono, deixando para traz parte de si, e caminhado já como homem, com um rosto, já com algumas rugas. Não foi fácil para ambos, muitas lagrimas, tinham escorrido desde então, muita saudade e arrependimento, até que em alguns meses, o telefone tocou (lembrou-se ainda, com um arrepio de seu som surdo), Carlos adoecera,... Alguns meses depois estava morto, assim como Maria, para sempre longe, para sempre morto, sobre sete palmos, morto, tão morto. Nunca aceitaria a morte, negara-lhe o seu reconhecimento e contra ela se revoltara irremediavelmente, extraindo de sua revolta e dor toda força, e ainda, assim, continuava vivo. Para negar-lhe o prazer, negar à morte, seu corpo, sua alma, negar ao mundo ver, ele sozinho e cinza, morrer enfim derrotado pelos fatos,... Nunca! Negava-se a morrer, dizia para si mesmo que sua velhice seria a comprovação e o relato de sua revolta, sobre as coisas e sobre o mundo, pois por isso recusaria-se a morrer, mesmo que Maria e Carlos viessem buscá-lo para levá-lo de seu pesadelo senil para eternidade e transitoriedade das coisas, recusar-se-ia, por deus, recusar-se-ia a aceitar a morte!
Queria mudar as coisas, os fatos, a vida, queria mudar tudo, ainda que senil e cinza, queria mudar tudo, vencer a morte.
Dobrou a carta, colocou-a, dentro do livro, e evitou quando o colocou devolva na estante, fitá-los de frente para não se lembrar, vendo seus rostos-livros, de seu próprio rosto dourado-delirio-sonho, hoje enfurecido.
O silêncio, o silêncio, o silêncio, penetrando tudo, como a ante-sala da morte, aterrorizando-o, deixando-o estático, duro no canto cinza, cigarro na boca, olhos esbugalhados.

Um comentário:

Lethícia disse...

com relação a ilustração
veja pelo lado bom aqui são as menores taxas de suicidio.